Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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LER OU NÃO LER - (Literatura ou Morte)

1. No dia 21 de Março, na formosa vila de Ribeira de Pena, nasceu um livro de poesia chamado “Inquietação de Barcos”. Foi apresentado por Daniel Abrunheiro (jornalista e escritor). Sobre a obra, ele disse (entre outras coisas) que se tratava de um livro com luz dentro. E rematou com uma hipérbole: “Experimentei fechar a luz do candeeiro e, durante toda a noite, o livro ficou a brilhar no escuro.”
2. A ideia de haver luz no livro agradou-me muito, confesso. Em primeiro lugar, porque sou o autor de “Inquietação de Barcos”. Depois, porque é assim mesmo que entendo a literatura e a própria noção de arte. Objectos com luz dentro. E gente que precisa de arte porque precisa de se iluminar - e de tornar menos noite a vida onde habitualmente reside.
3. Às obras literárias (à narrativa, ao drama, à poesia) vamos buscar o quê? Antes de mais, palavras. Modos de dizer suficientemente claros, suficientemente satisfatórios, suficientemente fiéis.
3.1. Narrativa, por exemplo. Às vezes, é preciso percorrer uma história inteira - para percebermos o exacto sentido de uma dor, de uma paixão, de uma esperança.
3.2. Poesia, por exemplo. Às vezes, é preciso dançar ao ritmo de versos, jogar o complexo jogo das metáforas, resistir ao embaraço dos símbolos – para inaugurarmos sentidos, quero dizer, para aumentarmos o alcance da linguagem humana.
3.3. Drama, por exemplo. Às vezes, é preciso viajarmos de personagem em personagem, no labirinto de palcos que são o mundo – para nos encontrarmos com a visão do dramaturgo, que talvez seja afinal também a nossa (ou não).
4. A leitura implica o investimento desse bem precioso chamada tempo. É quase sempre um prazer, mas é também, não poucas vezes, um sacrifício. E a cada instante é um desafio, um teste à nossa inteligência (e à nossa paciência).
5. Isto significa que a leitura é, digamos assim, subir a montanha de nós. Até ao cimo, se possível. Como aliás se passa com o conhecimento (e, no cume da metáfora, com o saber).
6. Durante muitos anos, fui enganado por vários docentes de Língua Portuguesa, que me ensinaram (sobre a leitura de obras literárias) que se tratava de descobrir o segredo do pensamento e das emoções dos senhores autores. Sei agora que tal é, para não dizer falso, muitíssimo incompleto.
6.1. Nas obras literárias (nas obras literárias que valem a pena), o que encontramos sobretudo é a substância essencial de que somos feitos. Os nossos sonhos. Os nossos medos. A nossa memória. O nosso futuro apetecido. A mortalidade. A imortalidade. O amor.
6.2. É por isso que menos nos importa, hoje, a circunstância - física, temporal, datada - em que um certo soneto de Camões foi concebido (quem seria a dama inspiradora? onde estariam os amantes no dia dessa dor feita poema? como reagiu aos versos a musa que os versos explicavam?). Luís morreu, a dama morreu. Vive só o soneto. E, no soneto, o poeta.
8.O que há de imortal em Luís de Camões está nesta possibilidade de, lendo o que escreveu, descobrirmos algo acerca de nós próprios, agora. Isto é: ideias, emoções, sentimentos. E palavras, claro. Palavras que dizem exactamente o que somos, sentimos, queremos, tememos. A literatura é feita de humanidade e de reconhecimento. Camões permanece porque o lemos e porque ele, parecendo que explica algo acerca de si mesmo, nos está explicando. Porque ele, enfim, somos nós.
9. Fala-se, de vez em quando, de escritores que foram assassinados por facções, governos, regimes. Lembro-me, entre tantos, do pobre Lorca. Mas há actualmente modos mais subtis e não menos violentos de matar um escritor: é não o ler.
10. Não há silêncio mais letal que este: não ler, não querer saber das vozes que aumentam a linguagem, enriquecem a língua, inauguram sentidos sobre a raça humana. Não ler quase nunca é coisa inócua: consubstancia a ignorância, a brutidade e a indiferença. É um programa perigoso, uma arma de destruição maciça.
11. Eu acredito que ler é contribuir para sobrevivência da humanidade.
12. George Steiner dizia tratar-se, acima de tudo, de um “acto de cortesia”, como receber alguém em nossa casa. Assim penso também. Um encontro com alguém ou algo (um autor, uma ideia, uma metáfora, um tempo, um lugar desconhecido) que pode salvar-nos da solidão. Salvar-nos do nada.
13. Em Cantanhede, entre outros amigos, conheci um homem chamado Abílio que era padre e era professor. Lia muito, sabia muito, escrevia muito. Esse homem morreu, há uns meses. (E, entretanto, morreu-me mais gente.)
14. Que tem a morte a ver com isto da literatura? Tem que é o contrário. A literatura, como o amor, é coisa de vivos. De vida. É em livros (lidos com olhos, inteligência e coração) que reencontro a essencial humanidade dos que partiram. Os livros choram por mim. Os livros dizem por mim o que não sei dizer por ser tão grande e doloroso e interdito.
15. Dedico este texto ao Abílio. (Dedico-o também à outra gente que, entretanto, me morreu.) Está dito. Está escrito. E eu estou neste texto, vivo, se alguém o ler. Desse modo brilhando, talvez, no escuro.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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