Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(Continuação-3)
O Zé, com dois anos, estava atento ao movimento da estrada. A mãe preocupava-se que ele subisse até à via e pudesse ser atropelado, mais por qualquer cavalo que passasse a galope, do que por qualquer automóvel, já que, estes, na verdade, eram raríssimos. Certo dia, estando juntos, ele e a mãe, passou a furgoneta do pagador do empreiteiro que construía a estrada. O menino, atento, perguntou o que era aquilo que ia pela estrada adiante. A mãe respondeu-lhe que era a furgoneta das coroas, significando que transportava o homem que ia fazer os pagamentos aos operários que trabalhavam na construção da estrada nova. A partir daquele momento passou a estar ainda mais atento, identificava perfeitamente a furgoneta do pagador, e sempre que a avistava, a partir da curva dos Moinhos Novos, corria a chamar pela mãe, dizendo: «mãe, mãe, bem ali a fagoneta das coas».
O tio Gonçalo, irmão da mãe, tinha cerca de nove anos quando nasceu o José. Gostava muito do menino, era o seu primeiro sobrinho, e sempre que podia arranjar uma qualquer desculpa, para sair de casa, vinha ter com a irmã, para se encontrar com o pequeno, e levá-lo a passear, até ao mosteiro. Ir ao mosteiro significava ir à vila, mais concretamente à Praça da República e arredores. Era assim que as pessoas, de todo e qualquer sítio do concelho, se justificavam sempre que iam ou vinham, dependendo do ponto de partida, à vila. O principal motivo do passeio era mostrar ao pequeno os automóveis e as camionetas, com o que ele se entusiasmava muitíssimo.
Naquele tempo havia apenas dois ou três automóveis, eram os carros de praça do Ricardo e do Jaiminho da Benta, e outro de um particular que não se sabe bem quem era. No que respeita a camionetas, também havia três, duas eram do Senhor Manuel Ferrugem, uma grande, da marca AEC, designava-se por “mona” porque a cabine era avançada, ou recuada, dependendo a designação do gosto do observador, a outra, mais pequena, da marca Bedford, que não era “mona” porque tinha a cabine normal de acordo com os modelos da época. A terceira camioneta era a do Senhor Bragança, da marca Austin, de cabine também normal, e que fazia o transporte de mercadorias para os comerciantes do concelho, vindas de Fafe, que era o términos da linha do caminho-de-ferro, por onde circulavam todas as mercadorias oriundas dos mais diversos pontos do país e mesmo do estrangeiro.
Podia ver-se também uma camioneta de transporte de passageiros, era da empresa Viação Automotora de António de Magalhães & Companhia, Lda, de Braga, e fazia a carreira regular entre Braga e Ribeira de Pena, passava por Cabeceiras ao meio-dia quando vinha neste sentido, e voltava a passar às cinco menos um quarto da tarde quando se dirigia no sentido de regresso a Braga. Nesta cidade havia ligação para o Porto. A viagem demorava, em média, quatro a cinco horas entre Cabeceiras e a cidade do Porto. O Zé delirava com a apreciação dos automóveis e das camionetas, fossem as de carga, fossem as da carreira de transporte de passageiros. Aos automóveis chamava-lhes «quinhos popós» e às camionetas chamava-lhes «gandes popós». Sempre que avistava um qualquer logo palrava: «tio, tio quinho popó» ou «tio, tio gande popó». Fazia uma autêntica algazarra. O tio deliciava-se a ouvi-lo e exultava com a sua alegria.
Para quem precisasse de lanchar, havia três casas do ramo, que eram simultaneamente casas de pasto, pensão e café. Era a Pensão Moderna, que ficava na esquina, junto à ponte e à estátua do Basto, a Pensão do Meio, que ficava a meio da banda de prédios deste lado sul da Praça da República, e a Pensão do Fundo, que ficava no último prédio deste mesmo lado da Praça. Mais para baixo, para o lado da igreja, havia uns barracões onde funcionava uma oficina de serralharia e reparação de automóveis. Depois era o Lameiro da quinta do Mosteiro de Dentro.
O tio Gonçalo tinha agora onze anos, e acabara de fazer a quarta classe na escola de Alvite. O Zé ia fazer três anos, e já não usava o vestido tipo pequeno islamita. A mãe tinha-lhe mandado fazer, na costureira, a Irene, filha do Senhor Francisco Marceneiro, da Cruz do Muro, uns calções de cor azul e uma jaleca de cor bege, comprou-lhe também umas sapatilhas de tecido branco, tudo com o dinheiro realizado com a venda de dois frangos, de razoável porte, que com imenso zelo tinha criado com aquele objectivo. O rapaz parecia um boneco, e esta indumentária era motivo de alguma inveja do tio, que, muito embora de forma muito decente, andava um pouco mais mal vestido.
Havia uma jovem rapariguinha, também com onze ou doze anos de idade, de olhos verdes, cabelos louros, um pouquinho mais alta que o tio Gonçalo, e era da Cancela, da mãe dizia-se que fazia uns “jeitos”, o pai trabalhava a dias, aqui ou acolá, sempre que aparecia uma oferta de jorna. A moça tinha frequentado a escola de Alvite, com pouca regularidade, pelo que se ficara pela segunda classe, sabia ler ou escrever uma carta e pouco mais. Com doze anos, trabalhava algumas tardes, fazendo limpeza e servindo os clientes na Pensão do Meio.

(continua-4)

Por: Torcato Santiago

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