Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (81)
A CHINA CAPITALISTA

A China dos dias de hoje é algo de surpreendente. Confesso, muito sinceramente, que se não visse, teria sérias dificuldades em acreditar.
Nas décadas de sessenta e setenta do século passado, eu era um daqueles que ouvia a Rádio Pequim, em ondas curtas. O sinal de abertura da emissão, em língua portuguesa, era transmitido durante cinco minutos, com uma banda sonora de motivos musicais chineses de fundo e dois locutores, um homem e uma mulher, a repetir: aqui Rádio Pequim (a voz do homem); aqui Rádio Pequim (a voz da mulher), ambos com sotaque brasileiro. Eram brasileiros os locutores da Rádio Pequim nas suas emissões em língua portuguesa.
Era o tempo da revolução cultural e proletária, desencadeada pelo Presidente Mao Tsé Tung. O lema do grande camarada Mao, como lhe chamavam os seus pares, era criar as condições objectivas para que cada chinês tivesse, pelo menos, direito a uma tigela de arroz por dia. Antes da revolução cultural a China era uma imensidão de gente faminta.
Em termos internacionais a propaganda chinesa era essencialmente dirigida contra o imperialismo americano e o revisionismo soviético. Os americanos eram chamados de tigres de papel. Mantinha também um conflito fronteiriço e sangrento com a União Indiana, que por sua vez era apoiada pela União Soviética. O regime português via com bons olhos a politica externa de Pequim. Primeiro porque parecia não mostrar quaisquer ambições relativamente à anexação de Macau; depois porque era deliberadamente hostil à União Soviética; e em terceiro lugar porque mantinha uma guerra com a União Indiana, que tinha acabado de anexar o Estado Português da Índia, e isso dava algum conforto às autoridades portuguesas.
A revolução cultural do Presidente Mao teve os seus méritos num dado período histórico. Pelo menos a grande maioria do povo chinês deixou de estar sujeito a morrer de fome. Porém, o país manteve-se atrasado em termos de industrialização. A economia planificada, tal como acontecia com a União Soviética e todos os países socialistas, não funcionava.
Após a morte do presidente Mao Tsé Tung, em nove de Setembro de 1976, a china foi governada, de facto, por um veterano, que viveu toda a era do presidente Mao, mas nunca chegou a ocupar o lugar de líder supremo. Estou a falar de Deng Xiaoping, nascido a vinte e dois de Agosto de 1905 e falecido a dezanove de Fevereiro de 1997. Morreu com noventa e dois anos e viveu quase todo o século vinte. Teve altos e baixos em termos de carreira politica, em particular no consulado de Mao Tsé Tung, que se prolongou desde a implantação do regime comunista, em um de Outubro de 1949, até à sua morte em nove de Setembro de 1976.
Mas, o verdadeiro período em que Deng Xiaoping exerceu efectivamente o poder, na República Popular da China, foi entre 1978 e 1994. Ele foi o pioneiro do “socialismo com características chinesas”, que se materializou na teoria: “um país dois sistemas”. Abriu a China ao mercado mundial, e tomou o Japão como exemplo a seguir em termos de rápido crescimento económico. Foi o primeiro líder chinês a visitar os Estados Unidos da América, facto que se verificou em 1979, quando o presidente dos EUA era o Senhor Jimmy Carter. Como já referi, a propaganda externa chinesa relativamente aos americanos, antes da era Deng Xiaoping, era francamente hostil, apelidando-os de imperialistas e tigres de papel.
Foi Deng Xiaoping quem negociou com os ingleses, a dezanove de Dezembro de 1984, a devolução à China da colónia de Hong Kong, que viria a verificar-se em 1997. Igualmente negociou com os portugueses a devolução de Macau, que se verificou em 1999. Quer num caso, quer no outro, ficou acordado que a República Popular da China não interferiria nos sistemas capitalistas das duas colónias por um período de cinquenta anos.
De facto assim é. Macau continua a ter a sua moeda, a pataca, a que os macaenses chamam dóllares de Macau; e Hong Kong continua a ter a sua moeda, o dóllar de Hong Kong. O Yuan chinês não circula nem em Macau nem em Hong Kong. Para se passar do território da República Popular da China, tanto para Macau, como para Hong Kong, continua a verificar-se todas as formalidades fronteiriças, com obrigação de exibir passaportes e preenchimento de todos os formulários de entrada e saída de qualquer um dos territórios.
Tanto em Pequim (Beijing), que tem quinze milhões de habitantes, como em Xangai que tem dezassete milhões, como em algumas outras cidades do interior, todas com cinco ou dez milhões de habitantes, vê-se auto-estradas a cruzar os respectivos aglomerados, pelo centro, com viadutos ao nível do décimo andar dos prédios, e cruzamentos, em forma de trevo, meio trevo, ou diamante, autênticos rendilhados de viadutos. Larguíssimas avenidas ordenada e cuidadamente arborizadas e ajardinadas. Nem um minúsculo papel no chão.
Comparativamente com qualquer cidade ocidental, por exemplo Lisboa, vê-se muito poucos pobres na rua. As pessoas são alegres, comunicativas e parecem felizes. O parque automóvel é, objectivamente, superior ao nosso e semelhante ao de qualquer das mais evoluídas metrópoles europeias. As lojas de moda e os armazéns de luxo rivalizam com tudo o que se pode ver de melhor em Londres, Paris, Tóquio ou Nova Iorque.
O custo de vida é semelhante ao nosso. Um prato de massa num restaurante italiano em Pequim custa sensivelmente o mesmo que custa num restaurante italiano em Lisboa. O nível de vida será uma coisa bastante diferente, que eu não consegui meios para, nem me arrisco, a avaliar. Muito provavelmente é inferior à média europeia.
Seja como for, fiquei altamente surpreendido, pela positiva. Não esperava, nem de perto nem de longe, vir a observar uma China Comunista com tal forma de vida.
Ainda como mero exemplo: há stands de automóveis por todo o lado, com carros de todas as marcas europeias, norte-americanas, japonesas e coreanas. O cliente pode entrar e comprá-lo na hora. Precisa apenas de uma coisa: tal como cá, ou em qualquer outra parte do mundo, precisa de dinheiro.
Macau é o paraíso do jogo. Tem vinte e nove casinos, e dizem que o número de pessoas a jogar, a cada instante, varia entre cinquenta (mil) e cem mil...!?
Para todos aqueles que se assustam com os números da população chinesa, lembro que a densidade populacional na China é de 136 habitantes por quilómetro quadrado, enquanto que a do Japão é de 336, bastante mais que o dobro. E, já agora, a densidade populacional de Portugal é de pouco mais que 31 habitantes por quilómetro quadrado.

Por: José Costa Oliveira

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