Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-02-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (3)

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Era eu um simples 1º cabo do Esquadrão a cavalo do Grupo Dragões de Moçambique, quando se anuncia a visita a Moçambique do então Presidente da República Gen. Craveiro Lopes.
Lourenço Marques vestiu roupagem nova para receber tão ilustre visitante.
Era então Governador Geral Gabriel Teixeira e Cardeal da Província de Moçambique D. Teodósio Clemente de Gouveia.
Em cerimónias oficiais a guarda de honra era sempre prestada pelo Esquadrão de Cavalaria. Estávamos no ano de 1956 e no dia da chegada de S Exª o Esquadrão lá se apresentou no aeroporto a prestar a honra da praxe.
Era um pelotão comandado pelo capitão Moura dos quais faziam parte seis cavalos brancos com instruções para fazer escolta à viatura Presidencial. Um Tenente, um Sargento, Um Cabo (eu) e três praças. Eu tinha recebido ordens para desfilar com a égua elegante que não sendo o meu cavalo da linha era um animal extremamente nervosa, difícil de montar e não admitia esporas com a agravante de ter que ser conduzida só com a mão esquerda já que na direita levava a lança presa no estribo, era tudo muito a rigor.
Já com o Presidente dentro da viatura a aguardar o início do desfile, começou a minha odisseia. A égua ficou de tal modo nervosa com tanto aparato que ao coice pôs o pelotão todo em desalinho merecendo a atenção de S. Exª. que reparava em tudo o que estava a acontecer.
A trote em dois tempos, começou o desfile, a confusão era muita, os pretos às centenas queriam todos empurrar a viatura Presidencial o que aumentou o nervosismo da minha montada, até que surge na berma da estrada a banda de um barco de guerra tocando música marcial. A elegante espantou-se, toma o freio nos dentes e largou à carga ultrapassando tudo o que estava à sua frente. Com esforço consegui voltar ao meu lugar, mas pouco depois apareceram os marimbeiros de Zavala executando danças guerreiras e tocando as suas marimbas. Novamente a égua dispara me louca galopada e eu já não tinha forças para a dominar, por instantes julguei que ia morrer.
Consegui ainda usar a táctica da cavalaria numa situação destas, atirei-me ao pescoço do animal onde fiquei pendurado, as pernas da égua iam batendo nas minhas até parar, só que ela começou a rodopiar com tal força que me atirou pelo ar largando as rédeas.
Pela terceira vês lá vai ela novamente à carga desta vez sem cavaleiro. Fui a pé para o quartel, mas ao chegar ao Alto Maé uma criança na rua perguntou-me se o cavalo que ia fugir era meu. Respondi que sim. Olhei para o chão e fiquei aterrorizado, no asfalto havia um rasto de sangue. Ao chegar ao quartel vi o estado do animal com os ossos à mostra pois tanto cavalgou pela cidade até chegar ao quartel que destruiu totalmente as muralhas dos cascos. Já temendo o pior surge o capitão à frente do pelotão e apenas me perguntou, estás ferido? Respondi que não, mas o arreio estava partido e tinha desaparecido a lança e a cabeçada, o capitão bem humorado respondeu, não faças caso paga o Presidente.
A égua de quem falamos esteve suspensa numa boxe durante seis meses até ganhar novos cascos.
Dias depois, era escalado para outra missão desta vez mais agradável que era a de fazer guarda de honra ao altar dentro do quadrado de Marracuense com a presença do sr. Presidente da República.
O Quadrado de Marracuense – Vila Luísa situava-se a 30 kms, de Lourenço Marques, tinha como pano de fundo o Rio Incomati, era um local histórico e turístico devido aos hipopótamos quem em quantidade por ali andavam.
Histórico por que foi aí que o glorioso capitão Joaquim Mouzinho de Albuquerque à frente de um punhado de bravos soldados e usando a táctica de D. Nuno Álvares Pereira na batalha de Aljubarrota depois das duas tropas numericamente muito inferiores em forma de quadrado tendo derrotado de forma esmagadora as hostes do temível Gungunhana perseguindo depois os sobreviventes em fuga até à vila de Chaimite onde culminou com a prisão do dito Gungunhana.
Esta batalha deu-se em 1896 e nela participaram 96 militares portugueses contra 5.000 Bátuas e com afinidades à casa do Souto. No mesmo dia e no mesmo local, foi ainda feita uma reconstituição da batalha com a presença do Presidente da República.

Por: Alexandre Teixeira

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