Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2007

SECÇÃO: Opinião

PADRE DOMINGOS, RECORDADO

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Nasceu barrosão mas tornou-se cabeceirense de alma e coração.
Ordenado sacerdote com 24 anos foi encarregado do múnus espiritual da paróquia de Outeiro. Somente deixou a sua terra adoptiva nos anos de exílio forçado. Regressado em 1925, faleceu em 1945, com 83 anos de idade.
A sua vida foi uma luta constante pela defesa das suas ideias. Ainda como pároco de Outeiro declarou a sua feição pelo Partido Regenerador, contrariando a vontade do seu tio, Padre João Albino, pároco de Refojos e do arcebispo de Braga. Ambos lhe acenavam com o Partido Progressista. Não aceitou mudar de convicções e abandonou a paróquia. Passou a ganhar a vida como professor do Liceu Municipal do concelho; desempenhou várias vezes o cargo de administrador dos concelhos de Cabeceiras e Fafe.
A implantação da República cortou-lhe os seus sonhos. Confessa que foi o dia mais negro da sua vida. Recusa-se a aderir, publicamente à República. Une os seus destinos ao de Paiva Couceiro, herói de África, revolucionário romântico. Torna-se agente de ligação entre os principais conspiradores monárquicos do distrito de Braga. Em 7 de Julho de 1912 proclama a Reimplantação da Monarquia nas terras de Basto. Distribui armas pelos correligionários para enfrentar um terço do Exército Português que ocupou militarmente o concelho durante dois longos meses. Com muitos dos seus célebres guerrilheiros exila-se na Galiza, enquanto na terrinha alguns civis destroem e incendeiam, entre outras, a sua casa na Raposeira. Nesse incêndio terão desaparecido documentos de interesse para a história da época, como cartas de e para o Couceiro e, talvez, D. Manuel. Julgado à revelia é condenado a 20 anos de prisão maior. Regressa clandestinamente, dá a cara pelo seu irmão, influenciando a política municipal do concelho. Quando Sidónio Pais alcança o poder e concede a amnistia, o Padre Domingos – sempre assim foi conhecido – anuncia o seu apoio à nova política e anuncia o seu regresso do exílio. Mas ele já aí estava…
Participa activamente na preparação da chamada Monarquia do Norte. Com elementos do jornal monárquico “A Pátria” organiza no Porto uma grande manifestação de apoio à Junta Militar do Norte. Dias depois pronuncia em Braga, em idêntica manifestação, um discurso de grande fervor e exaltação patriótica. São 20 dias de euforia. A sediação do Porto termina com o bonito sonho. Novamente foge, novamente é julgado à revelia, novamente é condenado a 20 anos de prisão celular. A amnistia publicada não contempla os seus crimes. Mas, mais uma vez, regressa clandestinamente a Cabeceiras de Basto em 1925 onde vai viver até à sua morte em 25 de Novembro de 1945, com a família que constituíra e sem que ninguém mais lhe levantasse quaisquer entraves à sua vida.

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A que propósito vem agora recordar o Padre Domingos? Há duas razões para isso. A primeira é a construção de que ainda não está esquecido. Não queremos destacar as obras de referência (Enciclopédias, dicionários, Histórias de Portugal) onde o seu nome é estudado, ainda que das figuras ligadas à história cabeceirense só a do Condestável D. Nuno a suplanta. Não nos referimos também a imprensa cabeceirense que de vez em quando o recorda, como Alexandre Vaz o fez em 1985, nos 40 anos da sua morte, o fez Feliciano Macedo, o fez José Luciano, o fiz eu em 2002 e já neste ano de 2007 o fez Fernanda Carneiro, nas páginas do “Ecos de Basto”: refiro-me a meia dúzia de livros aparecidos nestes últimos dez anos em que a figura do Padre Domingos regressa. É lembrado na biografia de Paiva Couceiro que Vasco Pulido Valente publicou em 2006; é lembrado nas memórias da Condessa de Mangualde dedicadas às Incursões Monárquicas (1910 – 1920); é lembrado num livro de Sollari Alegro sobre a Monarquia do Norte, onde o autor pretende limpar as afrontas lançadas a seu pai; é lembrado no livro “Um delito de Opinião” dum Padre de Basto, uma das vítimas da fúria jacobina e republicana. Mas o livro com mais interesse deve-se ao jornalista e escritor Fernando Duarte Mangas, natural de Rossas, que em “Geografia do Medo” historia três épocas da vida de um “paivante”, Teotónio Coutinho, quem em 1912 se juntou aos guerrilheiros do Padre Domingos.
No próximo artigo procederei à análise dos livros atrás enunciados e exporei a 2ª razão que me leva a recordar a figura desse homem de Barroso que se tornou num cabeceirense de alma e coração.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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