Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2007

SECÇÃO: Opinião

O adeus ao Dr. António Francisco Teixeira de Carvalho

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Senhor Carvalho ou Toninho para os amigos

Meus queridos amigos, dia oito de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, recebi uma notícia que me deixou em choque! O Dr. Carvalho, Carvalhinho ou Toninho para os amigos, o editor do Jornal Ecos de Basto e seu director durante vários anos, tinha falecido! Apesar de saber que ele estava doente, com gravidade, nunca me passou pela cabeça que ele “desaparecesse” tão depressa do nosso convívio.
Ainda há dias estava ele mais o seu filho Artur a fazerem o funeral da senhora Elisa do “Escaravelho”, mãe da minha amiga Luisinha, esposa do senhor João Padeiro! Apesar de mais magro e se notar que estava bastante combalido, ele estava elegante e sóbrio no seu fato escuro que era imagem de marca na profissão que ele tinha em paralelo com a que exercia na Segurança Social, sorria para as pessoas e, como sempre, prestava apoio à família enlutada. Sempre deu, com a sua família, seriedade ao acto cristão de enterrar os mortos. Fazia tudo com muito profissionalismo! Como diz o slogan da sua Casa Funerária;
O Dr. Carvalho fazendo a correcção da rubrica "A Nossa Gente" no número 300, do Ecos de Basto
O Dr. Carvalho fazendo a correcção da rubrica "A Nossa Gente" no número 300, do Ecos de Basto
“É uma casa com dignidade, prestígio e profissionalismo! Com pompas fúnebres!”. Afinal a Funerária do senhor Dr. Carvalho já tinha de idade cento e vinte e sete anos! Sinal de que a Funerária honrou os seus fundadores!
Tenho a certeza que todas as pessoas de Cabeceiras e arredores conhecem o senhor Carvalho da antiga Casa do Povo, hoje Segurança Social, o senhor Carvalho da Câmara, o senhor Carvalho do Jornal e também infelizmente conhecem-no pelos enterros que fazia.
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Conheci mais de perto o senhor Carvalho mais ou menos desde 1985/86 altura em que comecei a trabalhar no antigo jornal “O Basto”, num programa de Ocupação Sazonal com a duração de um ano, da responsabilidade do Centro de Emprego de Fafe, em 1986. Ele era director desse Jornal e, se me não engano, desde a sua fundação em 1980. Foi com ele que eu aprendi a escrever à máquina os artigos que ele trazia antes de os enviar para a gráfica, que era no Diário do Minho. Aprendi com ele como é que tinha de distribuir os espaços, para serem vendidos em publicidade. Ainda não se usava o computador para fazer as maquetes. Eu usava uma régua para medir os quadrados ou rectângulos e verificar que letras ou desenhos cabiam dentro. Mas, a maior parte das vezes era na gráfica que se imprimiam os logotipos dos anúncios. Os textos já eram contabilizados e pagos à linha, por exemplo as publicações de escrituras, avisos ou processos de tribunal.
Todas essas orientações me foram dadas pelo senhor Carvalho.
No princípio custou-me um pouco ambientar-me com a letra e os escritos dele apesar de possuir uma escrita certa e homogénea. Mas depois de aprender até gostava muito. Ficava curiosa para ler as notícias quando ele chegava com os textos para eu os escrever. Ficava bastante perplexa com algumas palavras “caras” e muito intelectuais, usadas por grandes escritores nos grandes livros, que ele usava nas suas narrativas e que tanto gostava de aplicar!
Reunião da redacção e alguns colaboradores do Jornal Ecos de Basto
Reunião da redacção e alguns colaboradores do Jornal Ecos de Basto
De maneira que, quando tive contacto com os textos dele confesso que me vi aflita. Por muito que lesse o texto de trás para a frente, de baixo para cima, não conseguia entender o significado de um ou outro termo e então telefonava-lhe:
- “Senhor Carvalho desculpe o incómodo mas não consigo ler esta palavra, já li o texto a ver se apanho o sentido mas, sinceramente não sei – não sei se o senhor Carvalho se enganou a escrevê-la – nunca ouvi falar dela!
Ó menina – ele muitas vezes chamava-me menina embora sejamos quase da mesma idade – a palavra está bem aplicada! Não são usadas todos os dias mas, aplica-se bastante em jornalismo! Então ele lá me explicava o que queria dizer! Claro que eu ficava admirada porque nunca tinha aplicado tais termos. Ao mesmo tempo ficava orgulhosa desses conhecimentos linguísticos que hoje, confesso, me são muito úteis!
Muitos de vós não devem saber ou lembrar mas, o senhor Carvalho foi eleito Presidente da Junta de Freguesia do Arco de Baúlhe, em 1982. Não me lembro bem mas dizem os arcoenses e não só que parte da importância que o Arco teve foi graças à maneira de ser e à empatia que ele mantinha com os seus munícipes! Como hobby tinha carteira de jornalista, e foi durante muitos anos colaborador de vários jornais, tais como o Jornal de Notícias, o Diário do Minho, o Basto e o Ecos de Basto.
O nosso Editor dialogando com os professores e os jovens alunos na Escola da Cumieira, S. Nicolau
O nosso Editor dialogando com os professores e os jovens alunos na Escola da Cumieira, S. Nicolau
Depois de acabar o “Basto” ajudou a fundar o Ecos de Basto e foi seu director durante muitos anos. Nestes últimos três a quatro anos foi o seu Editor. A rubrica “A nossa gente” foi da sua autoria durante muito tempo e só a deixou quando a saúde lhe começou a faltar.
A nível político o senhor Carvalho foi um dos primeiros militantes do Partido Socialista, em Cabeceiras de Basto. Foi até hoje membro da Assembleia Municipal. Convidado desde o primeiro mandato do Engenheiro Joaquim Barreto a ocupar o cargo de Assessor de Imprensa do Gabinete do Presidente, fê-lo sempre com muita dignidade. Apesar de ser um funcionário público já há muitos anos, nunca deixou de se actualizar, apostando nas formações e nos estudos para melhor se integrar nos tempos de hoje que exigem cada vez mais de nós. Por isso o senhor Carvalho recomeçou a estudar à noite, julgo que desde 1989, juntamente com a sua esposa, e de várias pessoas entre as quais eu me contava. Cheguei até à Secundária de Fafe, no 12º ano, mas desisti no segundo período por motivo de doença. O senhor Carvalho continuou, penso com os direitos de estudante trabalhador, e pós-laboral e formou-se em Filosofia, pela Facfil (Faculdade de Filosofia), na Universidade Católica Portuguesa, em Braga! Era também Presidente da Assembleia Geral da Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto, mais conhecida por ADIB. Confesso que algumas vezes cheguei a perguntar-lhe se ainda tinha paciência para estudar ao que ele me respondia que misturar-se com os estudantes o fazia sentir mais jovem!
Curso de Imprensa Escrita em 1993, com o formador Cesário Borga da RTP, da responsabilidade do CENJOR
Curso de Imprensa Escrita em 1993, com o formador Cesário Borga da RTP, da responsabilidade do CENJOR
Apesar do que dizem dos cangalheiros (confesso que não gosto desta palavra), de que são uns aproveitadores e lá diz o ditado “não quero que o meu pai morra mas quero que o negócio corra” o Dr. Carvalho não se aproveitava das pessoas. A prová-lo está o respeito e o carinho com que elas o tratavam a ele e à sua família.
Foi sempre um homem que se pautou pela nobreza de carácter. Nunca foi homem de levantar a voz! Os seus discursos eram sempre pela união, sempre para aplacar os ânimos! Nos cargos que ocupou na Câmara e na Assembleia Municipal foi sempre respeitado pelos colegas de bancada e até pelos da oposição!
Era um senhor pela sua presença e a sua maneira de estar, sempre pronto a dar um conselho ou uma orientação!
Por todas essas coisas e por aquelas que não cabem nesta página eu digo:
“Dr. Carvalho, meu camarada político, meu parceiro da Assembleia Municipal, editor deste Jornal, digo-lhe que não tinha o direito de morrer já! Ainda tinha de cumprir pelo menos mais trinta anos nesta terra. Tinha a obrigação de estar cá para a sua família, os seus queridos filhos e os seus netinhos! Não tinha o direito de os defraudar! Nós, todos os que pertencemos a este jornal que o Dr. Carvalho ajudou a “criar” e do qual era editor nunca mais o esqueceremos. Eu sentirei falta de ler os seus textos com as palavras “intelectuais”. E mais, contava que fosse o senhor a escrever umas palavras sobre mim quando eu abandonasse este mundo!
Mas uma vez que decidiu partir tão cedo deste mundo, lá onde se encontra não se esqueça de zelar por todos nós!
E como disse o poeta “Repouse lá no céu eternamente”!
Até um dia!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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