Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-6)
Era uma tarde de domingo, o terceiro domingo do mês de Agosto de 1948, o Zé tinha feito três anos, no seio da família já não era chamado o menino. Meninos tinham passado a ser os dois irmãos gémeos, que completariam um ano dentro de dois meses. O Zé era o rapaz, a quem era recomendado que guardasse os meninos, e não os deixasse ir para junto do tanque, nem para junto da estrada, ou que se arriscassem a gatinhar monte abaixo em direcção ao rio. Podiam ser atropelados ou morrer afogados. Naquela tarde de domingo, do mês de Agosto de 1948, foi-lhe concedido dar mais um passeio, na companhia de tio Gonçalo, até ao “Mosteiro” para ver os automóveis, em especial a chegada e a partida da camioneta da carreira da Viação Automotora de Braga.
Como sempre, o tio Gonçalo levou-o a lanchar, ao café da Pensão do Meio. Tomaram cada um a sua pequena chávena de café com um pingo de leite, e comeram um pão de trigo, dividido em partes iguais, metade para cada um. O tio Gonçalo perguntou-lhe: «comias o pão todo, não comias Zé?», recebeu um franco aceno de cabeça, no sentido de cima para baixo e de baixo para cima. «Pois é…, mas o dinheiro não dá para mais», disse o tio Gonçalo, expressando uma profunda tristeza. Saíram do café para ver a chegada da camioneta, que vinha de Ribeira de Pena e seguiria para Braga, após uma paragem de cerca de um quarto de hora. Repararam, em particular o tio Gonçalo, que a rapariga de olhos verdes e cabelos louros não estava, naquele dia, ao serviço no café da pensão.
O escritório da Viação Automotora ficava no rés-do-chão do prédio imediatamente a seguir à Pensão Moderna, era na sua frente que paravam as camionetas que, depois de descreverem, com alguma dificuldade, a curva que era delimitada pela esquina daquela pensão e a estátua do Basto, vinham dos lados de Ribeira de Pena. Era um passatempo, para muitos dos cabeceirenses, assistir à chegada e à partida das camionetas da carreira. O tio Gonçalo, e o Zé, não deixariam passar o evento, aliás, este fora o principal objectivo da deslocação de ambos ao “mosteiro”.
Quando saíram do café, após terem tomado a sua chávena de café de cevada com um pingo de leite e metade de um pão de trigo, cada um, a camioneta já se encontrava estacionada em frente ao escritório, era uma Berliet, as pessoas que estavam para iniciar viagem já tinham subido, ia completa de passageiros, era costume, nas tardes de domingo, as carreiras esgotarem a sua lotação. Num dos bancos, mais ou menos a meio, do lado do passeio, ou seja do lado direito da camioneta, encontravam-se sentadas duas jovens, a que ia junto à janela era a rapariga de olhos verdes e cabelos louros, da Cancela, e que costumava servir os clientes no café da Pensão do Meio. À hora exacta para a partida, cinco menos um quarto, a camioneta arrancou, descendo o arruamento do lado sul da Praça da República na direcção da igreja, passou frente à Pensão do Fundo, curvou à esquerda e seguiu, passando entre o quiosque do Senhor Álvaro e as bombas de gasolina, e curvou à direita, vencendo o solavanco habitual que o desnível do entroncamento fazia naquele local, e seguiu em direcção ao largo da Boavista rumo a Braga. O tio Gonçalo comentou, com tristeza: «Para onde irá a Zeza, será que vai para Braga, irá para o Porto, ou, quem sabe, para Lisboa». Chamava-se Maria José, a rapariga de olhos verdes e cabelos louros, que trabalhara na pensão e era tratada pelos clientes, com carinho, por Zeza.
Após terem presenciado a partida da camioneta da carreira, quando eram já quase cinco e meia, iniciaram a viagem de regresso a casa, ao Banido de Baixo. Passaram pelo Campo do Sêco, onde observaram as duas camionetas de carga, a grande e a pequena, da empresa de transportes Manuel Marques, que se encontravam estacionadas, voltadas para a estrada, na pequena encosta que ficava entre a casa de madeira do proprietário e a padaria do Senhor Armindo Padeiro. O Zé fez questão de passar um bom par de minutos a observar aqueles dois “gandes popós”, apontando, e querendo mesmo por as mãos, em ambas as viaturas. Espreitou por baixo, espreitou por trás e espreitou também pela frente. Pediu ao tio que o levantasse, que o colocasse de pé sobre os seus ombros, para observar o interior das cabines. Questionou sobre os nomes de todos os botões, pistões e alavancas, que havia no painel de comandos e no habitáculo do “chauffeur”. O tio Gonçalo, com imensa paciência, explicou-lhe todos os pormenores, na exacta medida dos seus próprios conhecimentos.
Desceram em direcção à Ponte de Pé. Era um dia de Verão e estava sol quente. Passava um pouco das seis horas e o sol ainda ia alto. A ideia de ambos era presenciar de cima da ponte, junto ao gradeamento, os banhistas que saltavam do rochedo da margem esquerda coberto de marmeleiros, mesmo a jusante da ponte, e nadavam, passando por baixo do arco, rio acima, em direcção às margens das vessadas do Fojo. Naquele dia, e àquela hora, verificava-se um grande ajuntamento de pessoas, fortemente agitadas, em cima da ponte, e todas espreitando para o rio, no sentido descendente, como quem diz, no sentido da confluência com o Tâmega. Aquela gente ocupava toda a extensão do gradeamento da ponte, e não permitia que os dois pudessem observar nada do que se estava a passar. Havia pessoas que gritavam: «ai meu rico filho, ai meu rico filho …». Comentava-se que era o filho da D. Teresinha, o Abílio, que tinha dezasseis anos, e costumava mergulhar, saltando do parapeito das grades da ponte para o açude, e que, naquele fatídico dia, tinha falhado o lado mais apropriado para o salto, e tinha batido, com a cabeça, num dos penedos que se encontram a cerca de um metro da tona da água, na parte mais ao centro do leito do rio, no sítio do açude. Que tivera morte imediata e os bombeiros acabavam de o resgatar da água e jazia no quintal, por trás dos marmeleiros, coberto por um lençol branco, à espera que viessem as autoridades, para autorizar o seu levantamento e transporte para casa da família.
(continua-7)

Por: Torcato Santiago

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