Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2006

SECÇÃO: Recordar é viver

A MINHA TIA MICAS

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No Domingo passado, depois de tomar o cafezinho em casa da minha irmã Conceição, na Raposeira, na companhia do meu pai, alguns irmãos, do meu filho Manuel Carneiro (conhecido por Nelinho) e dois dos meus netos, sugeri darmos um passeio. O dia estava maravilhoso, soalheiro e era conveniente esticarmos as pernas para ajudar a fazer a digestão porque como é sabido, aos domingos damo-nos mais à preguiça, excedemo-nos nas comidas e sobremesas e quando há reuniões de família mais se abusa com o repasto mais apurado.
Depois de várias alternativas quanto ao destino da passeata, para onde é que havíamos de ir, alguém lançou a ideia de irmos à Portela, que não é muito longe mas já pertence à freguesia de Outeiro, visitar os campos do meu pai, ao mesmo tempo ver se ainda havia por lá alguma maçã verdial. Mas já não tive sorte, pois já tinham desaparecido todas.
Digo até, com uma certa vergonha minha que há muito tempo não ia àquele local. Pode-se mesmo dizer que passaram alguns anos. Mas lá fomos todos animados. Durante o percurso até à Portela fui verificando que a paisagem se tinha modificado bastante. Há muitas mais casas, novas ou restauradas, ao longo dos caminhos, quase todas feitas em pedra. Realmente achei que eram muito bonitas. Só é pena que alguns caminhos, os mais antigos, não correspondam ao esplendor das habitações. Mas como o país está em crise… também se compreende. Há falta de verbas e as obras também não podem ser feitas todas ao mesmo tempo. De resto, a freguesia de Outeiro tem crescido e melhorado a olhos vistos.
Mas voltando ao nosso passeio, devo dizer que me emocionei ao chegar aos campos. Senti curiosidade pelas alterações e também, senti tristeza pois foi a primeira vez que fui lá depois de a minha mãe falecer. Gostei de ver a alegria dos meus netos ao correrem pela terra que estava bastante húmida das águas que corriam pelos regos. E a admiração do meu neto Francisco ao ver os galos, as galinhas e os patos dos caseiros a fugirem espavoridos pois não estão habituados a que tantas pessoas invadam o seu território.
Para vos dizer com toda a sinceridade até eu estranhei certas modificações que o meu pai tinha feito naquela casa, dando-me oportunidade para lhe perguntar:
- Ó pai, há quanto tempo é que você aumentou à casa? Ao que ele me respondeu:
- Óh tempo! Isso só mostra que não vindes cá nem para levar a fruta para vossa casa. Não quereis saber disto para nada!…disse ele com uma alguma tristeza.
Fiquei um bocado atrapalhada e até com remorsos. Pois os meus pais trabalharam muito naqueles campos em especial a minha mãe. Naqueles anos duros o meu pai era emigrante, portanto quem se dedicava à lavoura era a minha mãe (que Deus tem), e nós, os irmãos mais velhos. Ainda me lembro de quase ficar sem um dedo a cortar erva com a foicinha e ainda tenho as marcas da cicatriz. Devo-vos dizer que até erva para o gado cortei com uma gadanha. O meu pai lá se encarregava de nos ensinar, se não, podíamos contar com a “lambadita”. Pior era quando as minhas tias, irmãs do meu pai que eram como homens a trabalhar nos iam ajudar. Diziam elas para nós que já “olhávamos para a sombra”: enquanto puxavam o semeador:
- Andai, lá raparigas! Força nesses braços, isto não custa nada! É assim que se ganham os filhos dos lavradores! Elas falavam por experiência própria, pois duas delas tinham casado ali para os lados de Travassô. Evidentemente que a conversa delas não nos agradava nada. Se tínhamos que dar cabo do corpo para arranjar um filho de lavrador e ainda por cima ser arranjado pelos pais certamente que não estávamos interessadas. Até porque esses casamentos “arranjados” quase nunca davam certos…
Enquanto os meus irmãos e cunhados continuavam a atacar um codorneiro para encher um saco e dividir irmãmente por todos nós, eu fiquei perto de casa onde o chão estava mais duro e seco pois o calçado não era o mais apropriado e fui conversando com o meu pai, com a minha nora e cunhada e ia verificando que os meus netos não se molhassem naquele lodos, observando ao pormenor tudo quanto nos circundava.
No meio daquela conversa animada, deu-me de repente para olhar para um canastro que estava encostado à casa que me fez recordar uma história já com muitos anos e que tinha acontecido ali e que os protagonistas foram um casal de velhotes já com uma certa idade que eram meus segundos tios. Eram, nada mais nada menos, a minha segunda tia, irmã do meu falecido avô Zé Colatré e o seu marido, o tio António. Se me não engano era a única irmã do meu avô. Hoje, passados tantos anos e contar a história que até foi dramática torna-se engraçado. Virei-me para o meu pai e perguntei-lhe:
- Ó pai, você lembra-se do primeiro canastro que caiu em cima do porco da tia Micas? Não resistimos a uma boa gargalhada. E continuei: Parece que ainda estou a ver as caras dos tios, principalmente a cara da tia Micas, Deus lhe fale com a alma.
Naquela noite longínqua de dilúvio em que só as almas penadas andam na rua, lá perto da meia noite ouvimos bater à nossa porta com desespero e a chamarem pelo meu pai.
- Ó Manel, ó meu rico sobrinho, ai que desgraça,! Ouvimos nós em grande alvoroço, levantando-nos meio “sarapantados” . Quem é que está a berrar assim? Perguntou o meu pai, que ainda não se tinha apercebido da tragédia que se adivinhava. E lá de fora continuava:
- Ó Manel abre a porta, sou a tia Micas!
O meu pai abriu a porta espavorido com nós a espreitar por detrás dele, pensando que tinha morrido alguém.
- Então, tia Micas, o que aconteceu a esta hora da noite?
- Ai, que desgraça meu rico sobrinho, meu amor! Ela tinha o costume de chamar (meus amores) a toda a gente. Lá foi o meu rico porquinho!
E foi para onde o porquinho? - perguntou o meu pai estremunhado, mas já com um pressentimento ruim.
- Ai, o meu rico porquinho, que ficou debaixo das espigas! O canastro caiu-lhe em cima!
Enquanto se lamuriava pela tragédia que os atingiu, a eles e ao porco ía-se virando para o tio António que se encolhia cada vez que ela dava um ai e dizia:
- Ai, António o nosso porquinho! Que vai ser de nós, António, a esta hora o porquinho está morto!
- Eu bem te dizia, António, que não devíamos ter saído de onde estávamos…
O António, que era um apaixonado da tia Micas, pois tinham casado já com uma certa idade, já ela tinha os filhos (só dela) casados, olhava aterrado para ela, de baixo para cima, pois ele era um pouco atarracado e a tia Micas um bocadito mais alta.
E o meu pai lá foi, foi a ver se ainda conseguia salvar o porquinho da minha tia Micas. Não sei exactamente se o pobre animal sobreviveu ou não. O certo é que, passado este tempo todo, neste Domingo, ao recordar este episódio o meu pai e nós não resistimos a uma grande gargalhada. Até nos vieram as lágrimas! Não foi por mal. Até foi com alguma saudade! Grande figura aquela minha segunda tia! Muitas vezes lhe beijei a mão quando lhe pedia a bênção. Era moda daquele tempo! Depois lá se perdeu esse hábito.
Não poderia terminar sem falar de algumas características da minha tia Micas. Penso que a família dela, a mais directa, não me vai levar a mal. Era uma mulher bastante alta, com os peitos bem erguidos para a idade, sempre muito aprumada e limpa. Quando casou com o tio António já foi com uma certa idade tanto que os filhos que ela já tinha, já estavam casados. Sei que era uma mulher de muitas habilidades, tais como; “talhar o bicho”, dizia logo se era “macho ou fêmea”, fazia “unguentos” para por nas feridas, acho que eram feitos de gorduras das cobras. Não tenho bem a certeza, mas julgo ainda que a tia Micas também era tecedeira…
Por aquilo que ouvi contar ao meu avô ou às minhas tias, acho que a tia Micas não tinha medo de ninguém. Desafiava qualquer um! Era assim mais ou menos aquilo que se costuma chamar “meia homada”. Ai daquele ou daquela que ousasse levantar os olhos para ela com provocação! Fora estas particularidades, a tia Micas era uma pessoa franca e nossa amiga. Hoje ao lembrarmo-nos dela com este episódio caricato, foi como um retorno à meninice. Valente tia Micas! Oxalá que no “outro mundo” onde estás, não hajam canastros a cair em cima de ti ou de alguém!...

Por: Fernanda Carneiro

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