Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2006

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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SONHO

1. Um homem sonha que o seu quarto urbano desagua numa janela que desagua numa praia.
2. Ao longe, de perfil, na hora de amanhecer (hora de aura, ou aur’hora), uma mulher cruza a paisagem.
3. A mulher veste uma túnica branca e docemente carrega um chapéu muito largo.
4. O mar murmura sal e silêncios, com a harmonia serena de quem esteve séculos a ensaiar.
5. O homem caminha para a paisagem.
6. Súbita, a mulher volta-se para o olhador e o quarto de onde este viera torna-se uma bola de fogo.
7. O homem sente a terra fugir-lhe sob os passos e, mais tarde, compreenderá que tudo se passa dentro do seu peito - e que o seu quarto é afinal o seu coração.
8. Antes disso, ficará muito quieto, naquele êxtase adorador devido à memória da beleza vista, ainda que inventada, ainda que sonhada.
9. Quando o homem acordou, era já muito tarde e isso custou-lhe, além do almoço, um promissor encontro de negócios.
10. Nesse dia, decidiu abdicar do prazer do café, porque queria pegar cedo no sono. Adivinhais porquê?
11. Talvez voltasse a porta que dava para a praia e, de repente, fosse novamente possível viajar da janela fronteira aos olhos da mulher de branco. Quem sabe pudesse entrar com ela pelo mar dentro, de modo a que nunca mais se apagasse a história.
12. Foi por isso que, na última vez que o viram, à despedida, no Café da rua, disse simplesmente: Boa noite e adeus. Tenho um sonho à minha espera.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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