Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-4)
Todas as vezes que o tio Gonçalo levava o Zé à vila, e mercê de algumas economias que conseguia apurar, fruto de recados que fazia ou da venda de quaisquer produtos hortícolas, que ele próprio cultivava com tal finalidade, iam sempre lanchar, naquele tempo dizia-se merendar, à Pensão do Meio. Mandava vir um pão de trigo e duas pequenas chávenas de café de cevada com um pingo de leite. Cada um tomava a sua chávena de café de cevada com um pingo de leite, e o pão de trigo era dividido pelos dois, em partes escrupulosamente iguais.
Entretanto, a vinte e um de Outubro de 1947, quando o Zé tinha dois anos e três meses de idade, ocorreu o nascimento de mais dois irmãos, eram gémeos. O parto foi igualmente assistido pela Senhora Maria Chicarrana, da Freita. O primeiro dos gémeos a nascer, que viria a chamar-se Bernardo, era louro e de olhos claros; o segundo, que viria a chamar-se Maciel, era moreno e de olhos escuros. A Senhora Maria Chicarrana comentou:
- Se não tivessem saído da mesma barrigada atrever-me-ia a dizer que podiam muito bem não ser filhos do mesmo pai, mas assim, não há qualquer dúvida que o pai é o mesmo. Já assisti ao nascimento de centenas de crianças, bastantes deles gémeos, mas este é o primeiro caso em que os gémeos são totalmente diferentes, um é louro e o outro é moreno.
Na verdade, muito embora se trate de casos que acontecem com muita raridade, são perfeitamente naturais. Foi o próprio pai quem deu a explicação. Ele, que não sabia ler nem escrever, nem tinha sido chamado para o serviço militar, mas, antes de casar, tinha sido criado de servir na casa do fidalgo de Santo Antonino, o Senhor Tenente Gonçalo de Meireles, onde tinha aprendido bastante sobre a vida. E então, perante o espanto da parteira, disse:
- Olhe Senhora Maria, eu, se fosse um pacóvio como muitos que há por aí, levantaria aqui um grande caso de admiração, quiçá de suspeita, mas olhe, eu sei tudo sobre este tipo de ocorrências. Como sabe, eu fui criado do fidalgo de Santo Antonino, durante mais de três anos, e, para além de fazer a poda, plantar e regar a horta, pensar e tirar o leite às vacas turinas, também servia à mesa. Quando se serve à mesa, para além de ser ter o cuidado de que nada falte aos convidados, o bom profissional mantém-se junto, um pouco atrás, bem direito, como que em sentido, uma toalha devidamente dobrada sobre o antebraço esquerdo, e com o braço direito, formando um ângulo recto, por detrás das costas. Era assim que eu me mantinha quando, há uns seis ou sete anos, o Senhor Tenente Gonçalo de Meireles, cheio de orgulho por ter um sobrinho que acabara de se formar em medicina, o Senhor Dr. Francisco, ofereceu um banquete ao sobrinho e a todos os seus colegas de curso. Vieram todos de Coimbra, eram mais ou menos vinte e cinco, e, como é perfeitamente natural, falaram de coisas de médicos. Lembro-me perfeitamente que, a certo ponto da conversa, dissertavam sobre este exactíssimo problema de “gémeos falsos e gémeos verdadeiros”. Ouvi e fiquei a saber o seguinte: «quando um espermatozóide fecunda um óvulo subdividindo as células germinais, temos gémeos que nascem iguais, são os chamados gémeos verdadeiros; quando há dois espermatozóides que fecundam dois óvulos, nascem dois gémeos diferentes, são os chamados gémeos falsos. Não há qualquer dúvida de que estamos perante um caso em que houve dois espermatozóides que fecundaram dois óvulos diferentes, e aí temos dois gémeos falsos, um é louro e o outro é moreno, estou muito feliz por ter conseguido fazer dois gémeos falsos».
Desta vez o nosso homem não se descuidou quanto ao prazo para realizar o respectivo registo de nascimento junto da Conservatória. O Senhor Macedo felicitou-o por, em tão pequeno espaço de tempo, ter já uma prole de «três homens para a guerra». E logo gémeos, «são parecidos?» perguntou. «Não Senhor Macedo», respondeu o registante: «são falsos gémeos, um é louro de olhos claros e o outro é moreno e de olhos escuros». Aproveitou para iniciar a explicação que tinha dado à Senhora Maria Chicarrana, mas o Senhor Macedo atalhou dizendo: «eu sei do que se trata, e conheço muito bem o fenómeno genético que a tal conduz, resta-me dar-lhe os parabéns, uma vez que, para além de ter aumentado de uma maneira mais rápida do que é vulgar a sua prole familiar, acaba de ser protagonista num caso de alguma raridade».
Decorria o mês de Agosto de 1948, estava um dia muito quente de sol intenso de verão, na parte superior da leira, que ficava mesmo por baixo do talude da estrada, havia um tanque que era alimentado por pequenas escorrências que vinham da valeta do outro lado. Era uma dor de cabeça para a mãe que, agora atarefada com os dois filhos mais pequenos e com as lides da casa, temia que o Zé subisse as paredes do tanque e se afogasse. Contudo, ele ia andando e brincando na terra, por ali. A certo momento, naquele dia de Agosto de 1948, eram para aí umas três horas da tarde, ele parecia um pardalito encantado, apontando com a mão direita para a parede que ficava da parte de cima do tanque e suportava o talude da estrada, gritando: «mãe, mãe, aquilo cais é; mãe, mãe, aquilo cais é?» e cada vez aproximava mais o dedito indicador direito da parede. A mãe, logo que acomodou os dois irmãos, veio a correr, e qual não foi o seu espanto, agarrando o pequeno com as duas mãos e levando-o para longe dizendo: «foge meu filho, que isso é uma cobra tão grande!».
(continua-5)

Por: Torcato Santiago

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