Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (83)

foto
BASTO DE MANDRIÃES

Cumpre, antes de mais, reiterar que o termo Mandriães não comporta qualquer conotação de cariz pejorativo, ou depreciativo. O termo é, muito simplesmente, o apelido do nome de uma terra, como Baúlhe, Cunhas, Espada-à-Cinta, ou qualquer outro. Também não tem nada a ver com mandriões, pese embora o facto de haver por aí alguns, direi mesmo bastantes, dos quais tenho inveja. É que, para se ser mandrião, é preciso ter alguma arte, pelo menos a arte de saber enganar os outros. Mandriães não é mais do que o segundo nome de uma povoação, nome que eu contesto por razões que, mais adiante, tentarei explicar.
Localizemos, em primeiro lugar, o povoado a que nos estamos a referir. Basto de Mandriães é uma freguesia do concelho que tem o mesmo nome. Mas, apesar de ter o mesmo nome, que é o nome próprio do município, não é freguesia da sede do concelho e dista do centro alguns quilómetros, fazendo fronteira, inclusivamente, com um concelho vizinho. Do nosso lado confina com as freguesias de Outeiro, Painzela e Bucos. Do lado do concelho vizinho confina com Várzea Cova e Aboim.
O seu Presidente de Junta é um voluntarioso militante socialista, jovem empresário agrícola, produtor de bovinos e caprinos. O Senhor Mário de Carvalho Negral é o exemplo perfeito do que se pretende que seja um presidente de junta de freguesia.
Por mim sempre fui contra o facto de uma qualquer freguesia, seja de que concelho for, ter o mesmo nome que o próprio município. É motivo de sérias confusões, sobretudo para qualquer forasteiro que para cá se dirige pela primeira vez. O visitante, ao passar por aquela freguesia, pensa estar já na sede do conselho e fica decepcionado, ao deparar-se com tão pequeno aglomerado urbano.
Na minha boa fé, e pensando que iria iniciar um processo com um índice de êxito semelhante ao que foi conseguido relativamente à denominação de Cavez, com “S” ou com “Z”, lancei o barro à parede. Abordei o Presidente da Junta com a vista a sondar da possibilidade que haveria de se remeter um requerimento, à Assembleia da República, no sentido de a freguesia passar a designar-se simplesmente por Mandriães. Até era mais prático, em termos de comunicação oral, disse-lhe eu. E, por outro lado, nenhum forasteiro mais confundiria a sede do concelho com a sede da freguesia.
Arrependi-me logo da iniciativa. O voluntarioso presidente da junta quase que se indispunha, da pior maneira, comigo. Sem qualquer palavra de permeio, saca da carteira do bolso de trás das calças e quase me esfrega o seu Bilhete de Identidade no nariz: «Olhe para aqui», disse ele «Natural da freguesia de Basto de Mandriães e concelho de Basto de Mandriães». Perante o semblante procurei logo inverter a minha posição: «Que fora uma ideia mal pensada da minha parte, que ele estava profundamente certo, que o caso não tinha nenhuma razão de ser». A coisa ficou por aí, graças a Deus.
Há dois meses atrás participei num seminário, organizado por uma associação profissional a que pertenço, que decorreu nas instalações da Aula Magna da Universidade de Lisboa. O seminário era sobre Gestão de Insolvências. Sentado a meu lado, encontrava-se um colega de profissão, com quem travei conhecimento. Disse-me ele, com visível orgulho, que era licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa. Eu apresentei-me informando, com sentido orgulho, que era licenciado em Economia pela Universidade do Porto.
Na hora do almoço, que estava incluído no custo do seminário, ficamos um junto do outro e eu aproveitei para saber de onde ele era natural. Ele disse que era da “Costa”. Costa é a região da linha Estoril Cascais. Eu disse-lhe que era de Basto de Mandriães e aproveitei, como sempre o faço, para promover a minha terra. Ele tinha-me dito, entretanto, que era praticante da modalidade todo o terreno, que tinha um jipe equipado para o efeito. Então com mais à vontade lhe sugeri que deveria fazer um passeio pelos montes dos Moinhos do Rei, Serra das Torrinheiras, Pastos de Maçã, etc. Expliquei-lhe o trajecto mais adequado. Ele respondeu que fazia tudo utilizando o GPS, que não teria qualquer problema em chegar aos locais previamente definidos.
No fim do seminário, por volta das seis da tarde, recomendei-lhe que não deixasse de fazer o passeio de que havíamos falado e depois que desse notícias. Disse-lhe ainda que poderia saborear uma refeição, à base da chanfana de cabra, num restaurante típico, que através do GPS poderia localizar no centro do lugar das Torrinheiras.
A semana passada telefonou-me a dizer que efectivamente tinha feito a viagem sugerida, que a paisagem era maravilhosa: «lugares isolados na serra rodeados de prados verdejantes». Que da chanfana nem metade da dose tinha conseguido comer. Que se fizera acompanhar pela esposa que também é economista e trabalha na Auto-Europa em Palmela e de uma filha que tem vinte e três anos e é finalista de Direito na Universidade Católica de Lisboa.
Porém, que quanto à sede do meu conselho, que lhe parecera uma grande tristeza, uma decepção relativamente ao que eu lhe tinha descrito, quando estávamos no anfiteatro da Aula Magna da Universidade de Lisboa, a assistir ao seminário sobre Gestão de Insolvências. Referiu-me ele: «Só meia dúzia de casas, num cruzamento apertado». Fiquei estupefacto e apavorado, ocorreu-me logo pedir-lhe as coordenadas que ele tinha registado no seu GPS, quanto ao local que tinha referenciado como sede do meu concelho.
Verifiquei, de imediato, que as coordenadas eram as do centro da pequena freguesia de Basto de Mandriães. A conclusão foi, igualmente, imediata. Também ele tinha confundido Basto de Mandriães freguesia, com Basto Mandriães sede do concelho. «Coisas de nomes, emendei»!!
Esforcei-me por esclarecê-lo de que Basto de Mandriães é um dos poucos concelhos desta região que tem registado um índice de crescimento notável. Passei-lhe as coordenadas certas (41º,30793 Norte e 7º,59590 Oeste). Que, com estas coordenadas no seu GPS, viria parar exactamente à porta da Igreja de S. Miguel, edifício imponente, monumento nacional, e que integra o conjunto formado por um Mosteiro Beneditino, onde se encontram instalados, e funcionar, os Paços do Concelho.

Por: José Costa Oliveira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.