Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

PADRE DOMINGOS, RECORDADO (II)

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Falemos então de alguns livros saídos dos prelos portugueses nos últimos dez anos em que a figura do Padre Domingos de Cabeceiras é, pelo menos, citado. Comecemos por “Geografia do Medo”, da autoria de Francisco Duarte Mangas, nascido em Rossas em 1960. Hoje é jornalista de profissão, tendo-se dedicado inicialmente à poesia e agora ao conto e romance. Assim já publicou “Ladrão de Violetas” e “Pequeno Livro da Terra” e recebeu pelo seu livro-diário de Zink” o Prémio “Revelação Carlos de Oliveira”, livro cuja qualidade foi manifestamente reconhecida pela crítica. Mas interessa-nos “A Geografia do Medo”, editado pelo Teorema em 1997. É um livro que é um hino à caça e à pesca, à perdiz e à truta, ao coelho e ao furão, ao caçador e ao caçarreta. E ao medo, também. O medo na guerra de África.
A trama passa-se nos montes e vales da povoação de Agra, freguesia de Rossas, nas faldas da serra da Cabreira. A personagem principal é Teotónio Coutinho, um humilde caseiro de casa rica, caçador inveterado, batedor de todas as luras de coelhos, de todas as encostas das serras, do Penedo Branco, da Laja dos Ventos, do Alto do Talefe, criador de furões que vem vender à feira de S. Miguel onde, no fim, saboreava a recompensa: “uma barrigada de carne esfolada, numa das barracas da festa”, devidamente acompanhada dumas malgas do capitoso vinho de Caves, tinto como baga de sabugueiro.
No fim mercava um corte de chita para a filha Deolinda. A moça dos furões.
Em volta de Teotónio Coutinho afadigam-se o João da Ameã, a melhor escopeta do Minho, o Leandro Silveira, advogado, caçarreta, possuidor de automóvel, o galego Don Manoel Fresas, o padre de Agra, caçador de meia tigela, Manoel, o rapazito, o eronista da história que depois se transforma no Sílvio da guerra de África.
A acção passa-se em 1912 e na década de 60, com intermitências em 1935 e 1945 quando do célebre episódio histórico protagonizado por um bando de guerrilheiros espanhóis que passou a fronteira para vingar uma afronta de sangue.
Mas onde entra o Padre Domingos?
Nas veias de Teotónio Coutinho nem uma “lia de sangue corria”. Mas guerreou por ideias monárquicas, investido de tardio soldado medieval, atormentado pelo avanço voraz da plebe, pronta a ocupar as terras e saquear: palacetes, igrejas, adegas e canastros. Partiu numa noite de Julho de mil novecentos e doze, ao encontro de um tal Padre Domingos. Do ombro pendia a responsabilidade de uma caçadeira de fogo central, cedida em tumular sigilo pelo dono das terras que amanhou toda a vida. “Se algum jacobino me perturbar o sossego, digo que tu me roubaste o brinquedo. Entendido, Teotónio! Um jacobino! Que raio de bicho é esse? São os homens que vais combater: renegaram a Santa Igreja e querem roubar-nos as terras para as dar aos pobres. Disseste bem. São bichos, ferozes como os do mato. Se algum te aparecer a jeito de fogo: segura-o, estoura-lhe os miolos! “E, logo, a figura do padre: “Padre Domingos, Deus o preserve no eterno descanso ou lá no exílio, tinha um bigode soberbo. E o seu olhar, de águia a quem roubaram os filhos, fazia tremer o mais valente dos homens. Falava, e as palavras reboavam aos nossos ouvidos”.
(…)
“O Padre Domingos, Silveirinha, espera por mim. Empreste-me a caçadeira. Eles são mil vezes mais ruins do que os jacobinos; se não lhes fizermos frente, acabarão por vender o nosso Deus”.
O retrato do Padre Domingos que o autor nos retrata parece ser o que o seu biógrafo Joaquim Leitão lhe traçou. A este autor chama “um reco de sangue demasiado azul!” e noutro lado sobre o livro do mesmo sobre a segunda incursão monárquica diz: “Bem, não o li todo. Eu percebo, Manuel: o leitão recusou esfocinhar na merda: meteu apenas o nariz onde lhe cheirou a bolota”.
São lembrados no livro alguns dos episódios marcantes do chamado “Levantamento de Julho”: “No Largo de Cabeceiras, a sete de Julho de mil novecentos e doze, ninguém sai à rua; só o cheiro a pólvora, como moldura do silêncio dos mortos, cartuchos, muitos cartuchos e invólucros”; a morte do administrador: “O administrador procurou refúgio numa casa, à terceira foi de vez: uma bala entrou-lhe nos costados, e dois zagalotes, disparados a curta distância, imobilizaram-lhe as pernas e metade do corpo ficou dentro de casa, o resto e um rasto de sangue, sob a luz do amanhecer”; o episódio passado em Braga aquando de uma manifestação salazarista quando o Padre Domingos, “o ex-padre guerrilheiro (…) estava de descanso no café Arcádia (…) terá feito então um manguito. Tomado por agitador vermelho, foi brutalmente agredido à paulada pela chusma enraivecida. Partiram-lhe o braço direito”…
Porque não ler este magnífico livro numa destas noites de Inverno que se aproximam?

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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