Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2007

SECÇÃO: A nossa gente

Maria de Fátima Magalhães Gomes
Uma taxista que gosta da profissão

Exercendo uma profissão que até há pouco era só reservada a homens, Maria de Fátima Magalhães Gomes “não dá parte de fraco” no domínio do volante do seu táxi, com praça na vila de Cabeceiras de Basto.
Casada, com um filho pequeno e residente em Arco de Baúlhe, esta taxista, de 27 anos de idade, ao princípio sentiu-se assustada por se ver “metida numa aventura” em que as mulheres estavam proibidas de entrar por tradição e, sobretudo, pelos riscos inerentes à vulnerabilidade de andar na estrada, de manhã à noite, a trabalhar com um carro de aluguer.
Depressa, porém, se sentiu atraída pela condução e pelo ambiente especial que caracteriza este modo de vida, a tal ponto que hoje já não passa sem se instalar no lugar da praça que lhe está reservado e de contactar com os colegas que, aliás, a aceitaram de “braços abertos”.

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Nesta rubrica procuramos fazer um retrato, o mais aproximado possível, da sua actividade, a da forma como a exerce e a sente.

Uma opção corajosa

Ecos de Basto – Em que circunstâncias enveredou pela profissão de taxista?
Maria de Fátima Gomes – Olhe! Na verdade, nunca pensei ser taxista. Sonhei com muitas outras profissões e trabalhos mas nunca me tinha visto na pele de motorista de carro de aluguer. Tenho o 12º ano completo e tentei vários empregos, mas não consegui qualquer lugar. Entretanto, vai para 2 anos, o meu marido comprou um lugar na praça de táxis de Cabeceiras de Basto e a respectiva licença. Com o emprego assegurado de instrutor de condução de automóveis, o meu marido e eu conversamos longamente sobre o que era melhor para a nossa vida. Foi nesse momento que me enchi de coragem e decidi dizendo-lhe; “não, tu não deixas o emprego, quem vai tomar conta do táxi sou eu”. E cá estou, sem que, até agora me tenha arrependido.
E.B. – O trabalho que desenvolve traz-lhe os proveitos que deseja?
M.F.G. – No início julguei que esta actividade era mais lucrativa. Mas, com o tempo, fui percebendo que nem por isso. Com a evolução a que temos assistido ao longo dos anos é manifesta a crise neste sector. O movimento é reduzido devido à escassa procura dos táxis, situação que se deve a toda a gente ter carro, aos transportes colectivos que percorrem quase todas as localidades e ainda por cima, aos preços elevados da “bandeirada”. Além do mais, a concorrência é muito grande e, muitas vezes, desleal e irregular protagonizada por certos colegas de outras freguesias do concelho. Chegam ao cúmulo de estacionarem na vila de Cabeceiras de Basto para fazerem os fretes que nos pertenciam com preços mais baixos.
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Bem aceite pelos colegas

E.B. – Lidar com os colegas, todos eles homens, traz-lhe alguma complicação especial? Foi bem aceite e considera-se bem tratada por eles?
M.F.G. – De maneira alguma. Não tenho complexos desse tipo e lido muito bem com todos os meus colegas de profissão, que respeito e de quem sou amiga. Têm sido simpáticos comigo e tratam-me bem. Até acho que me protegem e apoiam demasiado, talvez por sentirem que, como mulher, possa, neste ou naquele momento, estar mais fragilizada. Há uma boa camaradagem e uma excelente relação de respeito mútuo que nos leva a perdoar um ou outro desatino pontual. Eu diria que os meus colegas já não podem passar sem mim.
E.B. – Que género de clientes é que mais a procuram?
M.F.G. – Não tenho notado que alguém me dê preferência especial ou escolha outro colega só porque sou mulher. Por isso, todos os clientes que sirvo são todos aqueles que chamam um táxi independentemente de quem o vai a conduzir. Apesar disso há sempre uma ou outra pessoa que me diz que é bom andar comigo ou que me encorajam. Uma outra particularidade é a de que, quando transporto senhoras, elas preferem o lugar da frente por se sentirem mais à vontade comigo.
E.B. – É perigosa a profissão de taxista?
M.F.G. – Não tenho razão de queixa para dizer que a profissão é perigosa no nosso meio. Até agora só tive um cliente que tentou faltar-me ao respeito, mas logo resolvi tudo nas calmas cortando o mal pela raiz. É evidente que estamos sujeitos a um assalto, ou a uma agressão, mas isso pode acontecer a qualquer comerciante ou a outro profissional, até mesmo na rua. Possso dizer-lhe que não tenho grande receio, até porque a maioria das pessoas que me procuram são conhecidas e residentes nas nossas terras.

Sem medo de andar na estrada

E.B. – Usa pistola para se defender?
M.F.G. – Não, não uso qualquer arma de defesa, nem sequer gosto de pistolas. Já disse que não tenho medo e se tiver que enfrentar alguém que contem comigo.
E.B. – Qual a corrida ou viagem de serviço mais distante que já fez desde que é taxista?
M.F.G. – O frete mais distante que fiz até hoje foi a Xinzio de Lima, em Espanha. De resto, a maior força de trabalho é aqui à volta das localidades da nossa região e também de Salto e Fafe.
E.B. – As condições para o exercício da sua profissão são boas em Cabeceiras de Basto?
M.F.G. – As condições que temos na praça que me está destinada são boas, apenas nos falta um telefone fixo geral. Há, também, uma grande necessidade de podermos aceder a um outro local de estacionamento na vila como alternativa à captação de clientes. Já fizemos uma proposta nesse sentido à Câmara Municipal para podermos aparcar próximo do Mercado Municipal, mas até agora nada foi resolvido.

Uma mulher sensível

E.B. – Uma mulher taxista é diferente de um homem taxista?
M.F.G. – Não vejo grandes diferenças. Como disse adaptei-me bem e até gosto muito de conduzir o que não acontecia antes. Talvez a diferença esteja na sensibilidade mais apurada em relação à família e, principalmente, quando se tem um filho de tenra idade. Por vezes, sinto saudades dele e apetece-me ir para casa para estar perto de si. Em tudo o resto não há diferença entre uma mulher taxista e um homem taxista.
E.B. – Que perspectivas tem quanto ao futuro?
M.F.G. – As perspectivas futuras vão no sentido de manter esta minha actividade, melhorando, se for possível, a minha prestação para obter melhores resultados . Não me estou a ver noutro trabalho que me realize, se bem que quando estudava queria ser enfermeira e, mais tarde, tratadora de idosos, mas nem uma coisa nem outra concretizei. Vou continuar taxista, profissão onde me sinto bem e de que gosto cada vez mais.

Os jovens têm que ser mais empreendedores

E.B. – Como vê o futuro dos jovens, partindo de uma situação de crise e de falta de emprego?
M.F.G. – Penso que os jovens merecem e têm direito a todos os apoios possíveis. Mas há
também uma grande falta de empenho e de querer da grande maioria deles ao não procurar as melhores condições ou ao rejeitarem determinados trabalhos, por razões de estatuto social ou de mero comodismo. As pessoas deviam esforçar-se mais por trabalhar e não estarem à espera de alguém que lhe venha trazer a casa o emprego ou o subsídio. Vivi com os meus pais durante alguns anos em França e lá via como as pessoas se lançavam à procura das melhores condições de vida. Aqui estamos sempre à espera que seja algum amigo a resolver o nosso problema. Se queremos ter as coisas temos que lutar por elas, foi este o princípio básico da educação que os meus pais me deram e com o qual não me tenho dado mal.



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