Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

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A MISSÃO A CABO VERDE
SACRIFICADA MAS POSITIVA

Cumpri o serviço militar obrigatório, com início em 17 de Abril do ano de 1967, com dedicação e vontade de bem servir, dando por concluída esta missão no dia 15 de Maio de 1970.
Nesta altura já pensava num futuro mais ambicioso e promissor, pelo que ingressei nas Forças de Segurança no dia 29 de Setembro desse mesmo ano. Não foi fácil tomar a decisão, confesso que hesitei. Mas tomada a resolução nada mais me demoveu, e, apesar de saber que era uma profissão de alto risco, enfrentei-a sem temer quaisquer consequências.
Colocado no comando de Lisboa consegui suportar o peso da minha decisão, embora fosse uma profissão frustrante e pouco remunerada, tal como todos os inícios de profissão. Certo dia, surgiu-me a ideia de ir fazer uma missão a Cabo Verde, sobre a qual também não hesitei. A viagem foi marcada com cerca de 30 dias de antecedência, para o dia 2 de Junho de 1971. Este espaço de tempo tinha por objectivo a frequência de um estágio para preparar a adaptação às dificuldades que iríamos encontrar, sermos vacinados e para nos despedirmos da família.
Assim sendo, ao aproximar-se a hora e o dia de embarque, a bordo do navio “Manuel Alfredo”, o meu coração despedaçava-se cada vez mais, porque não sabia o que me esperava. Parti com um sentimento profundo, acompanhado da minha esposa e do nosso filho de 15 dias de idade, e cerca de 20 colegas de profissão, desconhecendo por completo o nosso destino.
A tristeza no rosto de todos era tão grande que nenhum dos meus colegas era capaz de pronunciar uma única palavra de conforto. A viagem demorou cinco dias e cinco noites angustiantes. O navio tinha momentos em que parecia que se afundava devido à ondulação que encontrava e por ser de pequeno porte.
Durante algumas refeições os pratos caíam ao chão, pelos factos referidos, mas também não tínhamos apetite, porque o nosso pensamento estava sempre concentrado na missão que íamos cumprir. Chegámos à cidade do Mindelo, São Vicente, Cabo Verde, a 2ª maior cidade deste agora País, sem ver um palmo de terra.
Quando o navio encostou ao cais, foi o momento mais arrepiante, já era noite escura. À espera que o navio chegasse encontrava-se uma imensa presença humana de cabo-verdianos e se a noite já era escura, com esta presença humana, a tristeza e o desânimo aumentaram de forma assustadora. Ao longo da viagem ia esmorecendo e quando me apercebi do ambiente que estava à nossa volta disse aos meus colegas: “Onde nos viemos meter.”
À nossa espera estava um responsável do comando de São Vicente que já lá se encontrava em missão. Ele veio dar-nos apoio moral e ajudar a que as nossas bagagens fossem libertadas do controlo alfandegário o mais rápido possível.
A missão iniciou e o mais inesperado surgiu: não tínhamos água potável para fazer o leite para a criança de poucos dias de vida, o que acabou por se resolver pedindo ajuda aos outros colegas de profissão que já ali se encontravam. Nessa altura fomos informados do local onde existia um depósito de água potável, a qual era exportada, em navios próprios, de outra Ilha para aquela onde nós fomos colocados. Um garrafão com a capacidade de 10 litros custava um escudo na nossa moeda antiga.
Durante os 27 meses que permanecemos em São Vicente, o factor mais prejudicial para a saúde foi a alimentação, porque tínhamos dinheiro mas não havia o que comprar. Não havia carne de nenhuma espécie. Também não havia fruta, e legumes só muito raramente apareciam no mercado porque eram exportados de outras ilhas. Apenas havia com abundância bananas e mangas, mas também vinham de outras ilhas. Em suma, São Vicente nada produzia.
A nossa alimentação era confeccionada à base de peixe. Esta região, agora país, era riquíssima em pesca. Os adultos conseguiam superar as dificuldades mencionadas, mas a sobrevivência das crianças era o mais difícil, razão pela qual uma faleceu e três regressaram com sequelas, porque o calor sufocava e a alimentação não era adequada.
Na unidade onde nos encontrávamos instalados existia uma cantina, que era abastecida pelos militares com alguns produtos alimentares essenciais, os quais eram racionados para serem distribuídos por todos. Era uma autêntica miséria. No início do ano de 1972 foi criada uma central de tratamento de água do mar, e que depois começou a correr nas torneiras. Nesta data a qualidade de vida melhorou um pouco.
Os cabo-verdianos respeitavam muito as forças de segurança, no entanto era necessária uma enorme capacidade de discernimento para julgar o ambiente que nos cercava. A exercer outras profissões encontravam-se na cidade do Mindelo as seguintes individualidades de cor branca: um juiz, um médico, um engenheiro de Direcção Geral de Viação, um proprietário de uma mercearia e um padre que foi para ali destacado e que viajou connosco. Neste país não era tradição comemorar o Natal, a Páscoa ou qualquer outra festa religiosa. Todos os dias eram iguais, apenas assisti a um enorme Carnaval.
Estava há dois meses na referida cidade e recebi incentivos para estudar. Sendo eu ambicioso, adorei ouvir estas palavras e como a minha humildade falou mais alto, comecei a frequentar o Liceu Gil Eanes. Ora, como seria de esperar, alguns colegas de profissão não aceitaram a minha decisão.
Quando pensava ter readquirido o gosto pela vida, foi uma desilusão voltar ao estado anterior de angústia e desencanto, agora agravado pelo facto de me encontrar no limiar da dúvida se havia de estudar ou não. Mas como pensava no futuro, não ouvia ninguém, e nada via para além da minha vontade férrea de me afirmar como pessoa com idade suficiente para saber exactamente o que queria.
Concluí o 1º ciclo, que me tirou muitas horas de descanso, mas foi tempo precioso para a minha vida profissional. Agradeço a todos os que me apoiaram neste processo e que acreditaram realmente em mim, pois tive que superar um estado psíquico muito forte, porque vivi dois anos da minha vida rodeado de opositores cujo carácter me inspirava puro dó. Mas também me transformaram numa pessoa mais forte e determinada.
Apesar de ter terminado a missão com 27 anos de idade, feita com sacrifício mas positiva, quando regressei à origem, no início de Setembro do ano de 1973, a minha experiência de vida já era longa. Tive contacto com um mundo completamente oposto, o qual me fez crescer e evoluir. Por isso, com espírito de lutador, consegui atingir todas as metas a que me propus. Hoje sinto que me encontro rodeado por pessoas que gostam de mim, não pelo que eu tenho ou represento, mas por aquilo que sou.

Por: Manuel Sousa

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