Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2007

SECÇÃO: Opinião

Cabeceiras e a sua história

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O Convento – Hospício de Santa Senhorinha de Basto

Mais uma vez e, no seguimento de alguns artigos em que falo um pouco de algo que me desperta o interesse, como por exemplo alguns monumentos (cruzeiros, solares, pelourinhos, etc) e o relembrar algum personagem histórico que nasceu e/ou viveu em Cabeceiras, contribuindo para a importância e a grandeza da sua/nossa terra. Falo por exemplo do Padre Domingos Pereira! Um Padre revolucionário, que não aceitando a nova República lutou até ao fim dos seus dias o que para a época não era normal acontecer. E outros houve de quem hoje eu não vou falar.
Antes mesmo de falar no assunto da crónica de hoje quero pedir desculpa se porventura der algum dado errado, alguma data ou algum nome trocado mas, eu também só tenho cópias da monografia bastante envelhecida que até algumas palavras mal se percebem de tanto ser folheada e um ou outro artigo solto de alguma outra revista publicada na época. Mas se porventura tal acontecer, agradeço desde já que entrem em contacto comigo aqui para o jornal para eu repor os factos de forma correcta.
Ao folhear hoje a monografia de Victor Cunha, (a mais antiga, julgo eu) que foi feita aqui em Cabeceiras, li textos que falam sobre o Convento-Hospício de Santa Senhorinha de Basto. Achei interessante tornar a lê-lo, mesmo depois de o ter visitado há anos nas jornadas culturais, organizadas pela Autarquia e pelos Historiadores Cabeceirenses e, por esse motivo, resolvi transcrevê-lo na página que tão simpaticamente me é posta à disposição.
Este texto que já tem muitos anos, mais do que eu, foi extraído da monografia de Cabeceiras de Basto, trabalho esse feito pelo senhor Francisco Victor Cunha Magalhães que não conheço pessoalmente, mas que espero conhecer em breve e, que me confirmou por fax, a pedido meu, ser a mesma pessoa que colabora com várias publicações incluindo o Jornal Ecos de Basto. Nele refere que teria uns dezoito anos (hoje conta setenta) quando publicou estes artigos para o antigo “Jornal de Cabeceiras”, no tempo do saudoso Ilídio Santos e que o Tenente Gonçalo Meireles subsidiou as publicações dos mesmos artigos. Foi para mim uma grande surpresa saber que Francisco Victor Cunha Magalhães é filho do saudoso senhor Magalhães da Ponte de Pé, pessoa muito respeitada na nossa vila. Era pai das catequistas Aninhas e Guidinha, já falecidas, infelizmente! Gostaria muito que, quando o senhor Francisco Victor Cunha Magalhães viesse a Cabeceiras de Basto, visitasse a redacção do Ecos de Basto. Terei muito prazer em cumprimentá-lo!
Não querendo afastar-me do assunto de hoje, devo dizer com toda a seriedade que não pretendo obter louros pelo trabalho efectuado pelos outros. Como já vos disse por diversas vezes eu não sou uma expert, nem tenho conhecimentos superiores na área da História. Também não tenho pretensão de ser aquilo que não sou! Sou apenas uma pessoa interessada em conhecer a história cabeceirense e para mim acho que aprender é tornar a transcrevê-la para que aqueles que lêem este jornal possam ficar com uma ideia do que foi a nossa história!
Cabeceiras de Basto não é um concelho qualquer! Cabeceiras de Basto, mesmo sendo uma terra do interior, teve e tem muita importância que foi dada pelos Reis D. Sancho I e D. Dinis, por Senhores e Condes, pelo seu grandioso Mosteiro Beneditino, pelos seus solares, pelos romances escritos pelas mãos do famoso Camilo Castelo Branco, pelas éclogas de Sá de Miranda e, mais importante que tudo, foi terra desbravada por homens simples que deram tudo por tudo, por esta terra! Com muito sacrifício é verdade mas com muita honra! Independentemente de ter sido escrita e reescrita acho que nunca é demais falar dela! Não deve ficar fechada nos livros. Essa é a minha humilde opinião.
Não sei se este texto sobre o Hospício que eu vou transcrever e que já tem muitos anos, que eu acho tão bonito, estará completo. Não sei bem se de lá para cá se fizeram outros levantamentos, outras descobertas. Como disse já foi há muito tempo! Eu também já o visitei mais ou menos há doze anos, com visitas organizadas por letrados e alguns curiosos da nossa cultura, cá do burgo, como eu por exemplo, visitas essas integradas nas jornadas culturais organizadas pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto como referi acima. Já naquela altura achei aqueles vestígios históricos importantes, bastante degradados é verdade e, segundo ouvi contar até delapidados nas figuras de madeira, que estariam junto da imagem da Senhora da Boa Morte! Teriam um valor inestimável, até porque está ligado a essa figura que foi o Conde de Basto! Neste momento em que vos escrevo confesso que nunca mais o visitei lá por dentro, não sei em que estado se encontra, se já desapareceu mais alguma coisa!
Então aqui vai a transcrição retirada do texto da monografia do senhor Vítor Cunha.

“O Convento-Hospício de Cabeceiras de Basto

A freguesia de Santa Senhorinha de Basto nasceu fadada para obras pias. Uma das mais famosas é o Convento-Hospício, situado no lugar de Olela, sobranceiro à estrada que vai para o Arco e com a sua origem nos princípios do século passado. Rodeado de frondoso arvoredo, as suas ruínas atestam ainda hoje a protecção que os seus moradores, os franciscanos da Província da Soledade, dispensavam ao viandante que necessitava de repouso e protecção.
Compunha-se de um prédio razoável, com várias salas e celas, biblioteca, refeitório, cozinha. A Igreja não chegou a ser concluída, mas possui um belo e rico altar de talha dourada, onde se veneravam as imagens de Santo António e São Francisco.
Possui no tecto, bastante elevado, pintado a óleo, as armas do Patriarca São Francisco.
Há um registo na sacristia que conta a queda que deu um operário encarregado daquele trabalho, quando se deslocou do andaime em que trabalhava. Estatelando-se no lagedo, nada mais sofreu que o susto, atribuindo-se o facto a milagre de Nossa Senhora da Boa Hora, à qual a capela estava e ainda hoje está dedicada.
No subsolo existe um majestoso jazigo, de pedra lavrada, com as armas do Conde de Basto e uma inscrição que reza assim:

O Conde de Basto, José António de Oliveira Leite de Barros, do Conselho de Sua Majestade, Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, Comendador das comendas da Ordem de Cristo e Torre e Espada, Alcaide-mor do Castelo da Villa de Guimarães e Senhor Donatário do Concelho de Roças, mandou fazer este jazigo no anno de 1829 onde há-de jazer com sua família.

Ali se encontram os restos mortais da sua primeira esposa, D. Leonor Angélica Leite de Barros, falecida a 19 de Junho de 1825. O Corpo do Conde de Basto jaz em Coimbra onde faleceu a 4-8-1833 e quando se pensou na sua translação para o jazigo de família, entrava em vigor a lei que proibia os enterramentos nas Igrejas.
A imagem de Nª Sª da Boa Morte, deitada e cercada de figuras em adoração, encontra-se num altar, na sacristia anexa à capela. Antigamente organizava-se com esta imagem uma procissão até à capelinha de Nossa Senhora do Ó, num monte fronteiriço e a 300 metros e donde se divisa o formoso panorama que nos é oferecido pelo Arco de Baúlhe. Havia entre as duas capelas uma extensa avenida marginada de sobreiros seculares, hoje desaparecidos.
A tradição local afirma que os frades deste convento eram homens de muita virtude, inteiramente entregues à meditação e à oração.
Todos os dias quando batiam as Trindades, os monges, de cruz alçada, percorriam o mesmo caminho da procissão a que nos referimos e, defronte da capelinha da Senhora do Ó, oravam pelos vivos e falecidos, muitas vezes acompanhados de pessoas da redondeza que, assim, aproveitavam a oportunidade para cumprir votos e promessas.
O terreno onde se construíra o convento designava-se Vale de Milho e fora adquirido pelos próprios monges, com o produto de esmolas e valiosos auxílios monetários do Conde de Basto, que tinha a sua residência oficial na Casa da Breia, em S. Nicolau.
O seu sustento provinha da cultura dos terrenos anexos e esmolavam ainda, de lugar em lugar, percorrendo grandes distâncias, por monte e vales.
Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o convento foi à praça. Arrematou-o, no ano seguinte, o neto da Condessa de Basto, ali sepultada, Manuel Filipe Leite Barros, que era, nessa data, senhor da Casa da Breia. Deu por ele 701$00 réis, com a obrigação de manter a capela aberta ao culto. Por esse motivo, ficou lá, como capelão, frei João das Dores, que faleceu em 1860. De então para cá, nunca mais houve lá culto. Os terrenos anexos constituem uma propriedade bastante razoável. Mas tanto estes como o que resta propriamente da monástica fundação, foram generosamente oferecidos, em 1952, pelo seu proprietário, sr. Manuel Filipe Leite Barros Vilela Passos, à Misericórdia de Cabeceiras de Basto. (Silva Minhota – Leonídio de Abreu).
Esta é a pequena história do convento-hospício, não só casa de meditação como albergue dos que por ali transitavam, muitas vezes em romagens de piedade. Assim como, dada a magnífica situação que tinha, num ponto saudável, banhada de ar e luz, se destinaria, também, a casa de repouso da própria ordem.

Por Vítor Cunha”

Como este texto é de muito fácil leitura penso que será do gosto dos leitores. Talvez ao lê-lo a vossa imaginação vos transporte para esses tempos longínquos da história medieval e vos faça sonhar com condes e condessas passeando nas suas carruagens, em estradas de terra batida ou então feitas de pedras incertas que provocavam solavancos obrigando as senhoras e as senhorinhas a balançarem-se de um lado para o outro! A mim é isso que me acontece quando leio coisas dos tempos idos.


Por: Fernanda Carneiro

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