Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2007

SECÇÃO: Opinião

A Festa da Senhora da Saúde

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Tocam os sinos na torre da Igreja…

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
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Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

António Lopes Ribeiro

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Hoje, dia 14 de Julho, véspera da Festa de Nª Srª da Saúde, ao encontrar este poema de António Lopes Ribeiro, pensei que não podia vir mais a propósito. É hoje que vai sair a procissão de velas da Senhora da Saúde, até ao nosso Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
Desde que me conheço sempre se realizou esta procissão.
E vêm-me à memória as vezes em que participei na procissão, com o Padre Barreto na altura arcipreste em Refojos.
Dou então comigo a pensar que as procissões já não se fazem com o mesmo sentimento e devoção de outrora. Verifica-se, isso sim, que há um decréscimo de pessoas, principalmente no que se refere aos adolescentes. Há como que um certo alheamento, um descrédito e principalmente algum comodismo!
Devo dizer em abono da verdade que algumas vezes dou por mim a falar com os meus botões:
– “Eu até ia à procissão, mas porque é muito longe para ir a pé até à Cruz do Muro e também muito a subir, ou tenho que levar o carro ou alguém tem que me lá levar”. Não é por mal, nem por falta de devoção e de fé, mas são as consequências do progresso que possibilita que quase toda a gente tenha carro, e ainda bem, mas nos torna um pouco “preguiçosos”.
Mas ainda continua a haver muitos “resistentes” que tomam parte nesta tão tradicional procissão, movidos certamente pela sua fé!
Quando eu era jovem era uma alegria irmos a pé, e já ficávamos satisfeitos por nos deixarem ir!
Mas como eu dizia, assisti desde pequenita a muitas procissões com o saudoso e querido Arcipreste Padre Barreto. Já vos falei algumas vezes dele em crónicas anteriores e, penso que ainda estará presente na vossa memória. Compreendo perfeitamente que há quarenta ou cinquenta anos era tudo muito diferente! Havia muito “rigor” religioso quer nos comportamentos das famílias, quer na frequência da Igreja, nos baptizados e nos matrimónios, quer na sociedade e até na influência da religião e na política da comunidade local.
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Quando me refiro ao rigor daqueles tempos, era mesmo rigor! O que o senhor Padre dissesse era mesmo para se cumprir! Mas eu até gostava de ir à procissão das velas e à procissão do dia da festa! E digo-vos, chorei algumas vezes por a minha mãe não me deixar ir de figurado na procissão da Senhora da Saúde e na da Festa do S. Miguel. O figurado era caro e como é bom de ver onde houvesse muitos filhos isso estava fora de questão! Como éramos muitos irmãos (nove) ia sempre um dos do meio ou um mais novo.
Um dia enchi-me de coragem e pedi ao senhor Arcipreste que me deixasse ir de figura. Resposta pronta:
-”Eu deixo-te ir mas vais vestida de diabo”!
Fiquei a olhar para ele, triste e decepcionada! Acho até que fiquei com um certo rancor dele. Ao dar-me aquela resposta era a mesma coisa que me dizer não! Porque nunca vi a figura do diabo ir em qualquer procissão!
Hoje, passados tantos anos penso, e que Deus me perdoe, que o Padre Barreto foi um pouco insensível aos apelos de uma criança. Mas tudo passa! E digo-vos que gostei de o conhecer! Afinal de contas também me baptizou!
Hoje vou fazer todos os possíveis para assistir e acompanhar a procissão até à Igreja. Lá vou eu comprar o copinho e a vela. Mas porque estou um “pouco” mais velha e também não estou mais leve, espero arranjar boleia até lá.
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E sabeis o que eu tenciono fazer? Vou ver se registo com a minha “digital” a capelinha e as procissões de hoje e de amanhã, com os andores, o figurado, a banda de música, a fanfarra dos nossos Bombeiros e, atrás, junto ao andor da Senhora, descalças algumas, as pessoas que têm promessas, e toda a envolvência que acompanha a procissão!
Quero que fique registado no papel parte daquele acto religioso que ainda se continua a realizar apesar dos tempos. Os anos passam, devemos continuar dentro do possível a realizar as tradições, quer sejam religiosas ou outras!
Como disse nunca fui “de figura” mas, alguns anos mais tarde, já casada, “obriguei” os meus filhos mais velhos a ir! Sempre foram contrariados. Inclusive tinha sempre que “negociar” com o meu filho Nelinho, que, diga-se de passagem, tinha sempre preparado um jeitinho para se aproveitar deste meu anseio. E lá conseguia que eles vestissem aqueles fatos. Claro que os registava com a fotografia da praxe. Hoje, ao olhar para as fotos, principalmente a do Nelinho vestido de soldado romano - que eu até achava que ele ficava bem de “anjinho” - com os cabelos postiços aos “cachuchos” que sabe-se lá por que cabeças andavam, alfinetes a espetá-lo e uma espada que servia para ele picar os que iam à sua frente. Era demais! Que o Senhor me perdoe mas dei boas gargalhadas escondida quando o via vestido daquela maneira. Se me risse à frente dele então podia ter a certeza que ele já não ia!
Adorava também o tradicional merendeiro que se levava e se comia perto de alguma fonte ou até nas leiras do Sr. António “Rolo”.
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Depois regressávamos de tarde quando acabava o leilão efectuado pelo conhecidíssimo Joaquim Castro, que trabalhava no armazém do Senhor Moura da Ponte de Pé. Não havia leilão onde ele não dissesse uma brincadeira! As pessoas entusiasmadas pelas palavras do senhor Joaquim até compravam muitas vezes sem saber exactamente se o que vinha dentro das cestas enfeitadas valia o dinheiro oferecido. Era quase como quem tira coelhos da cartola! Mas, valia a pena ouvi-lo!
Enfim, foram estas recordações, ao ler o poema de António Lopes Ribeiro, que me “obrigaram” a decidir que hoje eu tinha de ir à Procissão de Nossa Senhora da Saúde! Eu também tenho muita fé Nela. Espero que Ela cubra a todos com o seu manto protector e nos proteja da fome, da peste e da guerra!
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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