Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-03-2007

SECÇÃO: Região

AINDA ME LEMBRO COMO SE FOSSE HOJE.
CABECEIRAS CHOROU . CHOROU LÁGRIMAS DE DOR E DE SAUDADE

Vítima de um ataque, faleceu subitamente no dia 16 de Janeiro de 1975, o arcipreste Padre Francisco Xavier de Almeida Barreto.
O extinto, que contava 59 anos de idade, gozava de muita simpatia e popularidade por força das suas inegáveis virtudes sacerdotais e humanas. Fazia já 28 anos que desempenhava as suas funções de arcipreste na paróquia de Refojos em Cabeceiras de Basto.
O cortejo fúnebre teve início às 10 h do dia 18, na residência paroquial, seguindo depois para a igreja matriz desta vila. Após cerimónias litúrgicas o cortejo seguiu para o cemitério de Molares, no concelho de Celorico de Basto, onde foi a enterrar.
A trágica notícia espalhou-se rapidamente de boca em boca e todos ficaram a saber, atónicos e perplexos, que UM HOMEM BOM tinha morrido. Ninguém previa tal acontecimento, pois o nosso arcipreste nunca deu a entender o mal que o mimava, e parecia mesmo gozar de boa saúde. E assim, inesperadamente, aquela doença vitimou-o em plena rotina diária.
Depois de cumprir os seus deveres matinais o arcipreste, antes de regressar a casa para almoçar, costumava passar pelo edifício dos correios, na Praça da República, a fim de depositar e levantar correspondência, e dar uma graça aos funcionários, em serviço que se dá, que naquele dia não chegou a concretizar-se, pois ali mesmo ficou, vítima de ataque súbito e mortal.
Numa tentativa desesperada de o salvar, levaram o corpo grande e inerte apressadamente ao hospital desta vila. Apesar de ter sido prontamente assistido, verificou-se que nada havia já a fazer. A sua hora chegara. Deus chamara-o para junto de si.
E foi um correr de gentes de todo o lado à residência paroquial para homenagear aquele HOMEM BOM. Por entre lágrimas e soluços rezavam-se orações, em turnos de pessoas que nunca o abandonaram. Era gente humilde, gente trabalhadora, homens engravatados e até mesmo Instituições com os seus estandartes. Crianças e adultos, homens e mulheres, todos foram levar-lhe uma saudade.
Chegado o dia do funeral, estava presente todo o clero do concelho e muito de outras bandas, encabeçado pelo Bispo auxiliar da diocese. Os bombeiros transportavam a urna, rodeados de crianças. Todos mostravam lágrimas de dor no rosto e tantos eram! Uma imensa presença humana como jamais nos fora dado a presenciar por estes lados.
Findas as impressionantes cerimónias religiosas na Igreja Matriz, celebradas por todo o Clero e presididas pelo prelado, numa homenagem ao sacerdote exemplar, chegava o momento do encerramento da urna, que se mostrou o momento mais doloroso e esmagador.
As crianças que ele tanto amava e acariciava ali estavam também, a despedir-se do seu protector e amigo. Gritos alucinantes de dor substituíam os cânticos litúrgicos antes entoados, acompanhados de lágrimas e dor constantes.
Finalmente a urna foi depositada na viatura dos bombeiros e o toque das sirenes mais nos comprimia o coração. Cerca de uma centena de automóveis e dois autocarros foram até Molares, no concelho de Celorico de Basto, onde, por ironia do destino, se situava a casa para onde o Arcipreste pretendia ir repousar depois de abandonar as suas funções de sacerdote. Ali viveu em criança e ali foi a sepultar.


ALGUMAS VIRTUDES INESQUECÍVEIS DO BOM ARCIPRESTE

Uma década antes de 1975, altura em que eu contava 19 anos de idade, pude concluir que este HOMEM BOM se dedicava com entusiasmo em transmitir a sua missão pastoral com o objectivo de unir cada vez mais todos os cristãos.
Na visita pascal que efectuava, anos após ano, percorria, a pé, quilómetros e quilómetros por caminhos e carreiros irregulares durante 3 longos dias de Páscoa festiva. As crianças, que o esperavam nas suas casas, quando ouviam a campainha, iam ao seu encontro, de alma cheia, com sorrisos e cânticos que demonstravam uma alegria persistente.
Assim que aparecia aquele homem alto, forte e sorridente, de uma educação esmerada, as crianças corriam para junto dele e rodeavam-no. Acompanho d’O Senhor, entrava nas casas fuziladas enfeitadas com flores onde todos os esperavam e com alegria lhes retribuíam louvores.

MORRE O HOMEM BOM, MORRE A TRADIÇÃO

Apesar do bom arcipreste ter deixado o caminho aberto para o percorrermos com alegria e união, este exemplo não foi seguido. Aqueles 3 longos dias de Páscoa foram transformados em 3 horas de Páscoa, que o povo da freguesia de Refojos recebeu por imposição e que vieram trazer descrença, tristeza e desunião não só das famílias mas também dos amigos. Os grupos pascais, antes administrados pelo pároco ou por homens da Igreja, são agora grupos, apelidados de “equipas pascais”, formados por fiéis e identificados apenas com uma faixa de tecido vermelho ou branco, colocada ao pescoço, não sendo o símbolo adequado à Festa religiosa que se festeja neste dia. Ora, o que diria nosso antigo arcipreste se visse a transformação e o modelo de Páscoa actualmente implantados na freguesia de Refojos? Só poderia referir três palavras: tudo está a acabar.
Assim sendo, solicito aos leitores que rezem uma oração em homenagem ao Arcipreste Padre Francisco Xavier de Almeida Barreto, que muitas saudades nos deixou. QUE ESTE NOSSO AMIGO CONTINUE NAS NOSSAS MENTES E QUE REPOUSE EM PAZ.

Manuel Teixeira de Sousa




© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.