Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

Notícias de além mar…

Aqui vou caminhando de mãos dadas com o tempo e já passaram mais de 7 meses desde que saí de Portugal. Ao longo deste tempo já me fui habituando a algumas coisas e percebendo que afinal, se se tiver um pouco de cuidado, os perigos e as doenças com que nos assustam quando falamos de África, não são assim tão exagerados!
Aos poucos vamos adquirindo alguns costumes e expressões típicas daqui da região, até por uma questão de facilitar a comunicação com as pessoas em geral, mas principalmente para que os alunos possam compreender melhor o que se tenta explicar nas aulas. Também já aprendi algumas palavras em Lomwé que é a língua materna da região, o suficiente para ir cumprimentando as pessoas à medida que vou passeando pelo bairro e brincando com as crianças. Se vou distraído corro o risco de cair por causa dos enormes buracos que se vão fazendo por todo o lado para apanhar os tão “deliciosos” ratos do mato que incansavelmente, crianças e adultos, vão procurando para comer! Em tempo de muito calor famílias inteiras empenham-se na caça ao rato de uma forma muito organizada fazendo queimadas, que facilmente se descontrolam, provocando grandes incêndios e causando por isso muitos prejuízos. É fácil de compreender que para muitas famílias é a única forma de comerem carne! E como dizem por aqui: “rato anima”!!!

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Na escola os resultados começam a aparecer. Aos poucos já vão compreendendo o que é isso da Química e já não respondem apenas “Sim” “Sim”, mas começam a adquirir o hábito de questionar o professor, coisa que até então era rara, visto ainda existir um pouco daquele respeito de há 30 anos a que eu prefiro chamar de medo, que os alunos de então tinham pelos ditos superiores professores! Mas as dificuldades também sobressaem, resultado de muitos e muitos anos de um sistema de ensino rudimentar misturado com muita corrupção e principalmente pela falta de formação dos educadores, e claro, porque os alunos não têm livros para estudar em casa, apenas os apontamentos que os professores vão ditando, e que, com muitos erros vão sendo registados no caderno.
Assim se vai semeando neste terreno um pouco árido, com a esperança que um dia se venham a colher os frutos, ainda que algumas ervas daninhas que persistem os tentem asfixiar, e mesmo sabendo que não serei eu a vê-los crescer e a colhê-los...
Aos poucos deixei de ser o musuko (que significa branco em Lomwé) e passei a ser o Mano Pedro. Até então sabia que muitas crianças vivem na miséria e passam fome lá na África profunda, mas agora para mim os rostos passam a ter nome - já não é mais “os meninos lá em África”, agora sei que o Teófilo passa fome, a Tânia passa fome, no Inverno a Susana não tem roupa e passa frio e que a Sílvia está sempre doente e os pais não cuidam dela, e facilmente os seus problemas passam a ser os nossos problemas e preocupações. Que todos eles bebem uma água esbranquiçada e com algum lôdo, retirada de uma poça a céu aberto de água parada que fica no vale, onde qualquer animal tem acesso e principalmente os insectos. Estas e outras condições contribuem para que certamente algumas destas crianças que já me chamam Mano Pedro, venham a morrer ainda crianças, pois aqui existe uma elevada taxa de mortalidade infantil nas crianças até aos 5 anos. São raras as famílias em que não tenham morrido uma ou duas crianças ainda pequenas!
A Telma, a Georgina,  a Cassilda,  a Sheila, o Ivan e o Juninho – alguns dos meus vizinhos e amigos mais curiosos...
A Telma, a Georgina, a Cassilda, a Sheila, o Ivan e o Juninho – alguns dos meus vizinhos e amigos mais curiosos...
Nesta zona, como é muito interior e fica na montanha, ainda existe muita superstição e muitas tradições que me fazem muita confusão. Facilmente as pessoas recorrem ao curandeiro em vez de irem ao centro de saúde, pois quase todas as doenças são consideradas “doenças tradicionais” como dizem por aqui, que segundo eles são provocadas pelos “espíritos maus”! Então quase todas as pessoas desde crianças a adultos têm várias cicatrizes no rosto ou no peito provocadas pelos golpes das lâminas que o curandeiro faz para “vacinar” as pessoas contra as tais “doenças tradicionais”. Muitas dessas doenças já pude constatar que são maioritariamente ataques de epilepsia, pois alguns alunos meus já os manifestaram na escola, mas continuam a afirmar que são coisas dos espíritos e por muito que tente explicar, já dá para imaginar que dificilmente acreditam em mim porque são muitos anos de tradição... e desde logo a sensação de remar contra a corrente, mas tendo a certeza que alguma coisa, por pequena que seja, há-de ficar e aos poucos algumas coisas vão mudar...
A realidade é cheia de contrastes como se pode imaginar. Nenhum dos meus trezentos e tal alunos sabia o que era um submarino, alguns não sabem o que é um comboio, outros perguntam-me o que é queijo e de que é feito! Mas na mesma rua com facilidade se encontra alguém que já tem telemóvel e que até já sabe usar o computador (poucos, claro!).
Nos dias em que percorro grandes distâncias de bicicleta em direcção às zonas de montanha as pessoas em geral e especialmente as crianças ficam muito eufóricas e todas me querem cumprimentar porque não é normal verem um musuko (branco) por aquelas bandas e muito menos a andar de bicicleta, os que passam, normalmente vão de carro. Algumas crianças de colo começam a chorar quando me aproximo, pois nunca viram um branco e devem imaginar ser algum fantasma! Algumas mais crescidas também fogem porque, apesar de já terem visto brancos, ainda não se habituaram, e porque ainda existem muitas histórias que vêm do tempo dos avós dos avós deles que contam que os brancos d’outros tempos roubavam crianças para vender...
E assim se vão passando os dias. Novas histórias, pequenas vivências, muito longe dos dias de monotonia e de stresses acumulados das sociedades ditas desenvolvidas... A ver crescer as mangas nas árvores, à espera que fiquem maduras e animados pelos sorrisos das crianças, assim se passam os dias...

Pedro Almeida
Lar Internato Madre Maria Clara
Invinha, Gurué – Zambézia
Moçambique

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