Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2007

SECÇÃO: Opinião

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Receber os amigos e matar saudades
O Tão, funileiro que o não era!

Já muitas vezes vos tenho dito em crónicas anteriores, que considero os assinantes e os leitores em geral do Ecos de Basto, como uma família. O mesmo acontece com toda a equipa, desde os funcionários, directora, redacção e os colaboradores que não auferindo qualquer valor monetário se dedicam com todo o carinho à investigação, à procura da notícia real, credível, escrevendo histórias de vida, informando o que se passa em cada uma das freguesias do nosso concelho, para que o leitor assíduo, e não só, possa, mesmo estando longe da sua terra, acompanhar tudo o que nela se passa. Tudo isto para dizer que é com amizade sincera que os recebemos de braços abertos!
Eu, que estou no Ecos de Basto desde Janeiro de 1992, conheço-os muito bem! Aliás a minha amizade com os assinantes já vem desde o tempo em que trabalhei no Jornal “Basto”, no tempo em que ele pertenceu a um grupo de elementos afectos ao Partido Socialista. Daí o vínculo que existe entre mim e eles. Pelo menos à sua maior parte.
O Tão Funileiro com amigos na Ponte da Urtigueira, em Riodouro
O Tão Funileiro com amigos na Ponte da Urtigueira, em Riodouro
É durante os meses de Julho a Setembro, que eles passam pela Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto, proprietária do Ecos, para pagarem a assinatura anual, lembrando que um ou outro periódico por vezes se atrasa, ou até para trazerem nomes para uma nova assinatura. Aproveito então para pôr a conversa em dia, e tento responder a perguntas que eles me põem sobre o que se passou durante o ano em Cabeceiras, especialmente tento esclarecer alguma dúvida sobre algum assunto que a eles diga respeito.
Fico muito sensibilizada pelas provas de carinho, pela força que eles me transmitem e me incentivam para continuar a fazer o trabalho de escrever histórias sobre as vivências das nossas gentes e da nossa terra.
Dizem-me que lêem sempre os meus escritos, na esperança de verem os nomes dos seus familiares na história ou nas fotografias!
Vou respondendo que sim, talvez, quem sabe um dia…
As velhas glórias do Atlético Cabeceirense o Toninho e o Fernandinho do Abílio, António Fidalgo, Zé Pote, Manuel Geba, Zeca Moleiro, Mamede Vargas, Tão Funileiro e outros que não conheço
As velhas glórias do Atlético Cabeceirense o Toninho e o Fernandinho do Abílio, António Fidalgo, Zé Pote, Manuel Geba, Zeca Moleiro, Mamede Vargas, Tão Funileiro e outros que não conheço
Já agora aproveito para agradecer todas as fotografias que os amigos me trazem para que eu escreva sobre elas ou para que elas sirvam para me lembrar de algo.
Numa dessas visitas que tão bem me faz à alma, daquelas que nos transportam aos tempos passados, recebi a visita do nosso querido Antão Júlio Oliveira (o Tão Funileiro). Para quem não se lembra ou não conhece, é irmão dos saudosos Manuel Oliveira (Funileiro), que era picheleiro da Câmara e do senhor Domingos Oliveira, do comércio Gonçalves & Oliveira, que foi presidente da Junta de Refojos e mais de vinte anos mesário na Santa Casa da Misericórdia de Cabeceiras de Basto, sempre com muito prestígio. Infelizmente já são ambos falecidos! É também irmão da D. Maria Conceição Oliveira, moradora no Pinheiro que foi modista durante muitos anos e tem ainda outro irmão em Vieira do Minho, que eu não conheço.
Nesse dia em que ele nos foi visitar para acrescentar um dado que faltava à sua direcção para França, pensei para mim que já não saía dali sem me responder a umas perguntinhas que eu lhe ia fazer para publicar.
O casamento do Tão com a Glória, de Baloutas, em 1955
O casamento do Tão com a Glória, de Baloutas, em 1955
Eu, embora muito jovem na altura, ainda o conheci antes de ele emigrar para França. Sendo um homem que partiu à procura de uma vida melhor para ele e para toda a sua família achei o facto muito interessante, daí eu pedir-lhe que me contasse algumas coisas da sua vida!
O “Tão Funileiro” como carinhosamente é conhecido e chamado, com a sua simpatia habitual e brincalhão como eu o conheço, correspondeu amavelmente com a sua simplicidade, começando por dizer que nasceu em 1923, no lugar do Pinheiro, onde viveu até à idade de casar, em 1955! O seu pai tinha a profissão de funileiro. Apesar disso não foi a arte que ele escolheu! Quem seguiu a profissão do pai foi o Manuel e o seu irmão José de Vieira do Minho. Esse José mais tarde foi para Guarda Florestal!
O modo de vida que ele escolheu foi o de sapateiro, arte que ele aprendeu com o Costa de Fafe – o pai da Zezinha do Outeirinho e do irmão Luciano, já falecido!
Com um olhar vivo e saudoso conforme ia desfolhando estas lembranças, foi dizendo que participava com muita alegria nas festas e romarias do concelho em especial na Feira do S. Miguel, contando até que por vezes fazia de fotógrafo!
O Tão com amigos, entre eles o Mamede Vargas, à esquerda
O Tão com amigos, entre eles o Mamede Vargas, à esquerda
Segundo me contou conheceu a sua cara metade, a Glória de Castro Oliveira, natural de Baloutas, freguesia de Painzela, na conhecidíssima Pensão Gervásio, que como já contei era uma pensão residencial e portanto a sua Glória era a que ali trabalhava nos quartos.
Casou aos trinta e um anos, foi morar na Raposeira, mesmo no Largo. Esteve lá pouco tempo até vir para o Souto Longal, Refojos. A última residência do Tão foi na casa do conhecido senhor Ferreira, no Campo do Seco. Foi desta casa que partiu para a França à procura de uma vida melhor!
De princípio partiu sem a sua esposa e filhos. Foi só juntamente com os amigos Serafim (Batateiro), o Chico Ferreira e o “Vinte e Sete” de Baloutas. Mais tarde veio buscar a sua esposa e os três filhos que tinha na altura. Já em França veio a nascer o último filho!
Senti nele um pouco de tristeza ao recordar o que lhe custou deixar os seus familiares e a sua querida terra! Mesmo depois de passados quarenta e quatro anos em terras de França, ainda sente que adorava cá estar com a sua esposa! Gozar cá a sua reforma! Mas tem os filhos lá… é difícil vir de vez! De maneira que vai andando cá e lá.
Um Cortejo onde se pode ver à esq. o Tão Oliveira, a Aurora Batista e ao seu lado o Zeca Moleiro
Um Cortejo onde se pode ver à esq. o Tão Oliveira, a Aurora Batista e ao seu lado o Zeca Moleiro
Foi-me contando que participou na Equipa Portuguesa de Futebol de Terrasson, onde jogaram os seus três filhos! Aqui recordei quando estive este ano pela Páscoa no Clube tendo como cicerone o meu amigo Fernando Carvalho, mais conhecido pelo “Bispo Revolta”, e onde vi fotografias de pessoas como os fogueteiros, os filhos do senhor Antão e os mais antigos, o Tão e o senhor Gaspar Edmundo, taxista da Freita que segundo me disseram, era na altura presidente do clube.
O Tão acompanhava a equipa para todo o lado. E muitas vezes quando era preciso “cair porrada” não hesitava!
Quando foi para França, começou por trabalhar na construção civil, especializado durante vinte anos. Posteriormente foi para uma fábrica que fazia peças de carro, onde ficou até aos cinquenta e oito anos, idade em que foi para a pré-reforma ou pré-retraite como os emigrantes lhe costumam chamar!
Foi uma vida de muito trabalho e de luta mas, com a ajuda da sua querida esposa Glória que sempre colaborou com ele nas boas e nas más horas, as coisas tornavam-se um pouco mais fáceis.
O Tão Funileiro em plena cavaqueira comigo
O Tão Funileiro em plena cavaqueira comigo
Eu, pessoalmente sempre gostei do Tão Funileiro! Como era amigo dos meus pais e conhecia a minha família materna, dizia-me sempre uma brincadeira. Via-o sempre de boina na cabeça uma “vaidade” que ainda mantém e que é uma imagem de marca!
Espero sinceramente que o senhor Antão Oliveira nos venha visitar muitas vezes e que eu também vá a França visitar as tias do meu marido a Brive La Gaillard e La Lardin, Terrasson e aproveitar para visitá-lo.
Adorei os nossos momentos de conversação! Até uma próxima visita!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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