Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2007

SECÇÃO: Opinião

DUAS MULHERES DE BASTO E UM IMENSO TERRITÓRIO NA GÉNESE DA CASA DE BRAGANÇA

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D. AFONSO E D. BEATRIZ DE ALVIM

Por volta de 1371 nasceu em Veiros (Alentejo) um filho bastardo de D. João, mestre de Aviz, por sua vez bastardo de D. Pedro I, o rei justiceiro. É sua mãe Inês Pires Esteves (ou talvez Inês Fernandes Esteves), natural da Guarda, filha dum sapateiro oriundo de Castela, judeu converso, que ficou a ser conhecido pela alcunha de “O Barbadão”, homenagem às suas longas barbas que deixara crescer como sinal de luto pela ofensa que o mestre de Aviz cometera no corpo de sua filha.
O jovem Afonso é entregue aos cuidados do seu aio Gomes Martins de Lemos e vive com este em Leiria.
Como era costume naquela altura, os casamentos combinavam-se ainda na infância. O rei D. João I oferece ao Condestável D. Nuno o casamento do seu filho, o príncipe D. Duarte, futuro rei, para marido de D. Beatriz, única filha de D. Nuno. O Condestável rejeita a oferta. Porquê?
O sonho de D. Nuno era o de fundar uma grande instituição que pudesse ser alternativa à Coroa em caso de crise da Monarquia. Casando sua filha com o rei, todos os seus imensos bens voltariam à Casa Real, donde tinham saído. Propõe assim ao rei D. João I o casamento de D. Beatriz com o filho ilegítimo do rei, D. Afonso, desde que o mesmo fosse legitimado e lhe fossem concedidos bens suficientes.
Assim aconteceu. Por carta de 31 de Outubro de 1391 D. João I legitima o filho bastardo.
A escritura é celebrada em Frielas (Leiria) em 1 de Novembro de 1401 e a cerimónia do casamento em 8 de Novembro. No dote de D. Afonso vão as terras e julgados de Neiva, Darque, Parelhal, Faria, Rates e Vermoim, com todos os seus termos e coutos, e ainda terras em Penafiel, Basto e Couto da Várzea, comprados a um tal João Pereira.
O Condestável, por seu lado, dota a noiva com a vila e Castelo de Chaves, com seus termos, terras e o julgado de Montenegro, o castelo e fortaleza de Montalegre, as terras de Barroso e Baltar, Paços de Ferreira e Barcelos, tudo isto com toda a jurisdição cível e de crime, padroados, direitos e pertenças reais. Para arredondar, vão as quintas de Carvalhosa, Covas, Canedo, Sarraçais, Godinhães (Gondiães), Sanfins, Temporão, Moreira e Pousada.
Por seu lado, D. Nuno cede ao genro o Condado de Barcelos, de que era o 7º titular. D. Afonso torna-se assim no 8º Conde de Barcelos.
O casal estabelece a sua residência no Castelo de Chaves, enquanto manda construir um magnífico palácio. Nascem três filhos: Isabel, que casou com seu tio D. João; D. Afonso, conde de Ourém e marquês de Valença que faleceu em 1460, antes de seu pai, pelo que não lhe sucedeu no ducado de Bragança; e D. Fernando, conde de Arraiolos, que sucedeu a seu pai no ducado.
Nem tudo são rosas. Um espinho vai-se cravar no coração de D. Afonso. Sua esposa D. Beatriz morre em Chaves em Dezembro de 1413, vítima de um parto mal sucedido. Uma longa cavalgada transporta o seu cadáver para o mosteiro de Santa Clara, em Vila do Conde. D. Afonso deixa chaves e vem instalar-se com os filhos em Barcelos.
Torna-se um homem taciturno, melancólico, desprendido da vida.
O rei quer obrigar o filho a casar novamente. D. Afonso recusa a ideia por várias vezes. Por fim, cede. Casa com D. Constança de Noronha, filha de D. Afonso, conde de Gigón e Noronha, neta de Henrique II de Castela. A noiva é dotada pelo Rei, seu sogro, com as terras e direitos que possui em Guimarães.
Do casamento não resultam descendentes. D. Afonso afasta-se da vida social. Refugia-se cada vez mais nas suas terras. Raramente visita a Corte. Casa a filha D. Isabel com seu meio-irmão D. João. Propõe a D. Duarte, agora rei de Portugal, o casamento de uma sua neta com o futuro D. Afonso V. O seu pedido é rejeitado e vê, com amargura, o casamento de D. Afonso V com uma outra Isabel, sua prima, filha de seu irmão D. Pedro que, por morte de D. Duarte, se torna regente do Reino.
Começam a avolumar-se as suas descendências com o Regente, seu meio-irmão.
Em 1442 este, numa tentativa de aplacar as iras de D. Afonso, concede-lhe o senhorio de Bragança, com o título de Duque, autorizando-o a constituir o Ducado de Bragança, incorporando neste todos os territórios que possuía. Torna-se assim o chefe da mais poderosa Instituição do País, logo a seguir à Coroa, mas as intrigas vão continuar. Só falta um pretexto. D. Afonso declara querer ir visitar o Rei Afonso V, recentemente entronizado. Nos fins do Inverno de 1449 sai de Chaves, arrebata a gente que pode nas serras de Barroso, ainda cobertas de neve, atravessa com os seus homens a região de Basto, onde recruta novos elementos, chega a Guimarães. Na sua caminhada para sul, pretende atravessar as terras de D. Pedro, o ex-Regente. É-lhe negada a pretensão. D. Isabel, esposa do Rei, filha do ex-Regente, sobrinha de D. Afonso, tenta obter um consenso. Nada consegue. Os dados estão lançados. As duas facções – as tropas do Rei e de D. Afonso vão-se encontrar com as de D. Pedro em Alfarrobeira. A desproporção é grande e os actos de heroísmo não evitam a morte de D. Pedro e dos seus homens. À filha do regente nada mais resta que rogar a seu marido a entrega do cadáver do pai para lhe dar sepultura cristã.
O velho duque está soturno, merencórico. Um novo golpe o abala. O primogénito morre no ano de 1460 sem deixar descendência legítima.
D. Afonso, 1º duque de Bragança, o senhor mais poderoso do reino, vem a falecer em Chaves em Dezembro de 1461. Tinha noventa anos de idade. É sepultado na igreja matriz daquela cidade. Em 24 de Junho de 1637 as suas ossadas são transferidas para a igreja de S. Francisco. Em 1942 o seu túmulo foi transladado para a igreja de Santo Agostinho (Panteão dos Braganças) em Vila Viçosa.
Rei morto, rei posto. Sucede-lhe no ducado de Bragança e em todos os seus títulos e posses, o filho D. Fernando. É neto dum rei e dum Condestável, primo do rei reinante, neto e filho de duas mulheres de Basto.
(continua)

Nota: No 1º artigo publicado no nº 312 de 15/06/2007, no último parágrafo da 4ª coluna, deve-se ler a partir da linha 5: “Este tem, por alto desígnio, o estabelecimento dum poder real autoritário. Vai atacar a nobreza que desde D. João I, se enche de riqueza e poder.”

Por: Francisco Vitor Magalhães

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