Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2008

SECÇÃO: Opinião

OS IDOSOS

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UMA SITUAÇÃO PREOCUPANTE

Como cuidadosa preparação da opinião pública, em ordem a um clima propício à aceitação da eutanásia, tal como já aconteceu em relação ao aborto, deu-se grande visibilidade a um inquérito nacional feito a idosos internados em lares diversos. Não faltaram opiniões variadas a fazer a leitura do resultado e títulos tendenciosos a orientar para conclusões. Já estamos habituados.
A situação pessoal e social dos mais idosos é talvez o problema mais preocupante e grave a que assistimos hoje. Cresce o número dos que não têm lugar na casa que construíram com muito amor e sacrifício e que hoje é a casa dos filhos, demasiadamente ocupados para serem sensíveis. Cresce o número de famílias desestruturadas para as quais o idoso se torna um intruso incómodo, é difícil a situação de muitas famílias em que o casal trabalha fora, vive em casa exígua com rendimento reduzido e leva ainda e diariamente, o cuidado de um idoso querido que tem consigo e dos filhos que começa a distribuir, por instituições adequadas, ainda o sol vem longe.
Muitos são os idosos que vivem nos meios rurais com os filhos emigrados, ou migrados mas a muitos quilómetros de distância. Não faltam idosos isolados, de quando em quando, roubados e espancados, sem se ver como protegê-los. O tempo de vida alargou-se, mas a vida de um idoso, ainda que em condições regulares de saúde e de conforto, tem exigências múltiplas, nem sequer com resposta fácil.
Por outro lado, surgem, por todo o lado, iniciativas que minimizam as carências e dão alguma satisfação às situações existentes: casais que regressam à terra natal para cuidar dos seus idosos; estruturas regulares de apoio a partir de instituições de solidariedade, como lares, centros de dia, apoio domiciliário, acolhimento nocturno, centros de convívio, estímulos do Estado, traduzidos, por exemplo, em pensões sociais e descontos em medicamentos; são múltiplas as actividades de lazer, passeios turísticos, preparam-se profissionais e voluntários para tratar idosos e lidarem com eles; há literatura diversa a chamar a atenção para os idosos e os seus problemas e até meios organizados para aproveitar e valorizar as qualidades e capacidades. As situações são muito diversas e o que de uns podem beneficiar outros desconhecem-no.
Para todos, a família quando o tem, e o amor que dela se espera, porque a ele se tem direito, é e sempre será o maior e o mais indispensável apoio e estímulo ao viver de um idoso. Ninguém pode viver sem amor. Quem não se sente amado, só pensa na morte, dela fala e a deseja. Todos os outros meios, mesmo os mais válidos, ou têm o tempero do amor ou perdem, a pouco e pouco, o sentido e valor. Assim o inquérito revelou.
É uma atitude lamentável, a de muitos filhos, sem preocupação de procurar a melhor solução, tentarem internar os seus idosos em lares. Por isso há nestes, listas de espera por todo o lado. Para muitos destes filhos, idoso internado é depois pouco ou nada lembrado ou visitado. E isto é o que mais dói a um idoso, arrumado e esquecido. Só o desabafa com quem confia, mina-lhe por dentro a alegria e a vontade de viver, tem a sensação de indesejado, a vida perdeu o sentido e no horizonte só a morte aparece.
A solução para este casos, que infelizmente aumenta, não é a eutanásia mas a humanização das relações familiares, o avivar da consciência dos filhos que também são pais e têm em relação aos seus idosos, uma dívida nunca paga, o fomento da solidariedade comunitária que se torna família dos que a não têm, a preocupação dos lares de serem lares de família com a família e não armazéns de quantos mais melhor.
A casa onde vivem, ainda que pobre, é a que o idoso em situação normal preferirá. Haja amor de quem pode e deve dar, e os idosos manifestarão a sua verdade. Todos, no seu juízo, preferem a alegria de viver, à pressa de morrer. Todos preferem, a seu lado quem os ame e lhes prolongue a vida, a quem anónimo lhes apresse a morte.
Quando era criança, lembro-me de ir visitar os meus avós maternos residentes no lugar de Petimão, naquele tempo pertencente à freguesia de S. Clemente, concelho de Celorico de Basto, hoje, este lugar é uma parcela de terreno da freguesia de Alvite, concelho de Cabeceiras de Basto. Na época natalícia era tradição levar-lhe a consoada, na companhia da minha mãe, o meu avô José Gonçalves, conhecido por Sairreiro, encontrava-se doente e acamado e tenho gravado na minha memória a seguinte frase que ele pronunciou: “Vou morrer, mas estou feliz por ter o conforto de todos os meus filhos, na minha própria casa.”
A situação dos idosos é preocupante, por isso é com enorme tristeza e desânimo pela vida que escrevo este texto, porque o nosso dia chegará e o destino só a Deus pertence.

Por: Manuel Sousa

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