Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2007

SECÇÃO: Opinião

Natal é sempre que o homem quiser

foto
Queridos amigos! Cá estou mais uma vez, a escrever sobre uma quadra tão especial como é a do Natal.
De facto, isso já não é novidade para vós. Eu escrevo estas humildes crónicas desde o ano de 2003, portanto já foram quatro as histórias de Natal que vos contei.
Este ano, para não fugir à regra, vou escrever a quinta.
Já descrevi, mais ou menos, ao longo destes anos, todos os rituais, costumes e tradições dos natais, pelo menos os da minha casa paterna e os dos meus avós! Penso que também que já vos falei que os natais antigamente eram diferentes dos de agora. Acreditávamos até a uma idade avançada no Pai Natal ou no Menino Jesus! Pelo menos tínhamos a esperança que nos visitasse e que algo de novo nos iria acontecer! Acreditávamos que não se iriam esquecer de nós uma vez mais! Afinal de contas, nós, as crianças da casa, até éramos bem comportadas! Mas por algum motivo ele não parava na nossa casa, para nos deixar um simples brinquedo de plástico ou uma boneca de trapos! Mas, graças a Deus tínhamos a mesa composta com todas as coisas que faziam parte da tradição: as batatas com bacalhau, as rabanadas, a aletria, as couves bem cozidas e temperadas com azeite e alho que a minha mãe fazia, uns bolos que eram feitos de massa de pão, cozidos no forno de lenha, que tinham uns enfeites feitos pela minha tia e madrinha Emília, irmã do meu pai, que os fazia e nos dava pela consoada!
Para mim esses dias de encontro com toda a família eram mágicos! Como já vos contei de outras vezes, os meus pais tinham obrigatoriamente de ir e levar-nos com eles a casa dos meus avós mesmo na noite de consoada no fim do nosso jantar! Verdade seja dita que eu gostava muito! Jogava-se às cartas, aos pinhões e ouvia o meu avô contar histórias sobre bruxas e lobisomens! O nosso avô contava a história com tal seriedade que eu ainda hoje penso que ele também acreditava no que dizia!
A diferença de antes e de hoje nesta quadra natalícia reside no consumismo exagerado! Noutros tempos que já lá vão os natais eram muito familiares, com trocas de prendas mais humildes executadas pelas próprias pessoas! Oferecia-se um vestidinho novo, umas calças para os rapazes ou uma camisola de lã e para as raparigas casadoiras as mães lá iam ao baú buscar um lençol ou uma toalha de linho para o enxoval!
Mas nem toda a gente tinha essa sorte! Já era uma luta nesses dias poder ter uma mesa condigna desta quadra! Graças a Deus, comida nunca nos faltou! A vida era complicada e as posses eram limitadas. Aqui, há alguns anos havia muita diferença entre o lar rico e farto e a casa do pobre ou modesto!
Hoje é bem diferente! Dos anos que me conheço até aos dias de hoje houve uma grande evolução. Ainda bem! Há “mais” dinheiro nas mãos das pessoas, mesmo que digam que a vida está ruim, e que os tempos estão difíceis, que se não ganha nada e, que o Governo não ajuda!
Compreendo e concordo que temos que nos queixar sempre, já faz parte da nossa mentalidade! Lá diz aquele velho ditado que “quem não chora não mama”.
Mas, como eu estava dizendo, hoje os gastos dos natais já são pensados com muita antecedência, e em quantos euros se vão gastar em prendas. Quanto mais caras melhor, mesmo que para isso tenhamos que dar o que temos e o que não temos! Ainda há mais! Algumas vezes por comodismo, por não termos tempo ou até não saber o que se dar enfiamos dinheiro em envelopes e está o assunto arrumado! É prático e livramo-nos das pressas de última hora.
Não quer dizer que com todos estes modernismos esta quadra que, para mim, é a mais importante, não seja festejada com o mesmo sentimento e a mesma alegria de outrora! Simplesmente hoje é tudo mais sofisticado, mais comercial. Há mais poder de compra mesmo atravessando esta crise que já nos persegue há alguns anos. E todos estes pensamentos que hoje, Domingo me vêm à cabeça enquanto estou sentada no meu sofá, com o aconchego do aquecedor, pois já está bastante frio, vejo pela janela da minha sala, que começa a acender a iluminação pública. São essas luzes que iluminam e ao mesmo tempo transformam a Praça da República, com o nosso Mosteiro de Refojos, num presépio de Natal!
Faz-me lembrar coisas alegres mas também me trazem lembranças tristes, de saudade, de recordações que nunca mais passam da minha memória! São lembranças de rostos que não são visíveis mas que o nosso coração consegue vê-los nitidamente ali à nossa frente. E é neste momento em que me encontro só neste sofá, que a saudade me aperta e sinto um nó a estrangular-me na garganta e as lágrimas caem sem eu as poder evitar! Digo-vos também com algum sentimento de vergonha e de pena que ao lembrar-me destes rostos que já não se encontram cá, o faço com alguns remorsos por não ter estado mais presente na vida deles! Mas, sei que apesar de tudo velarão por todos nós lá do infinito!
Amigos, não era minha intenção este ano escrever uma crónica muito saudosista e lamechas que, vos fizesse deixar escapar alguma lágrima. Porque apesar das desgraças do mundo que, infelizmente, são o pão-nosso de cada dia, este ano até nem tenho muita razão de queixa! Salvo as preocupações do dia a dia, alguns cuidados de saúde dos meus familiares até me sinto feliz! Os meus filhos e a minha família mais chegada estão todos mais ou menos bem graças a Deus!
Este ano de 2007, graças a todos vós queridos leitores, que sempre me respeitastes e acarinhastes, incentivando-me a escrever as minhas histórias de lembranças, originando o aparecimento do meu primeiro livro, contribuindo para a minha realização pessoal e, posso dizer até profissional, pude comprovar que os amigos estão sempre presentes nos momentos precisos!
Tenho também muita estima por vós independentemente de ter mais conhecimentos com uns do que com outros, mas sinto o mesmo respeito por todos!
Por esse motivo tenho-me esforçado para que todos os quinze dias o jornal tenha alguma crónica para vocês lerem, para que os que estão mais longe possam matar saudades da sua terra e principalmente da sua família em especial naquelas onde falo de histórias de vida com pessoas da nossa terra e que de alguma maneira lhes toca na pele!
Muita coisa gostaria de vos falar mas ficará para outra vez se Deus quiser!
Quero desejar que tudo vos corra de feição, que independentemente do local onde vos encontreis possais festejar o Natal em família, com paz, saúde e amor! Sobretudo é preciso não perder a esperança! Que os nossos anseios não passem de palavras vãs!
Espero sinceramente que o ano 2007 termine livre de perigos e se concretizem todos os nossos sonhos!
Eu também peço muita paz e esperança para o mundo!
Boas Festas e Feliz Ano Novo!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.