Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

Epístola aos pais

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Neste número resolvi transcrever parte de um texto escrito pelo meu muito saudoso professor Emílio Peres, mestre em ensinar e em transmitir ensinamentos de uma forma simples e acessível.
Deixo-vos uma “Epistola aos Pais” do seu livro “Bem Comidos e Bem Bebidos” para que os pais possam reflectir um pouco sobre a alimentação das suas crianças e sobre o futura da sua saúde.

“Da maneira como educais os vossos filhos desde os mais tenros anos dependerá o futuro deles. Capacidades, aptidões e comportamentos modelam-se através de estímulos afectivos, ritmos respeitados, procedimentos exemplares, linguagem adulta, explicações consistentes e abertura de pistas de reflexão.
Pais, conviventes próximos, meio cultural envolvente e escola devem dar as mãos para levar a criança a conhecer o mundo, questioná-lo e nele intervir.

Comportamentos e práticas alimentares integram-se no comportamento perante o mundo. Merecem boa atenção porque determinam a construção do corpo durante gestação, infância e adolescência, a criação de resistências, a promoção e a manutenção da saúde mental e física.
Desejamos que a criança nasça escorreita, se desenvolva física, psíquica e emocionalmente ao máximo das potencialidades herdadas, e crie saúde para toda a vida, que desejamos longa e plena de bem-estar.
Desejamos que a criança aprecie e respeite alimentos e comidas, não delapide nem esbanje, e saiba que interferirá na natureza, para bem e para mal, conforme alimentos e bebidas preferidos, quantidades usadas e modos de cozinhar.

Que a vossos filhos não falte o leite da sua mãe porque nenhum outro o supera. Alimenta a preceito e confere imunidade, gera corpo e bem-estar.
A qualidade do leite materno varia para se adaptar às sucessivas necessidades do novo ser, desde a aguadilha da primeira semana, passando pelo fluido denso e branco dos primeiros meses e voltando a aguar quando a criança começa a contactar com outros alimentos.

Que, desde a introdução da alimentação mista, confrontem vossos filhos com muitos alimentos diversos. Desde a inaugural sopa de vegetais até à ida para a escola, mas, sobretudo, até ao terceiro ano de vida, que a criança experimente, pouco a pouco e um a um, de tudo o que há para comer. Evitareis choros, cuspidelas e desesperantes “não quero” tão frequente quando, antes de completados os 2 anos, o comer foi sempre igual, de monótono paladar, sempre de consistente pastosa.
Da diversidade do que se come decorre a riqueza da nutrição. Não leveis vossos filhos a dizer “não gosto”. Desconfiai de infantários e jardins-de-infância com ementas semanais sempre repetidas nos mesmos dias.

Sede atentos para que os vossos filhos apreciem todas as frutas, para que gostem das mais variadas hortaliças no prato e na sopa, para que desejem diferentes pães, massa, arroz, farinha de pau, batata, para que reclamem feijão, ervilha, grão, fava, tremoço, para que gozem a pura água, para que peçam os mais variados peixes, pequenos e grandes, para que aceitem ovos, aves e outras carnes.
Variai de cozinhas e multiplicai os alimentos escolhidos para que paladares, odores, texturas e coloridos se sucedam e combinem. Abandonai cedo papas e comida moída, a saber sempre ao mesmo e a descentivar de mastigar. Propiciai oportunidades para que as vossas crianças dêem ao dente, ensalivem, roam.
Afastai-as do pronto-a-comer, do lixo alimentar, dos comeres de piquenique, das “coisas” que enfardam e pervertem apetites. Introduzi as crianças nos prazeres da autêntica comida genuína.
Não rejeiteis à criança a água que ela solicita porque a sua sede não se satisfaz com pouco; se vos espantais com o que digo, atentai que também vós deveis beber com mais generosidade.
Retende que a sede se mata com água. Refrigerantes são bebidas de excepção e não lhes cabe o nobre papel de dessedentar. E bebidas alcoólicas, como sabeis, não são para crianças.

Não crieis hábitos maus a vossos filhos; se tendes comportamentos incompatíveis com alimentação sadia, abandonai-os cedo, logo que penseis ter um filho, porque vós sois exemplo vivos copiados por toda a vida.
Preteri falsas comidas e falsas bebidas. Recordai que batata frita, folhados, fritos, molhos, cremes para barrar, salsicharia, pronto a comer e pastelaria industrial é tudo demasiado gordo e abundante de moléculas gordas adulteradas. E que guloseimas, biscoitaria, pastelaria e refrigerantes são demasiado açucarados.
E que a combinação de tais produtos, pela gordura exagerada, pela maior abundância de açúcar do que de amido, e pela pobreza de substâncias reguladoras, activadoras e protectoras, é procedimento nefasto porque induz, com o decurso dos anos, as temíveis doenças metabólicas e degenerativas crónicas que tanto afligem os adultos destes tempos. Doenças tanto mais graves e precoces, quanto mais cedo na vida se adoptam nefastos procedimentos alimentares.

Sede atentos com a vossa culinária para que seja saborosa, agradável, simples, com pouco ou nenhum sal, e variada.
Não habitueis vossos filhos a refogados, fritos, folhados e assados em gordura. Em dias comuns, despertai-lhes apreço por saborosos pratos confeccionados, desde início, em água ou caldas, como são o cozido, caldeiradas, jardineiras, escalfados, ensopados, açordas e arrozes. Honrai as sopas de hortaliça.
Moderai a utilização de gorduras e respeitai a sua integridade. Para isso, preferi usá-las cruas, a temperar pratos; mas, quando as levardes ao lume, que água ou caldos as acompanhem, desde início, para que não frijam. E recordai que, entre todas as gorduras, o azeite é sagrado.

Fugi de produtos manufacturados cujos rótulos refiram aditivos ou gordura vegetal hidrogenada; e rejeitai os que não vos mereçam confiança quanto a limpeza e higiene, integridade e bom estado da embalagem, prazo de validade, frescura ou congelação perfeitas. Aumentarão, assim, as probabilidades de vossos filhos crescerem sem diarreias, enjoos, cólicas, indigestões, intoxicações alimentares e alergias.

Sede atentos às horas de comer. Que o primeiro almoço nunca falhe e se o vosso filho acorda sem apetite, procurai as razões, porque esta primeira refeição importa muito para o desenvolvimento, para criar resistências e para a escola render.
Preparai com amor a merenda que ele comerá no meio da manhã e sede atentos ao que almoça, merenda à tarde e janta, e não o deixeis comer fora de horas e a toda a hora.
Criai bom ambiente às refeições; com os pés debaixo da mesa, conversai, distendei-vos, mastigai bem e ensalivai; fugi de berros, reprimendas, discussões ou mudas ausências. Que a hora solene de comer avive o convívio familiar e de amigos.

Retende o que aqui vos digo porque saúde e felicidade nunca sobram.
Mas atentai à bolsa, também; não desperdiceis. Não vos encanteis com o que se vende caro em belas roupagens porque não há bons alimentos nem produtos virtuosos de fantásticas propriedades. Há, isso sim, boas alimentações que são as que reúnem equilibradamente alimentos naturais nas devidas proporções, que se ajustam em quantidade às necessidades de cada idade e à maneira de ser de cada um, e que são higienicamente limpas, bem confeccionadas e servidas a horas em refeições bem estruturadas.

Nenhuma comida é boa para uma criança que desrespeita as necessidades do seu corpo. Afastai-a do sofá entorpecedor e da televisão paralisante. Que salte, pule, corra, jogue à bola, nade, em suma, que se mexa. E, sempre que seja seguro, vá para a escola e regresse a casa por seus pés.

A criança é espelho de seus pais e da sua época. Reencontrai a cultura da mesa e trabalhai o corpo.”

Por: Susana Ferreira

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