Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Luís António Machado Nogueira

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Um artesão da nova vaga

Casado, de 36 anos de idade e a residir provisoriamente em Pedraça, Luís Nogueira é um jovem cabeceirense que acaba de se revelar como um artesão de grandes qualidades.
Dedica os seus tempo livres à confecção de miniaturas de utensílios e objectos outrora usados no campo, como sejam os carros de bois, os espigueiros, preguiceiros, arados, dobadouras, sarilhos, louceiros, mosquiteiros, maceiras, ancinhos, malhos, etc.
Motorista desempregado, a frequentar um curso de formação noutra área, no âmbito do IEFP, descobriu há pouco, a sua veia artística que já mostrara ser de muito talento na disciplina de trabalhos oficinais da escola.
Ecos de Basto foi ao seu encontro para registar a história de vida deste homem que faz um esforço grande para sustentar o lar onde coabitam a esposa e duas filhas pequenas.

Uma paixão antiga

Ecos de Basto – Como começou a sua actividade de artesão?
Luís Nogueira – Este meu gosto de fazer trabalhos manuais vem já dos tempos de infância.
Fiz a escola primária em Santa Senhorinha de Basto e depois frequentei o Ciclo Preparatório onde era um dos melhores alunos da disciplina oficinal. Não quis prosseguir os estudos, pelo que tirei a carta de condução e emigrei para Lisboa cidade onde trabalhei numa empresa como motorista. Mais tarde fui para a tropa finda a qual regressei à terra. Fui motorista de camiões até 2003 altura em que fiquei desempregado. Com mais tempo livre e agora mais dedicado às coisas de casa lancei mão da ideia de construir peças representando os móveis usados nas casas dos lavradores e os apetrechos agrícolas tradicionais mais conhecidos na região.
E.B. – Porquê a opção de fazer trabalhos em madeira e quase todos ligados ao mundo rural?
L.N. – Bem! A madeira é um material da nossa região, sobretudo o pinho, e mais fácil de trabalhar. Tenho uma pequena oficina nos fundos da minha casa e é ali que executo os modelos mais usados na actividade da agricultura que estão em desuso. Faço desde os móveis da cozinha, apeiros usados no gado, dobadouras do linho, teares, etc.etc.
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Trata-se da escolha de um conjunto de peças que simbolizam a agricultura mais genuína das nossas gentes e das tradições das nossas terras.

Recriação de modelos rústicos

E.B. – A recriação de peças rústicas, muitas delas já desaparecidas, poderá constituir um bom negócio e também uma fonte de divulgação da nossa cultura regional?
L.N. – Quanto à divulgação da nossa cultura, acredito que o meu trabalho atinge esse objectivo. Já não direi o mesmo sobre se é um bom negócio. Pelo menos por agora só tenho ganho para as despesas, apesar do interesse que têm despertado os meus trabalho. Os objectos que produzo custam desde 1 euro e vão até cerca de 10 euros em geral. A convite da Câmara Municipal expus os meus artigos na última Agro-Basto e na Festa do Fumeiro, os quais despertaram a atenção, especialmente dos forasteiros que gostam de levar recordações deste género.
E.B. – Sendo objectos em miniatura a exigir portanto, um trabalho de minúcia e de paciência muito atento, como é que consegue produzir em poucos dias grande quantidade de modelos?
L.N. – Não tenho grandes dificuldades na execução dos trabalhos. A maior exigência nesta arte é a paciência e a concentração. Preparo primeiro as madeiras, secciono-as, corto-as e desenho-as à medida e depois é só usar o prego e a cola dando, assim, forma ao objecto. Há peças que levam mais tempo a fazer e outras não, depende do modelo.

Espigueiros e carros de bois as peças mais procuradas

E.B. – Quais são as peças mais procuradas e as que têm, por isso, mais saída?
L.N. – São os espigueiros e os carros de bois. Estou também a produzir outras peças de tamanho maior que servem como elemento de decoração para as casas, como é o caso dos louceiros e dos preguiceiros onde são colocados “bibellots” e outros objectos domésticos. Estou ainda a pensar em criar novos modelos inspirados nas festas populares desta zona, como por exemplo, os carrosséis e as cadeirinhas.
E.B. – Acha que a actividade de artesão mereceria algum apoio especial por parte dos poderes públicos?
L.N. – Sem dúvida. Considero que deveria haver mecanismos próprios para incentivar e promover o trabalho que é feito pelos artesãos que, na nossa terra, cada vez são menos. Aqueles que existem trabalham isoladamente e sem condições que lhe permitem vender as suas produções e colocá-las em locais apropriados e de fácil acesso ao público. Certamente que isso passaria pela criação de uma associação ou uma cooperativa constituída pelos próprios, de modo a que a actividade fosse rentável e duradoura. De outra maneira será muito difícil sobreviver. Torna-se impossível, como se sabe, a uma pessoa como eu colectar-se na actividade independente, com as obrigações daí decorrentes, como sejam os descontos para a Segurança Social, o IRC e a contabilidade organizada.

Dá gosto viver na nossa terra

E.B. – Quais são as suas ambições futuras?
L.N. – Gostaria de continuar a trabalhar no artesanato de que muito gosto e pelo qual tenho enorme paixão. Vou aguardar pelos desenvolvimentos futuros nesta área, sobretudo pela expansão desta minha actividade que tem, também, uma componente turística e de divulgação das coisas mais genuínas e tradicionais das nossas Terras de Basto.
E.B. – Como encara o progresso que o concelho de Cabeceiras de Basto tem atingido nos últimos anos?
LN. – Com muito contentamento e extrema felicidade. É através do progresso e do crescimento que uma terra se afirma e se projecta. É por essa via, por certo, que as pessoas que nela vivem e trabalham podem aspirar a melhores condições de vida. O nosso concelho é uma referência exemplar do desenvolvimento e da modernidade. Há quinze anos não era assim, nem as expectativas eram animadoras. Felizmente tudo mudou com a presidência do Engº Barreto na Câmara Municipal. Estamos no bom caminho. As obras que não param, as iniciativas que prosseguem e os equipamentos são cada vez mais e melhores para servirem os cabeceirenses. Dá gosto viver aqui e é um orgulho ser filho desta terra.

Luís Nogueira, um artesão da nova vaga, que nasceu ocasionalmente em Lisboa tendo vindo para a Faia aos 6 anos onde os seus pais residem e onde ele também pretende vir a morar logo que possa, deixa-nos nesta sua entrevista o sinal de que está determinado a levar por diante uma actividade difícil mas que o realiza.
De destacar também neste seu depoimento o pôr o “dedo na ferida” acerca da falta de mecanismos legais e de organizações devidamente vocacionadas para o efeito, destinados a agregar e a valorizar o trabalho dos artesãos e a sua dimensão sócio-cultural.






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