Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2006

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (72)

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AO ESTILO DE JOSÉ SARAMAGO

Passou-me pela ideia escrever um texto ao estilo de José Saramago. Foi muito simples. Escrevi um texto normal, como muitos outros que tenho escrito, e no fim eliminei todos os parágrafos, troquei os pontos finais por vírgulas, as vírgulas por pontos finais, as frases começadas por maiúsculas passaram a ser iniciadas por minúsculas e as iniciadas por minúsculas passaram a maiúsculas.

Pois bem:

“Eu ia pela estrada abaixo. e vinha uma velhinha pela estrada acima, A velhinha tocava um burrinho que transportava dois foles com farinha. um de cada lado da albarda. fixada sobre o dorso do pequeno burro, Eu ia pelo lado esquerdo da estrada e a velhinha conduzia o seu burro pelo lado direito da estrada. eis a razão porque nos cruzámos bem de perto, Ao cruzar-me com a velhinha. esta fixou os olhos em mim e perguntou: desculpe meu senhor. mas pode informar-se se irei bem para a Senhora de Fátima? olhe. eu passo aqui há mais de setenta anos. primeiro era pelo caminho velho cheio de silvas. agora é por esta estrada nova. mas parece que perdi o tino e não sei se vou bem. se vou mal. e o burro também não gosta nada de caminhar pela estrada nova, Olhe minha senhora. vossemecê vai muito bem. vai no caminho e na direcção certa. continue. tem agora uma curva para a esquerda. depois uma para a direita. a seguir outra para a esquerda. depois outra para a direita. novamente uma para a esquerda. e já está nas proximidades da Senhora de Fátima. agora diga-me. a senhora sabe ler? não meu senhor. eu não sei ler, Então diga-me. quer ir mesmo para os lados da capela. ou quer ir para o outro lado, Olhe meu senhor eu quero ir para o outro lado. para aquela mercearia que há ali. e troca grão de milho por farinha. que é a que me dá trabalho para eu moer, Então está bem. a senhora quando chegar à última curva que lhe referi. tem muito cuidado. e atravessa a estrada para o seu lado esquerdo. é para aquele lado dali. a mercearia que procura fica mesmo à margem do caminho que vai para Alvite, Oh, Está ali um grande sobreiro, Eu lembra-me que dantes aquele sobreiro ficava do lado dali do caminho, Pois é. dantes. antes de ser construída esta estrada nova. havia aqui um campo de futebol. e aquele sobreiro estava mesmo junto ao campo e do lado direito do caminho. para quem vinha de Madanços, Agora construíram a estrada. desapareceu o campo de futebol. e o sobreiro ficou do outro lado da estrada, Ah. pois é. eu até me lembro que o terreno do campo e aquele sobreiro pertenciam ao fidalgo de Santo Antonino. o Senhor Tenente Gonçalo de Meireles, É verdade. eu também me lembro disso. o meu pai e os meus avós assim o diziam, Falou-me ainda a velhinha. quer que lhe conte uma história que se passa com um sobreiro como aquele ali? Então não havia de querer? Então conte lá, Olhe era uma vez um cego. que tinha um moço que o guiava. quando andava na pedincha, Não sei se sabe. mas antigamente os cegos costumavam ter um rapaz para os guiar pelos caminhos quando andavam a pedir. vai daí. certo dia. bateram à porta de uma casa. a dona da casa deu ao rapaz dois pedaços de pão com chouriça. era um pedaço para o rapaz e outro pedaço para o cego, Mas o rapaz que era bastante maroto. comeu a chouriça toda. e deu apenas um bocado de pão ao cego sem chouriça. o cego cheirou-lhe e protestou com o rapaz dizendo-lhe “ah meu grande filho da p. este pão cheira-me a chouriça. deves tê-la comido toda sem me dares ponta a mim, O rapaz calou-se e continuou a conduzir o cego. a certo ponto do caminho. havia um sobreiro na beira. e o rapaz. de maroto. conduziu o cego na direcção do sobreiro onde ele deu uma forte cabeçada. berrando. ah meu grande filho da p. que me enganaste, O rapaz respondeu-lhe: então seu grande cara de c. o pão cheirava-te a chouriça e o sobreiro não te cheirou a cortiça? muito bem. eu ri-me muito. e aplaudi a história que a velha me acabara de contar, Repeti-lhe, olhe então a senhora já sabe. segue estrada acima. tem aquela curva para a direita. outra para a esquerda. depois outra vez à direita e a seguir para a esquerda de novo para a direita. e já está junto à mercearia da Isaurinha das Portelas. que é para onde a senhora que ir com o seu jumento carregado de sacos de farinha”.

Desculpe amigo José Saramago, o Senhor é um Prémio Nobel (pronuncia-se nobéél), e eu gosto imenso de ler os seus livros. Confesso-lhe que aquele de que mais gostei foi o “Ensaio sobre a Lucidez”, onde faz um relato perfeito do consulado governativo da dupla Durão Barroso - Paulo Portas. Quanto ao primeiro, foi efectivamente um primeiro-ministro que entrou de tanga, e pelos seus feitos, como governante, saiu de parra. Agora, em Bruxelas, muito provavelmente, far-se-á transportar, no exercício do seu importante e relevante cargo, num qualquer carro topo de gama, de uma qualquer marca de topo. Pobre país que tais governantes tem tido. O país não deve esquecer a obrigação que tem, de os condecorar, a todos, na altura devida, e no local próprio, pelos “relevantes” serviços que lhe têm prestado. Tudo boa gente!

Por: José Costa Oliveira

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