Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2006

SECÇÃO: Opinião

Geração Rasca ou Enrascada?

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É usual utilizar a denominação de “geração rasca” quando da juventude se fala. Contudo, com a situação actual, o antónimo desta denominação é a mais apropriada para caracterizar a juventude do novo milénio, principalmente os residentes em Portugal. Não é que no nosso país a juventude se distinga pela negativa, claro que não, simplesmente as condições que o sistema lhe proporciona e que a posiciona numa posição de enrascamento do que em “rebeldia = liberdade intensa”, senão vejamos esta minha teoria…
Desde muito cedo, as crianças são logo direccionadas para instituições que substituem o papel da família, seja para creches, primárias, centros de tempos livres, entre outras modalidades, em que nesta tenra idade a criança é bombardeada de regras e de uma rotina acelerada.
Quando entra para a primária, a criança vê o seu dia a dia preenchido de actividades lúdicas dentro de uma sala, ora são aulas de música, dança, bordados, entre muitas outras, até chegar à hora de ir para casa, ou seja, final da tarde. Pois tudo é feito para ocupar a criança até os pais chegarem do emprego, não conhecendo aquela magia que antes havia em brincar nos caminhos livremente, com jogos que em adultos recordamos e que permanecerá nas memórias mesmo daqueles mais esquecidos.
Na geração seguinte, chega a altura das explicações de tudo e mais alguma coisa, na qual vêm substituir as actividades lúdicas, para além de um horário escolar super preenchido, dos imensos trabalhos a realizar e dos exames que insistem em perseguir todo o ano. Então onde fica a diversão? Bem, desde que seja bom aluno, tem a liberdade que a família considerar como adequada para a idade, caso contrário, ficará de castigo a estudar.
Chegada a altura em que transita para o colégio, altura de grande decisão da área que pretende seguir, que grande dilema! Por um lado está a área que gostava de estudar, por outro aquela que terá, talvez, saída profissional. Qual optamos? Por gosto ou por obrigação? Eis o dilema. Após estes 3 anos de grande esforço para obter a média necessária, reina a ansiedade para a entrada na faculdade, mas paralelamente a desmotivação pelo aumento da taxa de desemprego, que faz questionar se valerá mais cerca de 5 anos de grande esforço, das centenas de cursos sem qualquer saída profissional, do peso que esta aventura trará no orçamento familiar.
Quando se opta pela continuidade da formação, (para não abordar a temática do abandono escolar precoce) toda a mudança que tal exige, nomeadamente sair da terra natal, casa dos pais, residindo numa cidade, por vezes, desconhecida, uma carga de responsabilidades que jamais poderá descair, uma abertura de mentalidade e horizonte, entre outras mudanças.
Vivido o espírito académico e cumprido a missão, tirar um curso superior, os jovens são lançados para um mundo de trabalho sem espaço para eles, em que a inquietação, a procura intensa de trabalho, a frustração, a incerteza, fazem parte do quotidiano dos recém licenciados.
Esta situação implica toda a estrutura de uma sociedade, os jovens casam-se mais tarde, constituem família tardiamente, recorrem à emigração, espalham um sentimento de desânimo no país que dificilmente desaparecerá.
Este retrato social da juventude pode ser considerado como pessimista para muitos, mas de certeza que veste o número da juventude! Claro que há pontos que são muito positivos, do ponto de vista da inovação tecnológica, do avanço da medicina, do desenvolvimento do país, mas não o suficiente para continuar a chamar esta geração de “rasca”, ela está é totalmente enrascada com o meio em que vive, que através de diversos mecanismos tentam desenrascar-se desta teia que as gerações anteriores inconscientemente montaram.

Por: Sílvia Machado

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