Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (2)

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Nos meus vinte e três anos de vivência em Moçambique, uma boa parte foi passada em Vila de Manica uma pequenina cidade, cujo o quotidiano era praticamente igual todos os dias.
Esta terra bem perto da Rodésia do Sul, vivia essencialmente da agricultura e também do cultivo do tabaco. Não propriamente dentro da cidade, mas na redondezas.
Sendo o primeiro acto praticado na via férrea junto à povoação do Garuso, tendo originado o descarrilamento do comboio correio e de passageiros em que não houve feridos apesar de três carruagens terem saltado dos carris. Como capataz de via que era fui ajudar o colega a reparar a linha.
A partir daí passei a ter medo embora as acções que se seguiram fossem feitas durante a noite. Os meus trabalhadores choravam com medo não queriam ir para a linha mas aos poucos a guerra entrou nos nossos lábios e km a km lá fomos chegando ao fim da nossa área de trabalho.
O alvo principal dos turras eram as herdades e o Caminho de Ferro e o caso que particularmente mais me chocou aparte a morte da D. Maria José, foi a do meu colega Mário Bichel. O Mário era um jovem capataz de via e a sua área de trabalho confinava com a minha e foi precisamente a cem metros que se deu a terrível tragédia.
Quando o Mário procedia à substituição de um carril que estava partido, uma mina que estava escondida debaixo da brita explodiu com tal potência que desfez o corpo do pobre Mário e o de mais cinco trabalhadores. Havia até bocados de carne pendurados nas micaias (árvores com espetos). Foi horrível…
Seguiu-se depois um atentado contra uma automotora em que a mina rebentou à passagem da referida automotora originando a morte do condutor e do revisor de bilhetes e um polícia do Caminho de Ferro que ao saltar para a berma pisou um mina anti-pessoal que lhe decepou uma perna.
Outro caso aconteceu com um comboio em que o rebentamento aconteceu numa recta e o maquinista conseguiu recuar o comboio ate ao apeadeiro e pedir socorro. Eu fui chamado ao local para reparar a linha e verifique que faltava um metro de carril de 40 kgs. que foi pelos ares. Também aí havia uma mina anti-pessoal que foi pisada por um cão que por ali passou e foi cortado ao meio. Esse tipo de minas era o meu grande receio pois encontravam-se escondidas no meio de tufos de ervas, e quando pisadas podiam decepar as pernas.
Mas o caso mais aparatoso deu-se na minha área de serviço. Os turras acertadamente (para eles) colocaram a mina numa curva e na fila exterior do carril, quando o fizeram explodir foi mesmo por baixo da locomotiva e obviamente deu-se o descarrilamento, tombou e foi parar ao fundo do aterro arrastando vários vagões. Foi muito difícil colocar esse material novamente a circular, mas felizmente não houve feridos só danos materiais.
Resta agora dizer como eram colocadas as minas. Pois bem; os tipos removiam a brita debaixo da patilha do carril faziam uma cova e era lá posta a mina amarrada com uma corda feita de casca de árvore (cambala) com cerca de 30 m estendida pelo mato fora, o operador deitava-se de barriga para baixo e puxava a corda quando a máquina em marcha estava sobre a mina e logo se embrenhavam no mato correndo e disparando tiros com as armas viradas com o cano para trás.
Quanto às herdades várias coisas aconteceram. A morte da D. Maria José deu muito que falar e quase ia provocando um levantamento popular da parte dos brancos, mas era difícil a tropa agir porque os turras nunca se mostravam mataram também o Costa de Elvas, um furriel de Gondomar e o Alfeu Cardos foi metralhado mas só morreu o preto que ia a seu lado. Depois disso os agricultores passaram a vir dormir na vila e só trabalhavam as herdades durante o dia.
Para quem nunca passou por estas situações devo dizer que houve momentos deveras assustadores que tivemos que aguentar um ano aproximadamente até chegar o 25 de Abril.

Por: Alexandre Teixeira

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