Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2006

SECÇÃO: Opinião

O Simbolismo das Festas Religiosas

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A religião exprime-se por um conjunto de crenças e práticas, está associada a actividades solenes públicas exprimindo-se, na maioria, no sacrifício, daí este tema inspirar muitos filmes e romances de ficção científica. Ao consagrar a comemoração de um santo, como terminamos de festejar, em honra de S. Miguel Arcanjo, a Igreja sacralizou o tempo e pretende aproximar o homem a Deus, principalmente através da imagem, criando jogos complexos de teatralização do espaço sagrado, como exemplo serve a procissão.
A integração progressiva, e inicialmente consentida, de elementos profanos na festa religiosa levou, no entanto, a uma profanação do sagrado. Quando nos referimos ao carácter religioso de qualquer sociedade, há duas vertentes que estão sempre ligadas: o sagrado e o profano. A vertente sagrada traduz-se por ritos, mitos, formas divinas, objectos e símbolos sagrados, cosmologias, homens, animais e plantas consagradas, ou seja, hierofonias, etc. O sagrado equivale ao poder, o crente deseja profundamente ser e participar da realidade, é a sua fonte de vida. A vertente profana é tudo à volta da sagrada, ou seja, é a parte mais festiva, é caracterizada pelo arraial, música, danças, carrosséis, tasquinhas, etc. É uma realidade dessacralizada. É na Igreja que estes dois mundos se comunicam, onde há uma passagem do mundo profano para o mundo sagrado, em que a porta da Igreja simboliza essa mesma passagem.
O povo minhoto é caracterizado por uma mistura de superstições, gestos e atitudes iluminadas pela fé, este tem uma longa história de festas religiosas, que se multiplicam especialmente durante os meses de verão. Várias têm uma dimensão paroquial: por um lado, envolve unicamente os habitantes dum lugar onde se situa a capela, por outro, é promovido e faz parte das obrigações estatutárias das confrarias. Algumas, até ultrapassam os limites das paróquias e tornam-se de amplitude regional, municipal ou citadina, outras, ainda, apresentam-se como “romarias”, tornando o lugar turístico. A sociedade minhota é, na maioria, “seguidora” da Igreja Católica, tanto nos seus princípios como nas tradições, mas, no entanto, controladora qb.
O Santo é um nome, uma imagem e/ou uma lenda, um símbolo/modelo onde se reflecte os valores sociais. Em geral, os santos foram martirizados por uma autoridade ou por outros homens, “não têm mãe ou abandonaram-no, e foram pessoas errantes como todos os fundadores de religiões” (Moisés E. Santo).
Na visão dos peregrinos não há uma separação intelectual entre o símbolo (estátua do santo) e a realidade. É o objecto da devoção, é ele que cura ou protege a aldeia, e retirar a sua estátua da igreja é privar a comunidade da fonte consubstancializada da protecção celeste que a rodeia. As atitudes que se têm com as “estátuas” são as mesmas como para pessoas vivas, falam para ela, tocam, fixam com uma insistência de quem espera resposta, levam-se junto dela objectos familiares ou crianças.
A cultura popular da região minhota mantém características únicas. Torna-se uma tarefa difícil contar o número de festividades religiosas que se realizam por todas as aldeias minhotas, desde a Páscoa até à chegada do Outono. Uns celebram o Santo Padroeiro na Igreja Paroquial da aldeia e outros santos de forte tradição nas capelas dos lugares e, outros ainda, como nas cidades e vilas, as festas municipais que atraem os habitantes de todo o concelho e das imediações.
A festa religiosa é uma actualização anual de um evento sagrado, realizando-se no dia, por um lado, da comemoração de um santo ou, por outro, acontecimento religioso muito importante do passado, que, ritualmente, é tornado presente. Os crentes sentem a necessidade de reviver esse acontecimento importante, pois é o tempo sagrado que veicula o presente, a existência humana. No fundo, trata-se de lembrar, com profundidade, que é o sagrado que domina a vida do homem, daí o santificar e o tornar real. A festa pode ser encarada com alegria mas, também, com sacrifício. A alegria exprime-se pelo arraial em si, ou seja, a parte profana, ao passo que o sacrifício se caracteriza mais no âmbito religioso, isto é, o jejum, o silêncio, o cumprimento de promessas, etc.
Por estas bandas, a romaria veicula toda uma história cultural centrada na Igreja e o arraial transmite os traços de uma forma de diversão tradicional ligada, por vezes, à agricultura e ao ritmo sazonal do trabalho.
A festa do padroeiro é a festa da aldeia, que manifesta a sua vitalidade, vaidade e grandiosidade, abre a sua riqueza aos forasteiros. As comissões de festas preparam toda a parte religiosa e profana que compõe estes acontecimentos: os cantares ao desafio, o festival de folclore, o rock para os jovens e o maior número de diversões possíveis, a Igreja bem limpa, a profissão de fé dos mais novos com mantos a caracterizar os santos da igreja passeando pelas ruas principais da aldeia, foguetes para anunciar este tempo de pausa, a iluminação exterior da Igreja, a música que sai do alto do campanário, procissão, etc. O espaço festivo circunda sempre uma igreja ou uma capela. A lógica ritualista está na origem de todos os comportamentos colectivos susceptíveis de comunicar aos grupos, uma consciência da sua identidade e sacralidade.
Através desta pequena reflexão sobre o culto aos santos e religião, é possível observar que as características religiosas do povo minhoto são singulares, vividas de uma forma intensa, muito crente, tornando a temática sempre actual, uma vez que à medida do tempo vai aparecendo fenómenos religiosos diferentes e noutros sítios e todos os anos se revive aquele momento sagrado ou comemora-se em honra do santo.
Em qualquer parte do país encontramos manifestações religiosas, mas não com intensidade semelhante, sendo considerado um fenómeno curioso e a ser estudado, uma vez que desperta várias questões psicossociais, económicas, culturais e antropológicas.

Por: Sílvia Machado

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