Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA (1)
PEDAÇOS DE VIDA

Cerca de duzentos metros antes da Ponte Nova, a meio da pequena recta que antecede a curva do barro, para quem vai no sentido de Riodouro, pela Estrada Nacional 311, fica, do lado esquerdo, um sítio chamado Banido de Baixo. É um lugar constituído apenas por duas habitações, uma fica junto ao rio, é a casa do moleiro, para onde se desce, por um caminho estreito e de forte inclinação, em que apenas passam pessoas, a pé, e os burros, com os foles de milho, ou de farinha sobre o dorso. Esta habitação, a do moleiro, é formada por três edifícios, o maior, que se situa mais do lado de cima, é uma casa composta por rés-do-chão, onde ficam os burros e a adega, e o primeiro andar, a morada do moleiro. Depois há uma segunda, abaixo de primeira, que é um dos moinhos, com quatro mós, movidas a jacto de água, que é descarregada a partir de depósitos que são alimentados por uma caudalosa levada, que vem desde o açude do rio, e passa pela parte superior de toda a extensão de uma verdejante vessada. Tem uma quinta mó, que é movida através da engrenagem de uma azenha, colocada no topo norte do moinho. O terceiro edifício é outro moinho, mais pequeno, tem apenas duas mós, que são movidas pela água que cai do moinho maior, que fica do lado de cima. Para este último, desce-se por um lanço de escadas, encravadas entre a respectiva parede e o talude que fica a jusante. Fica mesmo junto ao rio, e é frequentemente inundado, sempre que há uma pequena cheia. O moleiro, durante o Inverno, raramente o deixa a funcionar de noite, muito especialmente em tempo de chuva abundante.
A outra habitação, deste lugar do Banido de Baixo, fica mais próxima da estrada, também do lado esquerdo para quem vai no sentido de Riodouro, e para onde se desce, por uma pequena calçada, com uns vinte ou trinta metros de extensão. É uma pequena casa, com uma espécie de meia cave, onde pernoita um porco, que de dia passeia por um pequeno quinteiro, e um rés-do-chão, com uma cozinha térrea, quer dizer com o chão em terra, um sobrado, onde cabe uma cama, duas mesinhas de cabeceira, uma caixa e duas cadeiras. Tem ainda uma pequena varanda, protegida do quinteiro com ripas de pinheiro, e um minúsculo quartinho na extremidade sul. O acesso à varanda é feito pelo exterior, do lado norte, vindo da porta da cozinha, subindo-se três pequenos degraus de pedra. Ao lado esquerdo fica o cancelo, que dá acesso ao quinteiro por onde se passa para chegar ao dormitório do porco, que divide o seu espaço com um minúsculo compartimento, limitado por quatro toscas tábuas, onde está colocado, sobre dois barrotes de madeira, um barril, também chamado meia pipa, de cerca de duzentos e cinquenta litros, com algum vinho.
Este lugar, do Banido de Baixo, é um sítio muito sombrio, fica na encosta do monte chamado Monte da Seara, na vertente norte poente, onde, de Inverno, quase nunca chega o sol. Este, no seu movimento aparente, passa, muito baixo, sobre o lado da Cruz do Muro, e ali, no Banido de Baixo, a geada acumula-se durante dias, até semanas, sem derreter. Os moradores são obrigados a passar a maior parte do tempo junto da lareira, a apanhar fumo produzido pela combustão de lenha pouco seca e por vezes mesmo húmida de molhada.
Corria o ano de 1945, o mundo inteiro estava em guerra, e construía-se o prolongamento da Estrada Nacional 311, entre a Ponte Nova e Magusteiro. Nesta altura, a frente de trabalhos, localizava-se no lugar de Teixogueiras, onde trabalhavam, de estrelas a estrelas, quando o tempo era de Inverno e de sol a sol quando o tempo era de verão, cerca de duzentos homens. Procedia-se ao rompimento do lanço em local que era todo de granito. A pedra, retirada da frente de trabalhos, era transportada em vagonetas que circulavam sobre carris, como pequenos comboios, puxadas e empurradas por homens, o destino era as margens da ribeira da Urtigueira, que corre no fundo de um abrupto desfiladeiro, vinda da respectiva nascente, que se localiza nas proximidades dos Moinhos do Rei. Ali era trabalhada, por artistas, pedreiros e canteiros, que a transformavam em perpianho, e depois colocada na estrutura da ponte com o mesmo nome da ribeira, a Ponte da Urtigueira, que se erguia ao longo de três arcos de razoável altura, era a maior obra de arte de todo o lanço de estrada em construção, e destinava-se a fazer com que a estrada vencesse o desfiladeiro, e passasse da área do lugar de Eiró para a área do lugar de Teixogueiras.
As pessoas, de todos os lugares que passariam a ser servidos pela nova estrada, mostravam-se extremamente entusiasmadas e satisfeitas, ao ponto de criarem uma canção dedicada à sua construção. A quadra principal era a seguinte:

Estrada nova, estrada nova;
Começada em Janeiro;
Tem início na Ponte Nova;
E termina em Magusteiro.

Na pequena casa da margem da estrada, do lugar do banido, vivia um jovem casal, o marido tinha vinte e quatro anos e a mulher tinha vinte e três. Tiveram naquele ano, a vinte e cinco de Julho, o seu primeiro filho, um rapaz, o parto, como a generalidade dos partos, decorreu na humilde casa de habitação, recorrendo-se à parteira do tempo, a Senhora Maria Chicarrana, que era, nada mais, nada menos, do que uma simples curiosa na matéria, e morava no lugar da Freita.
(continua-2)

Por: Torcato Santiago

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