Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Drª Rosa Maria Gonçalves P.V.Miranda
Comissão de Protecção de Jovens em Risco é um desafio apaixonante

foto
Licenciada em Humanidades pela Universidade Católica e professora do quadro na Escola EB – 2,3 de Cabeceiras de Basto onde lecciona a disciplina de Português, Rosa Maria Gonçalves Pereira Videira de Miranda, de 34 anos de idade, é uma das mulheres cabeceirenses que, nos últimos tempos, se tem destacado na participação cívica da comunidade local.
Deputada à Assembleia Municipal, eleita como independente nas listas do PS, foi, recentemente, nomeada para presidir à Comissão Concelhia de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, uma área que domina bem e que a sua cultura humanista lhe confere uma mais valia importante para o desempenho desta missão social exigente num concelho problemático como é Cabeceiras de Basto.
Para nos falar da sua actividade, da participação e empenho nas coisas da sociedade que nos rodeia fomos ouvir esta cabeceirense activa, de espírito inteligente e determinado.

A escola está em mudança

Ecos de Basto – Professora da disciplina de Português na Escola EB – 2,3 de Cabeceiras de Basto como vê o panorama da Educação no concelho?
Rosa Maria Miranda – A educação encontra-se num momento de grandes mudanças. Todos reconhecemos que a escola pública estava a precisar de muitas reformas. Embora tivesse havido em anos anteriores algumas reformas, as actuais têm sido mais profundas abrangendo áreas transversais de todo o sistema. Por isso, faço votos que as medidas que o actual governo está a aplicar não sejam apenas mais uma solução de curto prazo. Quero, portanto, acreditar que alguma coisa de consistente irá mudar. Adianto, no entanto, e comungando da opinião de muitos outros professores, que algumas leis têm sido feitas tendo em conta a conjuntura desfavorável da classe docente e o trabalho que, se na verdade, nem sempre é competente por parte de alguns profissionais, isso não pode pôr em causa a maioria dos professores que são dedicados e zelosos na sua missão de ensinar.
foto
Ora, essa nota negativa que cai sobre os professores é que me tem entristecido e daí este meu desabafo.
Na questão concelhia o sector da educação apresenta dois problemas essenciais preocupantes. As escolas de certas freguesias mais periféricas encontram-se com muito poucos alunos onde a questão da socialização e da aprendizagem ficará aquém do necessário para a formação de uma criança. Por outro lado, as escolas das zonas mais urbanizadas e com mais população estão superlotadas, nomeadamente as do 2º e 3º ciclos de que é exemplo disso a escola Básica de Refojos na qual as condições físicas e os espaços para a exploração de actividades complementares importantes para o ensino são, praticamente, exíguos ou inexistentes. Ainda há um outro aspecto que tem a ver com o Ensino Secundário, sobretudo em relação ao recrutamento de professores. Eu, por exemplo, tenho formação para ensinar ao 3º Ciclo e Secundário onde gostaria de ter a oportunidade de leccionar, por razões óbvias. Ao nível da formação profissional gostaria que houvesse mais alternativas, embora a Escola Tecnológica de Lameiros e outras entidades locais já estejam a produzir um bom trabalho.

Carta Educativa vai resolver problemas

E.B. – A Carta Educativa do Concelho, aprovada há pouco, vai de encontro à resolução dos problemas que levanta?
R.M.M. – Sim. A Carta Educativa de Cabeceiras de Basto já prevê a solução de muitas das questões aqui levantadas, nomeadamente quanto às escolas desertas, contrapondo-se à criação dos centros escolares e projectando também a construção de mais uma escola EB – 2,3 e ainda apontando para a criação de uma escola secundária.
E.B. – Sendo a Língua Portuguesa de crucial importância para a compreensão de todas as matérias ministradas na escola como explica as grandes dificuldades dos alunos na disciplina?
R.M.M. – Julgo que a dificuldade dos alunos não é só no Português, mas é antes a um nível geral. Aliás, nos exames nacionais do 9º ano nem se tem verificado grandes desaires. De qualquer forma ainda há muito a fazer para melhorar a prestação dos alunos. Por exemplo, é importante que se criem hábitos de leitura e de escrita, um acesso à cultura mais fácil e a aquisição de competências alargadas, por forma a que a nossa língua seja um instrumento ao serviço da formação integral dos nossos alunos.
E.B. – Quais são, na sua perspectiva, as grandes causas do insucesso escolar que atinge fortemente o nosso meio?
R.M.M. – Penso que o principal problema começa no seio das famílias. Questões de desagregação familiar, carências económicas e baixo grau cultural reflectem-se nas crianças e no seu aproveitamento escolar. Há também outras causas de inadaptação e de funcionamento dos próprios estabelecimentos de ensino.
Fazem falta alternativas profissionalizantes e novos currículos para os alunos que não conseguem os resultados desejados, encaminhando-os para a inserção na vida activa.

Insucesso escolar começa na família

E.B. – Nomeada há pouco para o cargo de presidente da Comissão Concelhia de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, como encara este desafio?
R.M.M – É com muita coragem, que enfrento este desafio apaixonante e também com esperança e com um sentido de responsabilidade que, por vezes, me deixa amedrontada com receio de não conseguir dar a resposta adequada a todas as solicitações.
E.B. – Que ideias ou projectos tem pensado para dar resposta às solicitações e ás necessidades existentes nesta área específica da acção social?
R.M.M. – Olhe! Comecei a interessar-me recentemente pelo trabalho que se fazia nesta Comissão e apercebi-me que havia poucos elementos para corresponder aos inúmeros casos existentes no nosso concelho. A partir daí e enquanto representante da Educação verifiquei que a escola era a instituição principal sinalizadora dos casos de jovens a precisar de ajuda. Procurei então junto dos Agrupamentos de Escolas do Concelho a colaboração de alguns professores para apoiar a Comissão. Consegui que três docentes, os Profs. Rosário Oliveira, Adelaide Novais e Joaquim Jorge Carvalho viessem trabalhar para a referida Comissão de forma voluntária e gratuita. Esta foi a minha primeira preocupação de estabelecer uma comunicação mais estreita entre a escola e a Comissão para que as soluções se possam fazer em conjunto. Propus ainda à comissão alargada que, no âmbito das suas funções e a partir do momento em que são diagnosticados os principais problemas das crianças e jovens em risco, como são os casos do alcoolismo, da violência familiar e do abandono escolar, se formassem grupos de trabalho para promover uma análise mais profunda e se actue rapidamente ao nível principalmente da prevenção.

Jovens em risco são em grande número

E.B. – Os meios e os recursos de que dispõe a Comissão são suficientes para um trabalho que se quer profícuo e eficaz?
R.M.M. – Olhando ao que se passa à minha volta e especialmente pela minha condição de professora profissão que, por vezes, exige “milagres” para atingir certos objectivos, não considero que a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco tenha falta de meios. Aliás, por parte da Câmara Municipal, que é a entidade coordenadora e dinamizadora, tenho a garantia de total apoio. As reuniões e os contactos quer com o Presidente, quer com o Vice-Presidente da Autarquia têm-se pautado por uma sintonia perfeita sobre aquilo que pretendemos fazer. E, devo dizê-lo, a tarefa não é nada fácil já que o número de casos de jovens em risco atinge quase as três centenas num universo de uma população residente no município de perto de 18 mil habitantes.
E.B. – Deputada à Assembleia Municipal pelo PS sente que as mulheres dão à política uma outra “performance” de cariz mais humano, afectivo e tolerante?
R.M.M. – Não, não sinto nada disso. Acho que todos os seres humanos são diferentes e implicam uma complexidade tão grande que, independentemente do género, todos se completam e fazem falta, pelo que o envolvimento e o contributo de homens e mulheres na sociedade se torna necessário em todos os sítios e em todos os trabalhos. Não defendo, por isso, qualquer método rígido que obrigue a que um número determinado de pessoas, seja de um ou de outro sexo, participe seja no que for. Sobretudo na política a participação das mulheres e dos homens deve fazer-se pelas suas capacidades e pela sua competência. Tenho para mim, contudo, que mais mulheres participam na vida cívica se os homens abandonassem os complexos tradicionais que ainda demonstram e tivessem outra intervenção na família, partilhando as tarefas do lar e da educação dos filhos possibilitando, assim, um maior equilíbrio entre os géneros.

O trabalho da Autarquia é notável

E.B. – Como vê o papel da principal autarquia de Cabeceiras de Basto?
R.M.M. – Já toda a gente percebeu que a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto tem exercido, nos últimos anos, um grande papel no desenvolvimento do concelho. A todos os níveis verificamos como têm sido a evolução e o crescimento das nossas terras do concelho. Tenho muito orgulho em constatar, como cabeceirense, esta nova realidade. Instalei-me em Cabeceiras sem qualquer simpatia política e pude ao longo dos tempos apreciar o trabalho que era desenvolvido pela autarquia, dirigida por um homem de grande valor sempre acompanhado de pessoas muito interessadas e intervenientes. Pessoas que se entregam à causa pública de forma permanentemente dedicada.
E.B. – O rumo que o município tem tido nos últimos anos é de molde a perspectivar o futuro com esperança e optimismo?
R.M.M. – Estive a estudar fora e de alguma forma distanciada dos problemas locais durante alguns anos.
Pude, por conseguinte, comparar o que era Cabeceiras há quinze, vinte anos atrás, e o que é hoje. Muitos e muitas obras, equipamentos e iniciativas sócio-culturais e económicas têm sido realizadas que deram ao concelho um novo rosto e uma nova alma. Registo também a forma partilhada e aberta como é exercido o poder em Cabeceiras de Basto, através da chamada das mais variadas pessoas a dar o seu contributo, permitindo a muitos munícipes a oportunidade de intervir positivamente nas mudanças que se operam na nossa terra.



© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.