Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2007

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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ESPELHO

1. Um homem estranhamento quieto, deitado ao comprido, mãos plácidas tocando-se à altura do abdómen. Gente de negro. Gente cinzenta. O meu braço dorido de pêsames. Choro múrmuro ao fundo da capela.
2. Um homem gritando golo do sporting, ou assobiando à beleza feminina que, coisa mais linda, passa a caminho do mar.
3. Um homem fechado no interior da própria escuridão, indiferente ao sol e ao pó da vigília. A lenta marcha rumo ao interior da terra. O silêncio maior que os suspiros dos outros. Os outros sussurrando a deuses.
4. Um homem cantando Francisco José ou Tony de Matos, durante a barba matinal, muito convicto do charme e da pulsão insaciável do sangue. Um casanova doméstico, naquele aconchego da casa velha.
5. Um homem a caminho de espectro. O corvo (de edgar alan pöe) gritando nunca mais. A multidão espalhando-se para este, oeste, norte, sul. Isto é: a multidão desaparecendo para longe. O lugar do não esperar, logo a seguir ao lugar do desespero. O lugar da resignação, logo a seguir ao lugar do esquecimento.
6. Um homem beijando a criança, ensinando-lhe fintas e cruzamentos, oferecendo-lhe pastéis de nata e dinheiro para o cinema.
7. Um homem que, muito antes de morrer, nos explicou a sua morte: saindo da casa velha, deixando-nos órfãos de si na casa velha, substituindo a sua presença na casa velha pela memória de si na casa velha. Uma casa muito velha, portanto, e muitas vezes velha.
8. Um homem rápido, variado, colorido, luminoso de humor e de acreditar. Um homem orgulhoso do filho, que exibia escandalosamente em cada quotidiana esquina.
9. Tu não.
10. Tu sim.
11. Pai?
12. Pai.
Arco de Baúlhe, 3 semanas depois de nunca mais.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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