Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2007

SECÇÃO: Opinião

Cabeceiras de Basto Perdeu mais um Filho

A sua morte e todo o sofrimento pela qual passou foi de tal maneira violento que só agora consegui falar dele. Tudo a seu tempo e nunca é tarde para se partilhar com as nossas raízes o que nos vai na alma.
Em vida amou apaixonadamente a família e a natureza, agora brilha no céu.
No dia oito de Dezembro de mil novecentos e vinte e dois, nasceu em Painzela, Cabeceiras de Basto, Joaquim de Andrade Martins, Filho de Francisco de Andrade e de Maria Augusta Alves Martins.

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Amante da natureza escolheu para profissão ser Guarda Florestal. Profissão que desempenhou durante toda a sua vida com muita honra, amor e dedicação até ao dia em que se reformou já com setenta anos de idade e com a categoria profissional de Mestre Florestal.
No percurso da mesma passou pelas Administrações de Mondim de Basto, Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e por último da Trafaria de onde se reformou. Lutou e defendeu a natureza e tudo o que era belo. Deu o seu contributo na plantação de centenas e centenas de árvores e foi feliz subindo e descendo montes e vales, ao calor, ao frio, ao sol, à chuva e ao vento. O seu coração ficou imensas vezes destroçado quando em chamas via desaparecer os pinhais que amava como se fizessem parte de si.
Amou incondicionalmente a sua família.
Falava sempre com muito orgulho dos seus filhos e netos.
Amou sem dúvidas alguma os pinhais que viu crescer.
Amava a vida e gostava de viver.
Era respeitado e conhecido e conhecido em várias terras de Norte e Sul deste nosso pequenino Portugal.
Tinha orgulho em ser Português.
Defendia a Pátria e honrou a farda que vestiu.
Deixava tudo em defesa da Floresta.
Deu exemplos aos adultos e às crianças em tudo o que dizia respeito à natureza.
Honrou as bandeiras de Portugal e das Florestas, abraçando de corpo e alma os Serviços Florestais.
Foi amigo dos seus amigos.
Fez-se respeitar e respeitou de igual modo todos quantos se cruzaram na sua vida.
Deixou obra, deixou memórias, deixou saudade aos que tiveram aos que tiveram o privilégio de o conhecer.
Foi um exemplo vivo de força e de coragem em todo o percurso da sua vida e na doença.
Fechou-se um círculo.
Outros caminhos teria que percorrer, outras árvores teria que plantar, outra porta estava aberta à sua espera.
Alguém o esperava… Deus esperava-o. Deus chamou-o.
Fechou-se uma porta…abriu-se outra e o homem bom entrou numa outra Floresta no reino dos ceús. Nada é eterno e porque nada é eterno o eterno infinito esperava por ele.
Envolto num raio de luz, com o coração cheio de amor e sofrimento deixou a terra e silenciosamente partiu.
Partiu o homem mas deixou a mensagem, “planta mas nunca cortes uma árvore”.
Cumpriu-se a vontade de Deus.
Vestiu-se de luto o nosso coração.
Encheram-se de lágrimas os nossos olhos.
Deixaste-nos…
Deixou-nos no dia vinte e sete de Dezembro de 2006. Silenciosamente em três meses a doença que lhe foi diagnosticada tirou-lhe a vida poucos dias depois de ter completado a bonita idade de oitenta e quatro anos e envolto num sofrimento profundo.
Inteligente como sempre fora, lúcido e com uma paz de espírito enorme assim viveu os últimos dias da sua vida. Deus existe e esteve sempre com ele. Os anjos estiveram também presentes e tocaram certamente para este homem de grande fé lindas melodias, porque tendo sido também ele músico na sua juventude não tenho dúvida alguma de que assim foi e que todos juntos entraram no reino dos céus. À cabeceira da tua cama, vi-te partir meu pai, mas continuas sempre e para sempre vivo no meu coração. Morreu o corpo, mas não morreu o espírito do grande homem que havia em ti. Serás eternamente uma referência na nossa vida.
As nossas gerações vindouras vão continuar com muito orgulho a falar ao mundo de ti. Todos os dias farás parte das nossas vidas, mas no dia da árvore mais do que nunca certamente iremos recordar a alegria com que sempre vivas este dia. Obrigada por tudo o que nos transmitiste. Obrigada pelo Pai que sempre soubeste ser. Obrigada por tudo o que nos ensinaste. Obrigada por nos teres ensinado a respeitar as árvores e a Floresta. Obrigada por me teres transmitido a mensagem, que nem mesmo no Natal se deve cortar um pinheiro. Obrigada pelos teus ensinamentos. Perdeu-se um defensor da árvore. Perdeu-se um Cabeceirense. Perdeu-se um grande homem. Perdeu-se um bom amigo. Perdeu-se um marido. Perdeu-se um pai. Perdeu-se um avô mas ganhou-se uma estrela enorme no céu. Perdeu-se tudo e ganhou-se tudo. Seguindo os teus passos seremos humanos certamente melhores. Em meu nome, em nome da minha mãe, dos meus irmãos e de todos os teus netos aqui deixo com muito amor e saudade a nossa profunda e sentida homenagem.
Descansa na Paz Eterna do Senhor Querido Pai.
A obra estava feita.
A pedra estava polida.
Deus tinha-o chamado. Era necessário arrumar a casa.
Cabeceiras de Basto tinha ficado mais pobre. A Floresta tinha perdido um amigo, mas ele tinha de continuar a sua caminhada. Sentiu-se um cheiro a flores. O sol brilhava e a aragem gélida do mês de Dezembro mexia docemente com as folhas das árvores como que a dizerem-lhe adeus.
Era o dia vinte e oito de Dezembro de 2006. Silenciosamente caminhamos, familiares.
Padre e amigos todos reunidos, com o coração desfeito mas com a certeza de dever cumprido. Naquele momento só Deus sabe o que cada um de nós sentiu e assim depositamos com todo o nosso amor o teu corpo Paizinho no vale das certezas.

Tua filha.
Mariana da Silva Martins
12 de Abril de 2007

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