Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-7)
Ao chegar a casa, o Zé contou todo o sucedido à mãe, com os mais ínfimos detalhes, a partida da camioneta da carreira cheia de gente, a vistoria às camionetas de carga estacionadas no Campo do Sêco, e a grande confusão que reinava junto ao açude da Ponte de Pé, onde se tinha afogado um banhista. Enquanto o ouvia, a mãe preparava-lhe a sua habitual guloseima, que consistia numa pequena porção de feijões, tirados do pote do caldo que estava ao lume, temperados com um pingo de azeite e meia dúzia de areias de sal, e misturados com umas migalhas de pão de milho. O Zé apreciava, por demais, este simplicíssimo petisco. Aos feijões chamava-lhes “fófas”, quando tinha fome pedia à mãe que lhe desse “fófas”.

***

Partindo do centro do lugar de Chacim, por um caminho por onde apenas passam carros de bois, no sentido de Boadela, e depois de percorrido cerca de quilómetro e meio, entre silvas e giestas, encontra-se mais um daqueles particulares lugares chamados da ribeira, em que o aglomerado é constituído, muitas vezes, por uma única habitação. Este especialíssimo lugar chama-se Eirinha, e a habitação ali existente é a casa do caseiro que se encarrega do amanho da lavoura com o mesmo nome, cujo proprietário é um abastado lavrador de Chacim. O vizinho que fica mais próximo é o caseiro de outra propriedade, cuja habitação constitui a totalidade do aglomerado daquele outro lugar, que se chama Masseiras, e pertence à freguesia de Pedraça.
A casa da Eirinha fica num descampado com floresta por todo o lado. Os campos são em meia encosta até ao riacho, que desce desde as vertentes de Vilela, corre até à confluência com o rio Peio, em território de Pedraça, nas proximidades da Ponte de Pau, e se chama a ribeira de Currais. Junto à ribeira há duas vessadas, uma em cada margem, passando-se de um lado para o outro através de um pontilhão, por onde circulam pessoas a pé, gado e carros de bois.
Estava-se agora na parte final do ano de 1948, a segunda guerra mundial já tinha terminado havia mais de três anos, mas a crise, em particular no que respeitava a emprego, continuava a verificar-se com grande intensidade. O pai do Zé tinha um amigo, o Senhor Malvino, que o admirava, sobretudo pelo zelo com que ele granjeava as leiras que faziam parte da propriedade do Banido de Baixo. O Senhor Malvino era também amigo do proprietário da Eirinha, o abastado lavrador de Chacim, que nesta ocasião procurava um caseiro exactamente para a Eirinha que iria ficar a maninho por altura dos próximos “Santos”, uma vez que o residente iria abandonar as terras por falta de meios para as continuar a cultivar. Algo de enigmático!
O pai do Zé, a intervalos mais ou menos longos, ou seja, todo o tempo que lhe sobrava do cultivo das leiras, continuava a fazer umas boas semanas nos trabalhos de construção da Estrada Nacional 311, onde agora já ganhava dezoito escudos por dia. Este aumento de ordenado, relativamente ao que ganhava no início dos trabalhos, que era de catorze escudos, não ficou a dever-se a qualquer aumento geral de ordenados, que estes permaneciam praticamente inalterados. O aumento verificara-se devido à especial capacidade do nosso homem para executar tarefas de alguma especialização, tais como ajudar o técnico responsável pela determinação das cotas de nível, segurando e colocando as bandeirolas nos lugares certos, participando nos alinhamentos de bermas e valetas, entre outros. A frente de trabalhos encontrava-se já para além de Magusteiro, e o final da empreitada previa-se para breve. Foi com este enquadramento que o Senhor Malvino o convenceu a aceitar mudar-se para a Eirinha, onde poderia pensar uma junta de vacas, criar vitelos e colher milho, vinho e tudo o que se pode produzir numa boa lavoura em abundância quanto bastasse.
Nestes tempos, as mudanças de caseiros nas lavouras faziam-se por ocasião dos Santos, primeiros dias do mês de Novembro. Era um espectáculo que motivava alguma tristeza. Eram colunas de carros de bois carregados com mobílias pobres, alguns sacos de cereais, uma ou outra pipa de vinho, ou simplesmente água-pé, porque o vinho, quando colhido, era dividido em tês partes, sendo duas para o senhorio e apenas uma para o caseiro, era a regra do terço. Ao caseiro, que tinha suportado todo o trabalho, desde a poda das videiras até à vindima, a colheita das uvas, cabia-lhe apenas uma terça parte do vinho que tinha sido produzido. Passava-se o mesmo com o azeite. No que respeita a cereais como o milho, o centeio ou o feijão, estes por norma eram a meias, mas, na maioria dos casos era estipulado um valor certo que tinha que ser pago ao senhorio, como um determinado número de rasas, ou carros de milho, um determinado número de rasas de centeio, de feijão e até mesmo de batatas. Chamava-se a este método de remuneração do uso da terra pelos caseiros “as medidas”, granjear esta ou aquela lavoura a medidas. Acontecia, muito frequentemente, que os pobres dos caseiros não colhiam cereais que chegassem, tão pouco, para pagar as medidas ao senhorio, que também se chamava patrão, era o patrão das terras.

(continua-8)

Por: Torcato Santiago

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