Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-09-2007

SECÇÃO: Opinião

As minhas aventuras

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Um pé na Europa… outro na África

Como já vai sendo hábito contar-vos as coisas alegres e tristes que me aconteceram ou vão acontecendo ao longo da vida, hoje vou contar algumas peripécias das minhas últimas férias.
Não é minha intenção e nem é meu feitio, de maneira alguma gabar-me de ir para férias, para o “bem bom”, quando muitos de vós por diversos motivos o não podem fazer e outros ainda conseguem superar este estilo de vida.
Não é isso que eu pretendo! Penso que já me deveis conhecer um pouco ao fim de quatro anos de escrita, já não falando que a maior parte dos assinantes me conhecem pessoalmente, para imaginar sequer que esta seja uma maneira de me vangloriar.
Nem sempre durante a minha vida pude desfrutar de umas férias fora do território nacional, ou porque tinha os filhos pequenos ou então, e principalmente também, por motivos económicos. Por isso, todas as saídas para fora do meu querido País são sempre para mim uma aventura!
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Junto o gosto de escrever com as peripécias que me acontecem nessas viagens e assim vou fazendo as minhas crónicas.
Com a idade, eu e o meu marido Manuel Carneiro, já não prescindimos de alguns confortos, entre os quais uma praia com água bem quente, e nesse aspecto realmente a Espanha, com as suas praias mediterrânicas, é um regalo para a vista e para o corpo, além de proporcionar férias mais económicas. O destino escolhido este ano foi Torremolinos, na Andaluzia, uma das poucas zonas do país vizinho que ainda não conhecíamos.
Resolvemos também, não ir de avião nem levar o nosso carro. Portanto partimos da cidade de Guimarães de autocarro numa sexta-feira às 18,30 minutos e chegamos a Torremolinos ao outro dia pelas 10 horas da manhã! Já é um tanto ou quanto pesado para a nossa coluna! Mas enfim, a beleza do local em que iríamos fixar-nos durante oito dias compensava de certa maneira a saturação da viagem.
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O dia da chegada foi mais para reconhecimento do local onde estávamos instalados, ver a que distância ficava a praia e ver alguma coisa importante a nível cultural e histórico. Enfim, verificar onde ficavam os pontos de maior interesse que o Manuel Carneiro já levava impressos de Cabeceiras, através da Internet.
Depois de jantar assistimos ao jogo de futebol entre as equipas do Sevilha e do Bétis, em que tudo corria bem até se chegar à segunda parte do jogo quando inesperadamente o jogador de vinte e dois anos, António Puerta, do Sevilha, cai repentinamente no chão. Fiquei logo em estado de choque! A mesma situação se tinha passado em Portugal com Miklos Féeher, jogador do Benfica, que morreu no campo de futebol de Guimarães. Custou-me imenso que ali tão perto de nós, em Sevilha, um jovem, que apenas tinha 22 anos, e que ia ser pai do primeiro filho sentia a sua vida a esvair-se. Vi como os colegas o rodeavam, tentando reanimá-lo metendo-lhe os dedos na boca para impedir que ele sufocasse com a língua!
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Como que por milagre ele ainda se levantou e caminhou até aos balneários onde infelizmente lhe repetiriam os ataques cardíacos que o levaram à morte passados três dias!
Esta morte tão prematura ensombrou os primeiros dias de férias! Tal como tinha acontecido em Portugal todos os adversários se uniram naquela hora de luto.
Estes acontecimentos de morte repentina fizeram-me ter outra visão sobre o desporto “rei”. Se calhar o dinheiro astronómico que eles ganham até é bem merecido!
Mas, tristezas à parte, até porque eu estava longe de casa, tinha que aproveitar umas férias que já estavam pagas. Fiz um esforço para me abstrair das notícias e resolvi aproveitar! E aproveitei bem! A boa vida sem fazer nada nunca fez mal a ninguém!
Observei também a grande influência dos mouros naquelas construções e nas ruas um tanto ou quanto estreitas, os formatos em arco, e tudo mais que caracteriza aquela zona de Espanha.
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A primeira intenção de fazer férias na Andaluzia era conhecer as tradicionais cidades de Málaga, Córdova, Granada e Sevilha. Porém num daqueles dias em que nos dirigíamos para a praia, o meu marido reparou que à porta de uma agência de viagens estava um aviso sobre um visita a Tânger (Marrocos), com a duração de um dia inteiro e até nem era muito caro. Eu, que não sou muito dada a culturas muito diferentes da nossa, torci logo o nariz!
Logo o Manel rematou que a viagem era uma experiência maravilhosa, que iria permitir passarmos do continente europeu para o africano, que eu ia gostar, etc. Não fiquei muito entusiasmada mas, para lhe fazer a vontade, lá fomos os dois mais um casal do Porto que conhecemos no hotel.
Não quero que fiquem com a ideia de que eu possa ser preconceituosa, mas tinha visto a telenovela brasileira chamada “O clone” e que foi gravada em Marrocos e vi que as mulheres só têm valor para os homens bem no interior das casas onde nenhum homem a não ser os pais lhe possam pôr a vista em cima. Que todos os adereços sensuais e as danças dos véus só são feitas entre as paredes do quarto do casal, para agradar ao marido e que ele até poderá ter mais do que uma mulher. Portanto já podem ver o valor que a mulher tem nesses mundos!
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Logo à entrada de Tânger havia uma parte da cidade que era mais rica, onde estava instalado o palácio do governador, cercado com guardas reais e com todas as mordomias, uma zona onde vivem principalmente americanos, e residentes naturais que se via que viviam bem.
O mesmo já não acontecia ali ao lado, na parte antiga da cidade naquele emaranhado de casas, separadas por estreitos corredores de um metro ou pouco mais, sujos e com bastante falta de água! Naturalmente que íamos encaminhados por guias experientes que nos ia levando para os locais onde pudéssemos deixar os euros, nas especiarias ou nas casas de tapetes que, diga-se em abono da verdade, eram como os das mil e uma noites.
Por aquilo de que me apercebi não tiveram muita sorte nas vendas, pelo menos no nosso grupo, pois não dava jeito nenhum vir com um tapete às costas.
Vi também, como nos filmes, os encantadores de serpentes. Vi realmente as cobras (najas) a saírem de dentro dos cestos, conforme o flautista tocava! Vi também umas loiras inglesas que faziam parte do grupo, muito corajosas, a porem cobras ao pescoço. Eu digo corajosas porque em Marrocos os homens de lá oferecem muitos camelos pelas loiras. Eu mantive sempre uma distância grande desses animaizinhos que deitam a língua de fora! Mas como é da praxe também demos uma voltinha e tiramos fotografias em cima de um camelo, o que nos custava um euro.
Pobres camelos o que eles tinham de aguentar todo o dia, num sobe e desce constante!
Como o almoço estava incluído dirigimo-nos para um restaurante, nesse emaranhado de casas, que diziam ser um dos melhores da zona… até lá comiam ministros e dirigentes de altos cargos de governo. Segundo se comentava no autocarro também já lá tinha comido o Durão Barroso, Presidente da União Europeia!
Fomos recebidos com música que um grupo de quatro ou cinco homens tocavam conforme íamos entrando. Mulheres nem vê-las! As salas estavam decoradas com tapeçarias e mantas muito bonitas. O que parecia ser o chefe ou o dono do restaurante foi muito simpático e quis saber de que zona de Portugal nós éramos.
A comida constou de cuscus com frango e tal como a sopa foram cozinhadas com as especiarias, sendo a sobremesa um doce típico e um chá de hortelã que eu não tomei porque estava muito quente.
O que mais me custou a mim foi ao sairmos do restaurante passarmos pelos ruas (corredores) estreitíssimas, com os vendedores ambulantes às chusmas a quererem vender e a propor regatear os preços, o que faz parte da tradição deles, exercendo uma pressão enorme em cima das pessoas. Sinceramente que houve momentos em que tive muito receio. Nem sequer deu para fazer fotografias tal era a “necessidade” que sentia em proteger a minha bolsa! Só respirei quando me vi dentro do navio que nos havia de trazer até Algeciras (Tarifa), para depois regressarmos a Torremolinos.
Ao contrário de mim o meu marido vinha todo contente com esta experiência que lhe permitiu comprovar um pouco tudo o que tem lido acerca destes povos e relembrando que foi aqui que foi feito prisioneiro D. Fernando, o Infante Santo. Isto de se ser filho de rei era meio caminho andado para alcançar a santidade. Gostou e não se importaria de repetir com mais tempo. Certamente não terá a minha companhia para outra aventura desta natureza!
Com o relato desta aventura de uma dia a Marrocos, que realmente eu não apreciei, a não ser o passeio naquele navio enorme e pela paisagem da cidade que se via a partir dele, eu não quero que pensem que sou preconceituosa, simplesmente acho que é um povo com costumes e culturas tão diferentes dos nossos como a água do vinho o que me inspira um certo temor. Não é por mal. Eu sou assim! Tudo o que desconheço me mete respeito.
Mas valeu pela experiência. Devo dizer que gostei de Torremolinos, Marbelha, Málaga, especialmente das suas praias, das suas ruas cheias de gente, das lojas onde tudo se vende, dos cheiros das comidas típicas de lá, da arquitectura, etc.
Enfim tirando a morte de António Puerta, que entristeceu toda a gente posso dizer que foram uns dias bem passados. Quem sabe se um dia lá voltarei!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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