Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2006

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (71)

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A SEBENTA

Muito sinceramente, penso que deverá ser bastante triste para qualquer pessoa, que gosta de escrever, constatar, em qualquer momento, que anda a escrever para ninguém. Ou seja, que ninguém lê o que ela escreve. Eu, de qualquer modo, sinto-me muito feliz, porque tenho vindo a tomar conhecimento de que há algumas pessoas que lêem os meus textos. Tenho leitores nos EUA, na Austrália e até em Goa! É verdade, tenho um leitor em Goa.
Por respeito a esses meus leitores fiz, há uns meses atrás, a promessa de que repetiria um dos primeiros textos que escrevi neste periódico, já lá vão cerca de oito anos, e, pelos vistos, parece que há alguma dificuldade em localizar o jornal em que esse texto saiu. Também aproveito para introduzir duas ou três pequenas alterações, e espero que não saia com as duas gralhas que da primeira vez o atingiram.
Então aí vai, novamente, o texto:

“Ainda sobre os três amigos, que semanalmente realizam a sua marcha até um dos lugares altos, da freguesia de Abadim, deve referir-se que, para além do exercício físico, eles seguem, o mais religiosamente possível, a dieta prescrita pelos respectivos médicos.
A alimentação indicada, para reduzir os índices de colesterol, deve ser mais à base de legumes, e de peixe, do que de carne. No que respeita à carne, a menos indicada é a de animais de maior porte, ou seja, a de bovinos.
De comum acordo decidiram que, no final de cada passeio, almoçariam os três mais o quarto amigo que os ia buscar na viagem de regresso, num restaurante típico que existe nas proximidades do lugar dos Moinhos, a algumas centenas de metros do local estabelecido como términos dos passeios semanais.
O que eles mais gostavam, e após uma estafadela de cerca de quinze quilómetros a pé, seriam umas boas costeletas de barrosão, ou umas postas de bacalhau assado na brasa com batatas a murro. Mas não, a dieta prescrevia peixe com legumes e apenas um, no máximo dois, copos de vinho e, de preferência, maduro tinto.
Os quatro combinaram com o proprietário do restaurante para aquele dia de cada semana, e por volta do meio-dia e meia, que lhes tivesse o almoço preparado, sempre à base de peixe, grelhado se possível.
Já se passou cerca de seis meses, e todas as semanas se realiza o passeio e respectivo almoço conjunto, alternando as ementas entre sardinhas assadas na brasa e linguado grelhado, passando uma vez ou outra por uns bons carapaus, também grelhados.
Há quinze dias atrás, a ementa constou precisamente de carapaus grelhados, que estavam uma delícia, acompanhados de batatas cozidas, uma folha de penca e uns copos de Santa Marta de Penaguião, tinto.
Tudo correu bem, apenas uma pequena espinha de carapau, daquelas que só os carapaus têm, em forma de anzol, ficou encravada na garganta do José. Os amigos sugeriram que engolisse alguns pedaços de pão, mal mastigado, juntamente com uns goles de vinho. Porém a espinha, através deste método, não desceu.
Talvez de noite, durante o sono, descesse e de manhã, ao acordar, já nem daria por ela. Mas não, quando acordou, a primeira coisa que sentiu, foi a desagradável sensação da espinha a arranhar-lhe as paredes da garganta sempre que movia a epiglote.
Durante três dias, e seguindo os conselhos dos amigos de jornada, mastigou mal as refeições e engoliu uns copos do maduro tinto a mais do que o que lhe fora recomendado para tratamento do colesterol. Todavia, a espinha não saía.
Não havia outra solução senão dirigir-se ao médico. Desta vez não foi ao seu médico de família, era urgente e decidiu-se por um médico particular. Indicaram-lhe um que se instalara, muito recentemente, na vila, e que, segundo diziam, era muito entendido em coisas do género. Por sinal era de nacionalidade brasileira, e tinha consultório num daqueles prédios novos do Largo da Boavista, muito perto do Hospital Prof. Júlio Henriques.
Dirigiu-se ao consultório, esperou pela sua vez, e quando esta chegou, a empregada mandou-o entrar. Apareceu-lhe então o médico, um sujeito novo, de cerca de trinta anos de idade, sotaque brasileiro, como esperava, bem-falante e amável.
O José expôs o problema, o médico mandou-lhe abrir a boca e espreitou a olho nu. Como está recentemente instalado, ainda não possui aquela lâmpada, que os médicos fixam na testa, tipo mineiro.
Após a observação, o médico, com o suor a correr-lhe em bica pela face, murmurou: “E eu que não tenho isto na sebenta”! Esfregou a testa com o antebraço direito e receitou:
“Vai tomar estes comprimidos, um de quatro em quatro horas, e se, nas próximas quarenta e oito horas, a espinha não sair, volte cá”.
O José foi para casa passando logo pela farmácia, comprou o medicamento, leu a respectiva bula, e inteirou-se que não era contra indicado para nada. Passaram-se as quarenta e oito horas, cumprindo o receituário a rigor e a espinha não saiu.
Ao terceiro dia voltou ao médico, e este, após algumas explicações sobre casos desta natureza, casos muito difíceis, disse ele; receitou-lhe uma embalagem de supositórios, para introduzir de seis em seis horas. Dava mais jeito esta prescrição horária, pois assim podia programar a medicação de modo a coincidir com a hora do almoço a introdução que teria que ocorrer durante o dia e fazê-la, portanto, em casa. Não seria muito conveniente introduzir supositórios nas horas e no local de trabalho. Ao fim de dois dias, se a maldita da espinha não tivesse saído, que voltasse lá, usaria então das novas tecnologias.
Novamente o José passou pela farmácia, comprou o medicamento, leu a bula, não era contra indicado para nada. A espinha manteve-se sem sair, e cada vez era mais irritante o movimento espontâneo de engolir a saliva.
Voltou ao médico pela terceira vez, este ao vê-lo ficou pálido, mas disse-lhe de rompante: “Já vejo que não resultou, mas esteja descansado que hoje não sai daqui com a espinha”. Voltou-se para a empregada, a Rosalina, que é de Bucos, fez o 12.º ano, e está a estagiar naquele consultório médico, enquanto não entra na universidade, também vai para medicina, e disse com voz decidida: “Prepare-me os ferros”.
Dirigindo-se de seguida para o José, ordenou: “Dispa-se e deite-se ali naquela marquesa”. O José perguntou: “Também as cuecas Sr. Doutor”? “Sim, dispa tudo”, respondeu o médico.
O José, complacente, despiu-se e deitou-se de costas em cima da marquesa. A Rosalina aproximou-se, a olhar de soslaio, com a bandeja dos ferros envoltos em água a ferver. O médico pega numa pinça, e ao levá-la na direcção da garganta do doente, caem umas gotas de água a ferver sobre as partes baixas do mesmo. Este, dá um enorme grito, e a espinha salta pela boca fora.
O médico, sem hesitar, dirige-se à sua escrivaninha e anota na sebenta: “Para extrair espinhas encravadas na garganta, derrama-se água a ferver sobre os testículos do doente””.

PS: Consigna-se que, do presente texto, qualquer semelhança com factos reais, será, obviamente, pura e feliz coincidência.

Por: José Costa Oliveira

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