Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2007

SECÇÃO: Opinião

A MINHA ADOLESCÊNCIA

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PARECE MENTIRA MAS É VERDADE

Cheguei a este mundo no dia 28 de Junho do ano de 1946 e tive a ventura de nascer no seio de uma família da classe pobre onde imperavam valores cívicos e religiosos que, desde cedo, me foram profundamente incutidos.
Apesar de ser uma criança calma era detentor de uma personalidade muito vincada e, quando havia alguma decisão a tomar nas brincadeiras com outras crianças da escola, nenhuma decidia sem me consultar, pois a minha opinião era determinante. Frequentei a escola Primária Antiga de Lameiros dos sete aos 11 anos de idade, concluindo a 4ªclasse com exame final para acesso ao liceu. Ainda hoje guardo recordações muito ternas das minhas professoras Benta e Olga que me ensinaram com toda a paciência do mundo as primeiras letras e me acompanharam nesta fase primária de aprendizagem, que é, como todos sabem, a pedra basilar do percurso escolar.
Morava numa quinta situada no lugar da Soalheira, freguesia de Refojos, concelho de Cabeceiras de Basto. Tinha por missão antes de ir para a escola dar alimentação a quatro animais bovinos, depois seguia com pouco agasalho, no período do Inverno, descalço e em jejum. Levava apenas uma pequena fatia de pão, a qual deitava numa tigela com leite que me davam na escola pelas 11h e naquele tempo já ficava bem alimentado.
Quando regressava da escola, imediatamente me juntava aos meus irmãos no trabalho do campo, porque estudar ou fazer os trabalhos da escola era só à noite à luz da candeia. Não havia tempo para brincar.
Ora, concluída a escola primária, não tive outro caminho senão trabalhar na dita quinta de sol a sol, dia após dia, sem qualquer descanso. E assim decorria a minha adolescência.
Contava já dezasseis anos de idade e ao domingo, depois de almoço, tinha autorização dos meus pais para sair de casa e dar um passeio, mas tinha de regressar novamente a casa com o sol ainda bem alto para dar alimentação aos animais.
Não era um jovem rebelde mas certo dia não cheguei a casa à hora habitual. A minha decisão falou mais alto e, apesar de saber que estava a dar um desgosto enorme aos meus pais, entendi estar a seguir o caminho certo. Quando cheguei, o meu pai que era uma jóia de homem sempre bem disposto e alegre, mostrou-me aparentemente que estava zangado, mas não disse uma palavra. A minha mãe também era boa pessoa mas era mais autoritária e deu-me umas bofetadas, que tinham sido mais se eu não tivesse fugido.
Aceitei essas bofetadas com toda a naturalidade do mundo, mas a partir desse dia comecei a chegar a casa à hora que entendesse, mas nunca passava o início da noite porque tinha muito respeito aos meus pais.
Numa das noitadas das festas do concelho, que decorrem de 20 a 30 de Setembro de cada ano, cheguei a casa às 6horas da manhã. O meu pai apercebeu-se que eu tinha chegado, levanta-se da cama e disse: “Vamos para a cerca cortar mato.” Foi um choque arrepiante que recebi, mas lá fomos para a missão por ele determinada.
Pelas 9horas da manhã a minha mãe dirigiu-se à cerca, a qual se situava próxima da nossa casa e chamou-nos, como se diz na gíria, para comer o caldo (sopa). Depois deste trabalho continuámos noutros trabalhos do campo durante todo o dia, os quais são árduos e cansativos, mas aprendi a produzir tudo o que a terra nos pode dar para a nossa alimentação.
Naquele tempo o trabalho do campo era saudável e dava muita alegria, mas posso afirmar que passei fome. A minha família era muito grande, éramos sete irmãos, sendo eu o mais novo do bando. A minha mãe não tinha que nos dar de comer. Quando podia comprar sardinhas, uma sardinha média era partida ao meio e dava para dois. Se essa sardinha fosse um pouco maior era dividida em três para dar para três pessoas.
Esta situação devia-se ao facto de que tudo o que se produzia no campo ser dividido em duas partes para o proprietário das terras, e uma só parte para quem produzia. Era uma autêntica escravatura. E eu mantive este sacrifício até completar 19 anos de idade.
Nesta altura disse ao meu pai que necessitava de ir para o Porto, com o objectivo de obter algum dinheiro para quando fosse chamado para o serviço militar ter uns tostões para visitar a família. O meu pai ouviu e manteve um silêncio absoluto e como sofria do coração, tristemente dei conta que ele mal respirava. Situação que me afectou psicologicamente, ficando com um peso enorme na minha consciência.
Fiquei pensativo durante duas semanas, mas certo dia, à noite, sentados à volta da lareira, ganhei coragem e em conversa formal disse ao meu pai: “Se eu não for agora ganhar algum dinheiro daqui a algum tempo tenho que ir para o serviço militar e não tenho dinheiro, e vocês também não têm para me dar.” O meu pai, com as lágrimas no rosto, respondeu: “ Vai à tua vida mas lembra-te que vamos ficar sozinhos com esta idade a trabalhar nos campos.” Quando me despedi dos meus pais foi o momento mais doloroso da minha vida. Parti com dor e saudade de um dia voltar, como aconteceu 15 meses depois.
No mês de Agosto de 1965, o meu irmão Edmundo, dois anos mais velho que eu, faleceu em Angola, quando cumpria o serviço militar. A minha mãe sempre foi dura nos sentimentos, mas quando me despedi dela e do meu pai para me apresentar no dia 17 de Abril de 1967 no Regimento de Infantaria n.º13 em Vila Real, o coração dela falou mais alto, e ela chorou e disse: “O teu irmão lá ficou e tu para lá vais.” O meu pai, tristonho, nem uma palavra conseguiu pronunciar.
Contra a fome e contra todos os trabalhos forçados a minha educação manteve-se inabalável e assim percorri este caminho até aos 20 anos de idade.
Escrevo este texto com um sentimento profundo, porque os meus pais já faleceram, dois dos meus irmãos também, que Deus os tenha em bom lugar, que por ironia do destino é o fim de todos nós.


Por: Manuel Sousa

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