Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-2)
Fosse como fosse, as crianças nasciam e viviam sem problemas de maior. Não se sabe quanto media o rapaz, assim como não se sabe quanto pesava. Também não há fotografias da sua meninice. Sabe-se que ficou a chamar-se José, pois foi baptizado e registado, tudo como mandam as leis e os sacramentos da Santa Madre Igreja. O seu padrinho foi o avô paterno, que também se chamava José, e a madrinha foi uma tia materna, de seu nome Glória de Jesus.
No que respeita ao registo, o pobre do chefe de família teve logo um contratempo. Quando se dirigiu à Conservatória do Registo Civil, foi surpreendido com a notícia de que teria que pagar uma multa de cinco escudos, pois dispunha de trinta dias após o nascimento, que era o prazo legal, para registar a criança, e naquela data já tinham passado quarenta e três dias. Titubeante, disse que não sabia, e que para pagar os cinco escudos, para além dos custos normais, não teria dinheiro. O Senhor Macedo, muito compreensivo, disse-lhe que ia fazer todos os possíveis para que a multa fosse reduzida ao mínimo. Afinal de contas, ele estava ali de livre e espontânea vontade, para efectuar o registo, e ainda não tinham passado mais de quinze dias para além do prazo normal. Fixou-lhe a multa em dois escudos e cinquenta centavos, também se dizia cinco coroas, ou vinte e cinco tostões, valor que, apesar de tudo, equivalia ao preço de uma dúzia de ovos, que o jovem casal teria que ir vender, ao Campo do Sêco, na feira do primeiro dia da semana seguinte.
Todos os dias, à noite, quando as portas já se encontravam fechadas, para que não entrasse frio, e depois de ter aquecido a água num pote de ferro, com três pernas, ao lume da lareira, a mãe dava-lhe o banho diário, numa bacia grande de barro, também chamada alguidar. No decurso da esfrega do corpo franzino e macio, com um pano branco de linho, a mãe dava-lhe a beber água do banho com a concha da mão, dizendo: «auguinha do cu lavado por mor do mau olhado». Era uma mesinha que todas as beatas recomendavam às mães que tinham crianças em idade de serem lavadas numa bacia de barro.
O pequeno Zé nunca teve qualquer fatinho azul de bebé. Quando começou a caminhar, ou mesmo antes, ainda que fosse levado ao colo da mãe, mas já tinha deixado o agasalho das baetas, usava um vestido comprido, um pouco semelhante às vestes de um pequeno islamita. Era com esta especialíssima indumentária vestida, que a mãe o levava ao colo, até à vila, e aguentava longas horas na «bicha da fome». Assim era designada a fila que a maior parte das pessoas, em particular as menos favorecidas, formava em frente da porta que ficava ao lado do posto da GNR, bem próximo da torre sineira da Igreja de S. Miguel de Refojos. A segunda guerra mundial tinha terminado havia pouco tempo, mas, mantinham-se bem vivas, as suas sequelas, e uma delas era o racionamento de quase tudo o que era bens de primeira necessidade, muito em particular o milho, o azeite, talvez o açúcar e o sal, entre muitos outros. A fila destinava-se à distribuição de senhas, que depois permitiam o levantamento dos respectivos bens a que cada um tinha direito A entidade que geria a distribuição, tanto das senhas primeiro, como dos bens depois, chamava-se a «reguladora».
Quando o Zé tinha pouco mais de um ano de idade, corria o ano de 1946, e a mãe carregava com ele ao colo para a «bicha da fome», era responsável pela «reguladora» um sujeito da Quinta da Mata, demasiadamente severo e mal humorado, que berrava com as pobres das mulheres que ansiavam pela vez da sua senha, dizendo-lhes: «lá para trás». O Zé usava o seu vestido tipo pequeno islamita, e tinha cabelos encaracolados de cor entre o louro e o castanho. As mulheres da fila diziam: «que lindo menino!». Mas era muito irrequieto, quando estava ao colo queria ir para o chão, quando estava no chão queria subir para o colo, sempre que estava ao colo, ora puxava os cabelos da mulher da frente, ora se voltava para trás e puxava os cabelos da mulher de trás. Não escapava sem que uma ou outra reclamasse: «que diabo de rapaz tão desinquieto, se fosse meu botava-o abaixo da ponte quando passasse pela Ponte de Pé». A mãe respondia: «ora essa, ia agora botar o meu rico menino ao rio, abaixo da ponte, vire para lá essa boca».
O pai do Zé, para além de tratar do cultivo das leiras, que formavam a propriedade da pequena casa da margem da estrada, fazendo poda, semeando milho, e outros trabalhos agrícolas, fazia longas incursões nos trabalhos de construção do novo lanço da Estrada Nacional 311, que prosseguia nas proximidades de Magusteiro, onde ganhava, como operário, o salário diário de treze escudos. Ia para o trabalho a pé, partindo de manhã cedo, o trajecto levava cerca de uma hora. Regressava pela tardinha, quase escuro, depois de ter andado mais uma hora a pé, com os socos enfiados na ponta de um pau, às costas. Por ali muito raramente passava qualquer veículo, fosse automóvel ou camioneta. Também havia muitíssimo poucos naquele tempo. Havia, porém, um que passava todos os fins-de-semana, ao sábado, a meio da tarde. Era uma furgoneta do empreiteiro que construía a estrada, e transportava o funcionário que fazia os pagamentos. Chamava-se o pagador.

Por Torcato Santiago

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.