Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

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A FEIRA DO S. MIGUEL
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Nunca é de mais relembrar!

Hoje, dia 30 de Setembro, chegou ao fim e em grande a tradicional Festa em honra de S. Miguel, o patrono desta nossa linda terra.
Já muito se falou e escreveu sobre esta feira e as suas tradições, os seus costumes populares, durante os seus onze dias de duração (e não dez como é comum dizer-se). Mas o trabalho mais completo a nível histórico feito até hoje, na minha opinião foi sem dúvida nenhuma o do nosso querido Professor e Historiador Alexandre Vaz. Eu já escrevi alguma coisa em crónicas anteriores sobre isso, uma simples resenha que vós certamente já conheceis de sobra.
Não direi que os mais novos estejam muito por dentro destas tradições que segundo reza a história já vêm da época medieval, mas os mais velhos do que eu e os da minha idade certamente que já ouviram falar muito delas!
Camilo Castelo Branco, o escritor preferido da minha romântica adolescência, falou nos seus célebres romances, como “Eusébio Macário”, “Novelas do Minho”, “Mistérios de Fafe” e “Como ela o Amava” sobre a sua importância mas, eu continuo a dizer que nunca é demais relembrar! Por esse motivo fico feliz que nestes últimos treze a catorze anos, a Festa do S. Miguel tenha ganho um grande impacto, quer a nível regional quer a nível nacional e tudo graças ao renascimento de alguns costumes que eram usuais dos tempos antigos mas que pouco a pouco se foram perdendo. Segundo reza a história foi o Rei D. Dinis, quem deu valor e importância a esta feira popular dirigida essencialmente ao povo agricultor!
Abertura simbólica do portão no primeiro dia
Abertura simbólica do portão no primeiro dia
Tenho lido a monografia de Cabeceiras e pesquisado na Internet alguma coisa sobre a sua origem e, também converso acerca dela com o Manuel Carneiro, meu marido que, devido à sua situação de professor aposentado, se tem dedicado a nível particular ao estudo da História de Portugal, das Terras de Basto e, em especial à de Cabeceiras que, como vós sabeis é riquíssima em património cultural, histórico e arquitectónico! Sempre que está bem disposto dá-me apoio, ajudando nas pesquisas para os meus escritos e, esclarecendo alguma dúvida. Temos aqui e ali alguns pontos de vista diferentes! Mas no geral confio na opinião e no saber dele!
A minha falecida mãe contava-me coisas sobre as festas do seu tempo e até de tempos anteriores a ela! E contava que antigamente o recinto da feira (o Campo do Seco) eram campos de milho e outras culturas, com árvores de fruto, por exemplo oliveiras e vinhas e, naturalmente eram campos fechados pertencentes a vários donos! (Camilo fala disto no seu conto “Gracejos que matam”).
As primeiras vendedeiras a atravessar o portal
As primeiras vendedeiras a atravessar o portal
Contando assim por alto o que me contavam a mim, diziam que quando o mês de Setembro chegava tinha que se cortar o milho e apanhar o feijão para se poder fazer a feira. Eu, até me atrevo a imaginar as pessoas a andarem a passear acima e abaixo a calcar os tocos que ficam depois do milho cortado à foicinha! Claro que para se fazerem os festejos os proprietários dos campos tinham que ceder os espaços para a utilização dos mesmos, não sei se “a bem ou obrigados”! Mas isso já vai há muitos anos, séculos…
A nossa Autarquia, através da Casa da Cultura tem, felizmente para todos nós Cabeceirenses uma grande vocação no sentido de preservar, criando organismos encabeçados por pessoas preparadas para pesquisar hoje, as nossas origens, tradições, costumes e culturas do passado, para podermos seguir em frente no futuro com orgulho! Desde há mais ou menos cinco a seis anos a nossa Edilidade, conjuntamente com a Casa da Cultura (EMUNIBASTO) e a Comissão de Festas do nosso Padroeiro, tiveram a feliz ideia de fazer um porta de madeira, com uma chave grande como se usava antigamente, e colocá-la mesmo à entrada da feira, junto à antiga casa que foi do Armindo “Padeiro”, do lado de quem vem da Ponte de Pé, para simbolicamente ser aberta, no dia 20 de Setembro, para dar início aos onze dias de feira. Mesmo não se tendo feito regularmente este ano aconteceu!
Cortejo Etnográfico - o bonito carro da freguesia de Bucos
Cortejo Etnográfico - o bonito carro da freguesia de Bucos
Este simbolismo é recente mas, muito bem enquadrado, na minha e nas opiniões das pessoas da freguesia de Refojos e de outras que não sendo de cá também assistiram ao acto.
Eu não sou do tempo de se cortar o milho para se fazer a festa e mesmo a minha mãe na altura era criança, quando os antigos também lho transmitiram. Foi talvez mais no tempo da minha avó materna, a Arminda Silva, que morou na Cruz do Muro. Mas das oliveiras e do barracão do Campo do Seco lembro-me eu perfeitamente. Era no barracão que se fazia o negócio do gado (venda e compra de porcos e gado bovino) e se me não falha a memória era aí que durante a Feira do S. Miguel o Salsinha de Alvite colocava a sua aparelhagem musical, para pôr a música popular e fazer os anúncios de publicidade do comércio local!
Hoje o Campo do Seco, ou Campo da Feira, como é mais conhecido, é plano mas, antigamente ali para o lado dos Bombeiros era bastante alto, e o barracão ficava mais ou menos naquele sítio ali. O barracão além de ser útil à segunda-feira para os negócios, também servia para as crianças da antiga escola da Boavista e as da sede (onde hoje fica a Junta de Freguesia e os Jardins de Infância), se recolherem da chuva quando brincavam nos intervalos das aulas!
O Presidente da Junta de Refojos vestido a rigor no Cortejo Etnográfico
O Presidente da Junta de Refojos vestido a rigor no Cortejo Etnográfico
Com o passar dos anos naturalmente as coisas foram-se transformando desde a Boavista ao Campo do Seco, começando por desaparecer o barracão, a Pensão Gervásio Fernandes, muito conhecida em todo o lado, pela hospitalidade, pela gastronomia e principalmente pela maneira de estar do senhor Gervásio, pessoa estimadíssima na terra! Com o desaparecimento da sua grande casa, deu-se origem à construção de novos prédios e de novas ruas!
Uma outra inovação deu-se há cerca de quatro anos e foi a realização do cortejo etnográfico que este ano ultrapassou todas as expectativas! Foi um sucesso enorme! Uma boa aposta entre a Emunibasto, as Juntas de Freguesia e as Associações vivas de Cabeceiras de Basto. Uma boa aposta, repito! Este ano esteve mesmo um primor!
E as arruadas? Outra iniciativa que renasceu também há pouco tempo mas sem dúvida alguma deu os seus frutos. Já conheço há algum tempo os dotes artísticos do José Gonçalves Lopes, como compositor, em letras e música, como animador de vários grupos em todas as freguesias, que se encarrega desta iniciativa! Mas, sem dúvida alguma para mim e para muitos cabeceirenses é uma mais valia para estas festas e para outras que se fazem! Na noite do vinte e oito fiquei impressionada com as várias arruadas que vi ao longo dos caminhos da feira, com o senhor Lopes a cantar e a tocar cavaquinho à frente de uma multidão enorme que o acompanhava!
A Orquestra Ligeira do Exército em plena actuação no Picadeiro
A Orquestra Ligeira do Exército em plena actuação no Picadeiro
Quem assistiu ao cortejo certamente não conseguiu ficar indiferente ao rodopio do senhor Lopes entre um carro e outro, sempre de micro em punho, sempre com a poesia na boca, e na brincadeira sem malícia! Vê-se que existe uma grande sintonia entre ele e todos os participantes do cortejo, podendo mesmo dizer-se que mantém uma relação de grande amizade com todos! Espero que ele mantenha esse espírito por muitos anos!
Antes de terminar esta “conversa” que estou a ter convosco, tenho ainda que realçar o seguinte: gostei muito das duas noites em que fui assistir no Picadeiro a dois espectáculos de se lhes tirar o chapéu. Primeiro tratou-se de uma demonstração de equitação em que os cavalos e cavaleiros fizeram coisas maravilhosas. Mas o que mais me apaixonou, foi a Orquestra Ligeira do Exército! Foi fora de série! Penso que de todos que assistiram ninguém ficou indiferente! E só foi pena que algumas pessoas tenham perdido este excelente espectáculo. Além de tocarem maravilhosamente tinha três cantores impressionantes! Até me atrevia a pedir daqui, da página deste Jornal, o favor de incluir esta Orquestra nalgumas festas da nossa querida terra!
Muitas coisas eu teria para acrescentar mas tem sempre que ficar alguma coisa por dizer para outra vez.
Parabéns à Câmara de Cabeceiras, à Emunibasto, à Comissão de Festas, a todos os particulares e anónimos que contribuíram para o sucesso de mais uma edição das Festas e Feira de S. Miguel.
Um bem-haja a todos!
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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