Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Região

FEIRA MEDIEVAL NO ARCO:
A HISTÓRIA É UMA IDEIA COM HUMANIDADE DENTRO

Decorreu, nos dias 8 e 9 de Junho, no Arco de Baúlhe, uma Feira Medieval, organizada pelo Agrupamento de Escolas sedeado nesta vila.

A Vereadora, Profª Stela Monteiro visitou o certame
A Vereadora, Profª Stela Monteiro visitou o certame
A iniciativa teve como palco a Rua do Arco e foi possível perceber, ao longo dos dois dias, que a Cultura e a Festa são conceitos formosamente compatíveis. Muita gente começou por estranhar a ideia, mas rapidamente se verificou que a Feira estava destinada a ser um sucesso. Houve muitos habitantes locais que a ela aderiram activamente, juntando-se às cerca de duas centenas de figurantes que por ali andaram, trajando à época: comerciantes, frades, cruzados, mendigos, leprosos, donzelas (do povo e da nobreza), juízes, guardas, estalajadeiros, viajantes, bruxas, bobos – um mundo variegado de população medieva!
Segundo apurámos, a iniciativa terá nascido no ano lectivo de 2005/2006, fruto de uma sugestão do professor Renato Silva, (então a leccionar na Escola E. B. 2, 3 do Arco), feita em sede de Departamento de Ciências Humanas e Sociais. No início do presente ano lectivo, o mesmo Departamento pegou na ideia e assumiu-a como projecto, desafiando a seguir todo o Agrupamento, que entusiasticamente aprovou e acarinhou as diversas propostas feitas. O projecto tornou-se, rapidamente, um desígnio de toda a comunidade educativa, envolvendo professores, alunos, auxiliares de acção educativa, pais e encarregados de educação, população arcoense em geral.
Durante meses, escolas e jardins de infância trabalharam para esta Feira. Houve acções de formação sobre o assunto; trocas de correspondência; negociações entre alunos e professores; conversas entre professores e pais; contactos entre Conselho Executivo e autarquia; diálogos de organizadores com comerciantes locais. Muitos obstáculos foram vencidos entretanto: desconfiança; indiferença; insuficiências económicas e logísticas…
Mas a 8 de Junho, quando foi lida a Carta de Foral da Feira, num pelourinho expressamente concebido e construído para o efeito, esqueceram-se as agruras, as dores, as vicissitudes menos felizes do percurso anterior ao sonho: ali se inaugurava uma obra que consubstancia a própria ideia de Escola e de Cultura.
Leitura da Carta da Feira
Leitura da Carta da Feira
A música ajudou a criar o ambiente. As roupas (coloridas, variadas, surpreendentes) idem. Mas contou ali, sobretudo, o entusiasmo que as gentes puseram na edificação do projecto e na sua feliz fruição. Importa dizer que não se tratou de uma iniciativa estática ou monótona. A Feira pressupõe vida – e assim foi: houve peças de teatro, momentos musicais, dança, poesia, tiro ao alvo, jogo da malha, viagens de burro ou de cavalo - e até, a terminar, uma extraordinária “Queimada Tradicional” (sob direcção do famoso Padre Fontes, de Vilar de Perdizes). Durante os dois dias, funcionaram tasquinhas diversas (com comida e bebida à disposição), bancas de artesanato e olaria, etc. A aquisição de produtos fazia-se através de moedas fabricadas propositadamente para a ocasião (desenhadas, cunhadas e cozidas na Escola-sede).
Realce-se, por ser de justiça, a colaboração que a iniciativa obteve da população local, sem o que o sucesso dificilmente teria sido o mesmo. Retivemos, na memória, expressões de agrado e de admiração em muitos visitantes (alguns vindos de Vila Real, de Mondim, do Porto), e o concomitante orgulho da população local.
Houve ainda este pormenor, digno de estudo por quem se dedica às questões do urbanismo: a Feira recentrou o Arco. É verdade. A (nem sempre lembrada) Rua do Arco voltou a ser o coração da vila, recuperando a sua proeminência histórica durante estes dois dias mágicos.
No final, quando tombava já a tarde de 9 de Junho, o discurso da Presidente do Conselho Executivo, Senhorinha Pires, foi de gratidão e de orgulho. Quem sabia do trabalho investido e das (tantas) dificuldades vencidas percebeu, no conteúdo das palavras e nas quase-lágrimas que lhe visitaram os olhos, a ideia fundamental de dever cumprido. A Presidente agradeceu a todos quantos tornaram possível o projecto, tendo uma palavra de especial apreço para a auxiliar de acção educativa, D. Rosa Maria, que assumiu um papel importantíssimo na criação de adereços e de guarda-roupa.
Por toda a vila, havia a grata sensação de que, nos dias 8 e 9 de Junho, o quotidiano fora visitado pela Graça e pela Festa que a Cultura pode ser. Uma espécie de milagre ocorreu no Arco. Aqui lhe damos, para o nomear, uma palavra delicada e bonita: Humanidade. E a tanta gente ouvimos, como num refrão: “Temos de repetir isto…”
A Escola é um espaço de Cultura, já se sabe. A maior parte dos estabelecimentos de ensino limita-se ao território da transmissão. Mas a Escola pode também ser promotora de Cultura. Cansa muito fazer algo diferente do habitual e a avaliação do esforço (e mérito) das coisas feitas nem sempre é imediata ou justa. Mas o Agrupamento do Arco de Baúlhe ousou e foi em frente. Porquê?
Respondemos à boleia do poeta Ramos Rosa: Porque “não se pode adiar o coração”!

JJC

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.