Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-03-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-5)
Na verdade era uma cobra enorme, devia ter quase dois metros, tinha saído por um dos buracos da parede, tinha andado cerca de um metro, e estava a entrar noutro buraco. A mãe, que não tinha medo das cobras, desde que tivesse uma sachola por perto, depois de colocar o rapaz à distância, foi buscar uma sachola e, com um golpe certeiro, apanhando a cobra contra uma pedra da parede, traçou-a em duas. A parte do rabo saltou logo pelo buraco fora e contorceu-se pelo chão, durante cerca de meia hora, até se imobilizar definitivamente, sem que, durante algum tempo mais, mesmo a pontinha do rabo, continuasse a fazer pequenos movimentos para um lado e para o outro, e o Zé a presenciar de longe. A parte da cabeça continuou pendurada do buraco, onde ela entrava, durante alguns dias até que as formigas se encarregaram de a devorar. A parte do rabo saiu do buraco, mas a parte da cabeça não saiu, é que, como dizem, as cobras não são capazes de recuar. Só conseguem rastejar em frente.
Enquanto menino, o primeiro brinquedo que o Zé teve foi um carro de bois, em miniatura, é certo, mas um bom bocado acima daquilo que verdadeiramente se pode chamar de miniatura. Não foi comprado na feira do S. Miguel, nem em qualquer outro bazar de brinquedos para crianças. Este carro de bois foi construído pelo próprio pai com a finalidade de ele, o Zé, brincar com os irmãos gémeos e andar com eles os dois em cima do carro. O homem não dispunha de ferramentas adequadas. O melhor que tinha era um machado e um cutelo. O machado era para rachar lenha, e o cutelo era, entre outras coisas, para fazer a poda das vides, dos amieiros, dos choupos e dos carvalhos, por vezes das oliveiras. Para construir uma miniatura de um carro de bois precisava, pelo menos, de uma serra, de um trado, de uma enchó e de um martelo.
O carro de bois tem sido, ao longo da história, desde que os fenícios inventaram a roda, o meio de transporte por excelência. Nos anos cinquenta, do século vinte, ainda havia muito quem se dedicasse à actividade de transporte de mercadorias utilizando o carro de bois, chamavam-se, estes industriais de transportes, “os carreiros”. Em Cabeceiras havia o Jorge, que morava no Lugar do Charco, nas proximidades do Souto Longal. Transportava tudo. Quando o transporte era a granel, como areia, azeitona, ou milho em grão, usava os ladranhos no carro, que era puxado por uma junta de possantes e pachorrentos bois pretos da raça maronesa. Sempre que tinha uma pequena folga, não se descuidava de os chegar a comer na primeira berma que lhe estivesse à mão. Tratava de facto muito bem os seus bois, o Senhor Jorge do Charco.
As ferramentas de que o pai do Zé teve necessidade, para deitar mãos à obra de construção da sua miniatura de carro de bois, para brinquedo das crianças, foram conseguidas por empréstimo de um amigo que trabalhava de carpinteiro em obras como as minas da Borralha, ou a barragem da Venda Nova. Conseguiu uma serra, um trado, uma enchó e o martelo. São as quatro peças essenciais para que se possa executar qualquer trabalho de carpinteiro. Depois foi preciso os acessórios, que não era nada de especial, apenas alguns pregos e um pedacito de chapa. No que diz respeito à chapa, conseguiu extrai-la de uma lata velha que encontrou na berma da estrada, e os pregos logrou fabricá-los usando um bocado de arame, que cortou em pequenos segmentos, exactamente do tamanho de pregos, aguçando-os depois, com a ajuda do martelo, sobre a superfície de uma pequena barra de ferro, que encontrou escondida num dos buracos da parede exterior da casa.
Fazer uma miniatura de um carro de bois é uma pequena obra de arte. É pena que este não tenha sido preservado até aos dias de hoje. Seria uma verdadeira peça de museu. Para que todos possam apreciar e admirar, sempre que se deparem com um carro de bois em exposição, deixo aqui, com o detalhe que me é possível conseguir, a descrição daquilo que é um carro de bois, um meio de transporte ainda hoje utilizado em caminhos rurais, mas de grande circulação, em todo o mundo, até ao alvorecer dos veículos a motor, graças à descoberta do petróleo, e depois de todos os seus derivados. O carro de bois é essencialmente constituído por dois corpos: o chedeiro e as rodas. O chedeiro é uma plataforma de forma ogival, que se prolonga por uma peça onde os animais são atrelados, a cabeçalha; tem cinco furos de cada lado, onde são introduzidos os estadulhos, ou fueiros, que podem ser pequenos, de cerca de meio metro e se destinam a segurar os ladranhos; podem ser grandes de cerca de metro e meio e destinam-se a segurar cargas como lenha, madeira, ou sacaria. O outro corpo, as rodas, cada uma delas formada por três peças, o meão e duas cambas, e unidas entre si por um eixo, este, por sua vez, suporta o chedeiro. Há ainda dois pares de acessórios que se chamam as cantadoiras, estas, um par de cada lado, por baixo do chedeiro, unidas por duas tarraxas, fixam o eixo no seu devido lugar. Em descidas acentuadas, as tarraxas bem apertadas, funcionam como travão. Para uma combinação perfeita dos materiais, e para que o atrito seja menor, é conveniente que o eixo seja de madeira de freixo, e as cantadoiras sejam de madeira de giesta. Com estes materiais, os carros de bois fazem uma grande chiadeira, até se diz a propósito: «com eixo de freixo e cantadoiras de giesta toda a viagem é uma festa». Havia, porém, um senão, os carros de bois não podiam chiar enquanto circulavam nas estradas nacionais ou dentro das vilas. Para evitar tal contravenção, untava-se o eixo e as cantadoiras, na zona do atrito, com sabão. Era necessário, quando se circulava nas estradas nacionais ou no interior das vilas, levar um pedaço de sabão no bolso e, de espaço a espaço, mais ou menos a cada quilómetro percorrido, o carro começava a chiar. A jornada era interrompida, untava-se novamente o eixo e as tarraxas com sabão, e prosseguia-se viagem.

(continua-6)

Por: Torcato Santiago

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