Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

PADRE DOMINGOS, RECORDADO (V)

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No artigo inicial desta série disse que tinha duas razões pelas quais resolvera recordar a figura do Padre Domingos Pereira e avancei com a primeira: dar a conhecer meia dúzia de obras surgidas nos últimos anos que pudessem ter passado despercebidas a quem vive longe dos grandes centros urbanos e dos movimentos editoriais. Assim der a conhecer o romance de Duarte Mangas “A Geografia do Medo”, na qual o levantamento de Julho de 1912 e o padre monárquico conspirador são peças relevantes; o diário do Padre José de Magalhães Alves Costa de Ribas (Celorico de Basto), intitulado “Um Delito de Opinião” no qual aquele episódio revolucionário e o padre e suas guerrilhas são amplamente recordados e ainda outros onde aquela época e aquela figura têm o seu apontamento.
Vamos à segunda razão:
O Padre Domingos nasceu em 1862, mais precisamente a 9 de Agosto, na freguesia de Negrões, do vizinho concelho de Montalegre. Assim, em 9 de Agosto de 2012 completam-se 150 anos do seu nascimento. Nesse ano de 2012 comemora-se igualmente o centenário do Levantamento de Julho e da ocupação do concelho nos dias seguintes por um terço do exército português, apoiado por colunas de civis maçónicos e jacobinos que foram semeando o terror entre um povo apodado de feroz e cruel que, quando muito, queria que o deixassem sossegado, lhe permitissem o baptismo, o casamento e o enterro religioso sem entraves e que deixassem os padres e os fradinhos exercerem o seu múnus espiritual na paz do Senhor.
É ocasião azada para a realização de uma grande homenagem não só à figura do padre mas também ao povo daquela época, já quase todo desaparecido pela lei da vida mas ressuscitado na figura dos seus filhos, netos e bisnetos. A edilidade de Montalegre, esta por ser o local onde o padre nasceu, e a de Fafe onde o mesmo, por várias vezes, exerceu as funções de administrador do concelho, deverão ser chamadas à sua quota-parte de responsabilidade. A exposição que a Câmara Cabeceirense apresentou há alguns anos pode e deve ser o foco de irradiação para uma organização de maior fôlego. Também me parece que o nome do Padre Domingos deveria ter na toponímia o destaque que merece.
Seria também de publicar o livro que o jornalista Joaquim Leitão escreveu, intitulado “As Guerrilhas do Padre Domingos”: confesso que o tenho procurado afincadamente mas não encontro rasto de um único exemplar. Aguardo uma resposta da Biblioteca Nacional de Lisboa sobre este assunto. Mas não haverá um cabeceirense que num velho armário, no meio de papéis e documentos antigos, não encontre por feliz acaso um exemplar ou umas páginas dispersas?
Sei que para 2012 ainda faltam quatro anos, que é muito tempo para o que atrás proponho. Mas já não é muito tempo para a minha derradeira proposta: a feitura de uma biografia do Padre Domingos. É uma tarefa hercúlea, podem crer. Só tentar descobrir e reunir alguma documentação que ainda não desapareceu no tempo é uma missão espinhosa; esquadrinhar toda a imprensa cabeceirense desde cerca de 1900 até ao fim da 1ª República (1926) (e a propósito, sabe quantos jornais se publicaram em Cabeceiras nesse período? O Jornal de Cabeceiras, O Cabeceirense, O Eco de Cabeceiras, O Apóstolo de Braga, O Correio de Cabeceiras, O Democrata, O Futuro de Cabeceiras, O Povo de Cabeceiras e até um jornal humorístico, O Pardal); esquadrinhar a imprensa diária de Braga e Porto do mesmo período; procurar os processos instaurados ao Padre Domingos que culminaram com gravosas condenações a prisão maior e ao exílio; conhecer, talvez por correspondência que ainda possa vir a ser descoberta, os locais de exílio em Espanha e as constantes mudanças de residência para fugir à polícia espanhola e aos espiões remetidos por Lisboa; ler os livros de Joaquim Leitão, o biógrafo das Incursões Monárquicas; obter autorização da Arquidiocese de Braga para verificação do seu processo como estudante do Seminário de Braga e como pároco de Outeiro; entrevistar os familiares e obter deles fotografias e documentos; vasculhar os arquivos municipais de Fafe e Cabeceiras nas épocas em que foi administrador destes concelhos onde se poderá encontrar documentação com interesse e se poder fac-similar a sua letra e a sua assinatura. Um mundo de coisas a fazer.
(FIM)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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