Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2007

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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CÃO

1. Uma das expressões mais recorrentes, nos estudos das ciências sociais, é aquela da “esperança média de vida”. É, presumo, um indicador seguro do estádio civilizacional de países, regiões, continentes.
2. Os valores desta esperança, sendo médios, dizem muito sobre a situação geral e pouco sobre cada um em particular. A estatística tem essa dimensão mentirosa (lembremo-nos da velha história dos dois frangos, que o sujeito A devora, não deixando nada para o sujeito B: estatisticamente, cada um comeu um frango).
3. O que me afligiu sempre, mais que tudo, nisto da “esperança média de vida”, foi o objectivo confronto que aqui se estatui do homem com a sua mortalidade. Vamos morrer, já se sabe. Mas conhecermos, com antecedência, o tempo que nos é dado viver – isso já me parece excessivo.
4. Dizem-nos, com rigor assente em estudos, percentagens, gráficos, o tempo que nos falta. A vida tem a forma de uma ampulheta. O nosso sangue desliza como a areia no funil, rumo ao fim. À morte.
5. Eu sei de um amigo que andou a combater a morte durante dois anos. A ironia está em que, quando lhe diagnosticaram a chaga terminal, já sabíamos que esperança média era a sua. Nestes caso, dois anos. A ciência acertou de novo.
6. Mas ele era muito mais de resistir que de desistir. Chegámos, à roda do amor que tínhamos por si, a iludir-nos, a crer que ele provaria aos sabichões que estavam enganados. Não estavam. Ele, enfim, despediu-se.
7. Um grande escritor que já trouxe a Arco de Baúlhe, Daniel Abrunheiro, escreveu algures que “o amor é cego; e a memória é o cão do cego”. Não me parece obrigatória esta (glosada) cegueira do amor. Mas acho deliciosa a ideia de a lembrança ser o cão fiel do amor.
8. Ouvi um dia Herman José, referindo-se ao pai (recentemente falecido), que não acreditava na imortalidade da alma, mas que os seres que amamos, mesmo após o fim, continuam a existir em nós, se os mantivermos na nossa memória.
9. É pela memória que devolvo à vida o meu amigo ora morto. Rio-me de novo com o seu jeito imprevisível e desconcertante, as suas respostas roucas, as suas indignações, os seus desejos, as suas ironias, o seu modo de dizer que havia um coisa qualquer que não poderia contar – e, depois, contá-la. Revisito mentalmente as nossas mensagens de telemóvel que atravessavam o oceano, versando saúde, futebol, programas de televisão, família, graças sobre mulheres ou política, meteorologia.
10. A memória é o meu cão do amor. E dura o tempo que eu durar. Tem uma esperança máxima de vida. Máxima.
11. Vai, Memória, busca!

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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