Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2007

SECÇÃO: A nossa gente

Júlia Maria de Sousa Pereira
A maior produtora de tapeçaria regional

Desde muito nova que, imitando a sua mãe, se dedica aos trabalhos artesanais. Hoje, Júlia Pereira, de 34 anos, residente no Ribeiro do Arco, Cavez, é uma das maiores produtoras de tapeçaria da região.

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O produto já chega a alguns centros urbanos do norte, mas o seu desejo é expandir ainda mais o negócio para o que está a pensar em fazer um investimento maior, criando, inclusivamente, alguns postos de trabalho.

Para dar conta da sua actividade e dos sonhos que acalenta, Ecos de Basto foi ouvir esta “artista dos trapos” como mais um exemplo positivo do que pode ser uma boa opção do empreendedorismo e da inovação, a partir de uma profissão tradicional da nossa terra.

Ecos de Basto – O artesanato é para si uma profissão ou uma paixão?

Júlia Pereira – Produzir artesanato é para mim, antes de mais, um gosto. Ainda muito nova, com nove anos de idade, e já fiz, nessa altura, uma toalha de renda. A minha mãe guarda-a como recordação, apesar de lhe terem oferecido bastante dinheiro por ela. Tudo começou ao aprender em casa a tricotar. Aprendi também a bordar à mão e, mais tarde, em 1996, frequentei um curso chamado vestuário tradicional onde incluía bordados, promovido pela Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto e apoiado pelo Centro de Emprego ao longo de dois anos. No final subscrevi um projecto de criação do próprio emprego e instalei-me numa loja que possuo no Ribeiro do Arco, em Cavez, junto à EN206. Assim me mantive uns anos ligada aos bordados exercendo, naturalmente, uma profissão e, ao mesmo tempo, satisfazendo uma paixão.

Dos bordados para os trapos

E.B. – No seu projecto empresarial, para além das vendas que produtos está a fabricar neste momento?

J.P. – Já fiz muitos trabalhos bordados em colchas, toalhas, cortinas, lençóis, entre outras peças numa altura em que o negócio era favorável. Acontece, porém, que apareceram os chineses com os seus produtos muito mais baratos. Embora de qualidade inferior, com materiais e desenhos frágeis e feios, o que é certo é que os chineses estragaram o meu ramo de então. Mas nessa primeira fase vendia muitos artigos, particularmente aos viajantes que circulavam ao longo da estrada nacional que atravessa Cavez em direcção a Trás-os-Montes. Pessoas de Fafe, Guimarães, Vila do Conde, Porto e outras cidades paravam os seus automóveis para comprar as minhas obras. Entretanto, a concorrência dos chineses e a abertura da autoestrada, A-7, deixou-me enrascada. Não desisti, contudo, e, pelo contrário, procurei diversificar o negócio. Fui ver exposições, indaguei preços, contactei gente ligada ao têxtil e estudei quais os produtos que podiam ser mais vendáveis sem perder as características tradicionais e artesanais da nossa terra. Descobri então que a tapeçaria original, feita de trapos e tecidos nos teares domésticos das nossas tecedeiras espalhadas pelo concelho, poderia ser um potencial de interesse. E, felizmente, sinto que as coisas estão a correr bem.
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E.B. – Como está organizada a produção da sua empresa?

J.P. – Como disse atrás, a minha actividade principal de momento é da confecção de tapeçaria para o lar e outros objectos similares de decoração, também feitos com trapos tecidos e desenhados. Compro nas fábricas os farrapos mais adequados e distribuo depois por uma série de tecedeiras da nossa região o trabalho. Pago à peça ficando para mim as tarefas de aparar os fios, a decoração do artigo com elementos criados por mim, a embalagem e a comercialização. Vendo toda a produção por grosso a revendedores que fornecem as lojas e outros postos de venda. São confeccionados em vários modelos, cores e dimensões na ordem dos milhares por mês e não chegam para as encomendas, tal o apreço e a procura destes artigos artesanais.

Mais apoio ao artesanato

E.B. – Tem participado em feiras e exposições?
J.P. – Tenho participado em algumas exposições realizadas aqui na região, como agora aconteceu com a Festa da Orelheira e do Fumeiro, em Cabeceiras de Basto. Faço, também, certas feiras de localidades próximas, principalmente daquelas em que os seus habitantes têm interesse por estes artigos para o lar. Gostava de fazer Fafe, Guimarães, Famalicão, Santo Tirso e Amarante, mas é muito complicado obter lugar nessas feiras semanais.
E.B. – Considera que as actividades artesanais deveriam ser mais apoiadas?
J.P. – Com certeza que sim. É um facto que temos muito poucos apoios e não nos é prestada a atenção que certamente merecemos. E quando falo de apoios não me refiro a subsídios, mas antes a determinadas ajudas nos planos técnico, como estudos de viabilidade económica e circuitos de comercialização ou ainda criação de marcas próprias. Eu se tivesses quem me esclarecesse e me orientasse poderia ampliar esta pequena empresa familiar e criar, assim, mais riqueza e empregos.
Atalhamos os seus lamentos com a informação de que existe neste momento, na Câmara Municipal, um projecto de apoio às micro e pequenas empresas, designado por Basto – Investe, e que dá resposta pronta aos problemas colocados, respondendo Júlia Pereira que desconhecia a sua existência.

É preciso mais formação

E.B. – Cabeceiras de Basto teve em tempos muitos artesãos que foram, pouco a pouco desaparecendo. Julga ser ainda possível recuperar algumas das actividades por eles desenvolvidas?
J.P. – Na verdade, muitas das principais actividades artesanais das nossas terras já desapareceram e as que ainda sobrevivem não durarão muito tempo, caso não se faça qualquer coisa para alterar a situação. A culpa, para mim, tem a ver com o actual sistema de formação profissional. Os cursos relativos às áreas do artesanato são mal escolhidos e então, estamos sempre a ver cursos de bordados, mais bordados, um ou outro de culinária, arranjos florais, e que mais?! Onde estão os cursos, por exemplo, de cestaria, de tecelagem, de latoaria, de ferreiro e de marceneiro? Diz-me a minha experiência que, actualmente, todos os artigos ligados aos trabalhos artesanais têm enorme procura no mercado e são muito bem pagos. Há, pois, um potencial enorme de negócio neste sector do artesanato. E nós temos boas condições, temos ainda muitas pessoas que sabem fazer coisas bonitas e também temos muitos jovens com vontade de aprender, assim lhes sejam dadas as oportunidades.

Actividades tradicionais podem criar emprego

E.B. – Por razões sociais e económicas, os jovens têm-se afastado dos trabalhos artesanais e de certas profissões tradicionais. Que medidas sugeria para inverter este estado de coisas?
J.P. – É claro que, ao longo dos anos, essas profissões esgotaram-se e deixaram de dar resultado, face à industrialização e à expansão do consumo. Entretanto, as coisas estão a mudar e agora volta-se, de novo, a dar valor ás coisas feitas manualmente, à arte tradicional que é mais personalizada e exclusiva.
Por conseguinte, eu digo que há lugar à formação de profissões em vias de extinção que, para além de criarem emprego, poderiam contribuir para a melhoria da situação económica de muitas famílias do nosso meio.
E.B. – Qual é o cliente tipo que mais procura os seus produtos? E quais as peças que mais saída têm?
J.P. – Os clientes que mais me procuram são as pessoas da classe média que gostam de ter a sua casa bem decorada. A esmagadora maioria são senhoras que primam pelo bom gosto e que preferem a qualidade e a exclusividade dos produtos. Veja bem o interesse pelos nossos produtos a ponto de já ter clientes que trocaram a preferência pelos tapetes de Arraiolos pelos tapetes confeccionados na minha casa. Os meus tapetes são laváveis na máquina fincando bonitos à mesma, enquanto que os de Arraiolos se detioram, além disso têm menos duração e menos resistência. As peças com mais venda são os tapetes de quarto, carpetes de sala, de cozinhas, “halls” de entrada e mantas decorativas.

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