Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2006

SECÇÃO: Crónica

O LARGO DA RAPOSEIRA COM CARA NOVA

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Já algum tempo que não passava à Raposeira. Sabia que andavam a fazer a requalificação do Largo mas, o que eu não contava hoje ao visitar a minha irmã foi encontrar “o meu largo” tão bonito.
Antes desta obra ter início andava bastante preocupada porque tinha ouvido uns “zunzuns” que a vontade de uma ou outra pessoa seria fazer uma estrada a direito, quer dizer pela Raposeira acima directo a Painzela. Certamente é uma opinião que eu respeito mas se tal acontecesse eu era das primeiras pessoas a pôr-me em frente às máquinas para impedir tal desgraça.
A escadaria do Largo tendo ao fundo a Casa da Raposeira e ao lado apartamentos modernos feitos no local que foi de José Maria Pereira, irmão do Padre Domingos Pereira
A escadaria do Largo tendo ao fundo a Casa da Raposeira e ao lado apartamentos modernos feitos no local que foi de José Maria Pereira, irmão do Padre Domingos Pereira
Sim, era uma atrocidade feita a um largo carregado de história, de tradição, de desporto, de folclore, de amores e desamores! Este largo famoso é circundado pela “Casa da Raposeira”, a casa do Sr. David Machado, teve a casa de José Maria Pereira, (irmão do Padre Domingos). Essa hoje já não existe! Mais abaixo era a casa do Padre Domingos Pereira líder da rebelião monárquica em Cabeceiras de Basto, mas que também hoje pertence a particulares. Algumas foram queimadas. Outras foram sendo renovadas.
Vista parcial da renovação do Largo da Raposeira, com iluminação
Vista parcial da renovação do Largo da Raposeira, com iluminação
A história da Raposeira começa logo no início da Avenida Dr. Francisco Costa, num casarão por cima da antiga loja do correio (ou loja do Carneiro) que hoje apresenta um aspecto bastante degradado, que pertencia ao Coronel Pacheco, casado com D. Clotilde Pacheco, filha do Padre Domingos Pereira, com quem eu convivi muito. Como alguns se devem lembrar, principalmente os da minha idade e os mais velhos a D. Clotilde Pacheco tinha paralisia do lado direito (se me não falha a memória ela assinava as cartas que me ditava com a mão esquerda), portanto eu era pequena, ia para casa dela e ela apoiava-se com a mão sã no meu braço. A casa deles tinha sempre visitas importantes. O marido da D. Clotilde era Coronel do Exército e foi durante anos Presidente da Câmara de Cabeceiras, de maneira que naquela época tinha muito poder! Lembra-me de uma vez o Coronel Pacheco chamar uma “praça da Guarda” e mandar prender uma mulher na Raposeira e ninguém discutia! Na minha opinião quem tinha mais poder era sem dúvida alguma a D. Clotilde devido talvez a ser filha de quem era. Em Cabeceiras ela era a madrinha dos soldados que iam para o Ultramar.
A beleza do Largo da Raposeira
A beleza do Largo da Raposeira
Mais casas antigas ladeiam a avenida até ao largo que contêm histórias de vidas, como a casa do falecido senhor Joaquim Carneiro, meu sogro, a casa que era do Dr. Falcão, que hoje tem outros proprietários, a casa do senhor António Revolta, a casa da “Residência”, onde viveu até falecer em 1974 o saudoso Arcipreste Francisco Xavier de Almeida Barreto, a casa do “Lidinho da Touça”, que era sobrinho dos monárquicos, entre outros.
Aquele largo com as suas escadas ao centro onde o Manel Carneiro (meu marido), tantas vezes tocou a viola, tem recordações para mim que vivi lá muitos anos de solteira e casada que seria preciso o jornal todo para contar.
A Casa onde viveram as meninas Leonilde e Mariazinha, filhas de José Maria Pereira antes de ser demolida para construção moderna
A Casa onde viveram as meninas Leonilde e Mariazinha, filhas de José Maria Pereira antes de ser demolida para construção moderna
Era naquele largo que os rapazes jogavam à bola e partiam os vidros para mal dos pecados das janelas da senhora “Aninhas do Barrosão” e das meninas do “Zé Maria” “Mariazinha e Leonilde”. Era naquele largo que se jogava grandes “campeonatos” de futebol, aos domingos e feriados! Era naquele largo, mais precisamente nas escadas que haviam encontros fortuitos de um ou outro casalinho. Era naquelas escadas que se resolvia a organização da festa do S. Pedro e se decidia quem tinha coragem para pedir o boneco antigo que “mijava” e se punha na cascata, às meninas do “Zé Maria”. Era naquelas escadas que as mulheres casadas e mais velhas descansavam um bocadinho aos domingos dos apertos da vida cheias de filhos e até em desabafo lá iam dizendo mal dum ou de outro marido mais “chato”… e outras coscuvilhices… Por aquelas bandas também houve uma tragédia mortal, por culpa talvez de amores proibidos… não sei. Mas isso já não é do meu tempo! Paz às suas almas!
A Casa da Raposeira com data de 1706, herança de Carlos Fraga Lopes Pereira **
A Casa da Raposeira com data de 1706, herança de Carlos Fraga Lopes Pereira **
Tenho que aqui dizer com toda a franqueza que as obras superaram as minhas expectativas! A Câmara Municipal, sem prejuízos de terceiros, conseguiu manter o Largo da Raposeira na sua traça original, preservando a sua história, as suas tradições e, claro, com francas melhorias que saltam à vista de quem por lá passa. Ao requalificar o Largo da Raposeira ainda conseguiu dar-lhe um aspecto mais harmonioso, de acordo com o meio envolvente, com os passeios em paralelo, os candeeiros a imitar o antigo, assim como as mesas, os bancos de pedra e os canteiros do jardim. Fiquei muito contente que as árvores que o meu irmão Joaquim Campos plantou já há alguns anos não fossem arrancadas. Espero que as que foram plantadas agora, não lhes aconteça o mesmo que às outras anteriores…secaram misteriosamente!
Estão de parabéns as gentes da Raposeira e nas quais eu também me incluo, porque além de terem as suas casas bem conservadas, e a maioria são de pedra, agora com esta obra ficaram com uma mais valia! Pena é que os que “partiram” há tão pouco tempo já não puderam apreciar esta tão bonita obra!
O Prof. Manuel Carneiro tocando viola vendo-se ao fundo as antigas casas de José Maria Pereira, pai das meninas Leonilde e Mariazinha e irmão do Padre Domingos. Hoje já não existem.
O Prof. Manuel Carneiro tocando viola vendo-se ao fundo as antigas casas de José Maria Pereira, pai das meninas Leonilde e Mariazinha e irmão do Padre Domingos. Hoje já não existem.
Para terminar quero aqui dar os meus parabéns à Autarquia, na pessoa do Sr. Presidente que demonstrou um profundo respeito pelo património histórico, arquitectónico e as tradições culturais do nosso povo! A prova está à vista! Cabeceiras de Basto de hoje é testemunha! Em meu nome e em nome de todos os da Raposeira e dos cabeceirenses em geral o nosso muito obrigado pelo presente e por respeitar o passado. Bem-haja!

** Curiosidade -O Dr. José César de Carvalho Pinto Coelho do Vale e Vasconcelos foi notário 30 anos em Cabeceiras de Basto, faleceu na Casa da Raposeira a 20/04/1936. Era tio do Sr. Dr. Duarte Nuno Vasconcelos, de Cavez.
Em 1937 a Casa da Raposeira passou para o pai do actual dono, custando 12 contos.
O nome original do Largo da Raposeira é Largo Dr. Guilherme de Abreu.

Por: Fernanda Carneiro

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