Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (80)

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APANHISTAS

A palavra não vem no dicionário, pelo menos em dois ou três, e até uma enciclopédia, que me dei ao trabalho de consultar. Pertence à família de palavras como farristas, pilhas e outras, que designavam todos aqueles, que tentaram a sua sorte, na exploração de umas pedras de cor preta, bastante pesadas, que se encontravam num determinado perímetro da freguesia de Salto, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, e também na freguesia de Campos, concelho de Vieira do Minho, distrito de Braga.
Era o filão de volfrâmio do couto das minas da Borralha. O couto mineiro foi criado por despacho ministerial de 13 de Fevereiro de 1926, com uma área de 1.788 hectares, tendo vindo mais tarde, e sucessivamente, a ser ampliado, chegando aos 2.611 hectares, após a última concessão, que se verificou em 28 de Junho de 1968.
O período áureo da exploração do minério verificou-se no decurso da segunda guerra mundial. Do volfrâmio extrai-se o tungsténio, que era utilizado no fabrico de armas e munições. O tungsténio é também utilizado no fabrico de lâmpadas e filamentos, pelo que tem utilidade em tempo de paz. A exploração normal e legal era feita pela companhia mineira das Minas da Borralha, que ao longo do tempo passou por mãos de portugueses, franceses e belgas. Nas minas trabalharam milhares de operários, que desmontavam o filão a profundidades que variavam entre os cem e os duzentos metros. Os escombros eram guindados até à superfície, em jaulas, movidas por meio de potentes sarilhos. Era também nas mesmas jaulas que desciam e subiam todos os operários, sempre que iniciavam ou terminavam o seu turno de trabalho.
Mas, no período chamado da febre do volfrâmio, a grande azáfama verificava-se nas imediações da área do couto mineiro. Era a exploração marginal, ilegal ou informal, chame-se-lhe o nome que se quiser. Neste grupo é que se enquadravam os apanhistas, os farristas e os pilhas. Os das duas primeiras categorias, com maior ou menor dose de irregularidade, dedicavam-se ao trabalho duro de procurar as pintas pelos montes, fazendo um buraco aqui, outro buraco mais além, onde quer que lhes cheirasse a vestígios de escuro mineral. Os da terceira categoria, os pilhas, como o próprio nome não deixa duvidar, dedicavam-se a assaltar e a roubar os primeiros, roubavam também, sempre que podiam, os stocks das próprias minas, e roubavam ainda, um ou outro dos operários da companhia, que se arriscavam a sair das minas com uma pedrita escondida junto dos “tomates”.
Naqueles primeiros anos da década de quarenta, toda a gente se dirigia para a Borralha. Os homens iam para o trabalho da exploração do volfrâmio. Uns, os mais pacatos procuravam o trabalho assalariado no interior das galerias a cem ou a duzentos metros de profundidade, sempre sujeitos a apanhar com um calhau, grande ou pequeno, em cima da cabeça. Outros, mais ousados por um lado, mas muito provavelmente com medo de ir trabalhar para debaixo da terra, arriscavam-se a procurar o minério, por sua conta e risco ao nível do solo, a céu aberto.
As mulheres também tiveram a sua cota parte na odisseia, estas carregavam cestos de fruta e de hortaliças, canecos de vinho e broas de pão de milho, para vender no local da mina e arredores, a todos os homens que por ali andavam. Os apanhistas aproveitavam-se delas para lhes solicitarem o serviço de, nos cestos vazios que traziam no regresso a casa, transportarem o minério que eles tinham comprado ou roubado, com a condição de o entregarem em locais pré-determinados, tudo a modos de contrabando, ou, simplesmente, negócio informal.
A propósito alguém criou uma poesia dedicada aos acontecimentos, era uma sextilha e cantava assim:
De picareto na mão;
À procura do filão;
E das preciosas chinas;
Vamos todos para a Borralha;
Que a vida é para quem trabalha;
Benditas sejam as minas.
A par de toda a miséria que se vivia na generalidade da região, e do país, neste particularíssimo lugar havia quem se desse ao luxo de fazer cigarros usando notas de vinte escudos como mortalha. Era o pecado mortal da soberba (contra a soberba humildade!). Refira-se que vinte escudos era, um pouquito mais, que o salário diário de um homem que trabalhava dez horas no fundo da mina. Haveria também, muito provavelmente, muitos a cometer o pecado da luxúria. É muito natural que tal tenha acontecido, a vida que ali se vivia era como aquela que se vive junto de qualquer acampamento militar em tempo de guerra. Havia muitos homens que procuravam minério, e havia bastantes mulheres que procuravam vender bens de primeira necessidade aos homens que procuravam minério.
Ainda a propósito de volfrâmio, de apanhistas, e de um certo tipo de soberba, diga-se, de ostentação, conta-se que havia um cidadão, em Cabeceiras, que era o único, naqueles tempos, que exibia, com muito frequência, notas de mil escudos, que de vez em quando almoçava, ou jantava, na Pensão do Fundo, e que um certo dia, pagando a refeição com uma nota de mil escudos, um conto de réis, escreveu na nota “O nome (xx da xxxx): o maior apanhista de minério de Cabeceiras e arredores”.

Por: José Costa Oliveira

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