Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-09-2006

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (69)
OS SINOS DA VELHA GOA …

Decorria o período de Natal do ano de 1961, e este era um slogan continuamente repetido pela Emissora Nacional, que emitia a partir de Lisboa: “os sinos da Velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portugueses”. Tratava-se de uma espécie de conforto nacional, para atenuar o trauma causado pela ocupação do Estado Português da Índia, pelas tropas da União Indiana, ocorrida a 19 de Dezembro daquele ano de 1961.
O Estado Português da Índia era constituído pelos territórios de Goa, Damão, Diu e os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, todos na costa ocidental da península do Indostão, voltados para o mar arábico. Para quem não se encontre muito familiarizado com cartas geográficas, informo que a distância entre Goa e Damão e Diu é da ordem dos oitocentos quilómetros, ficando Goa a cerca de seiscentos quilómetros a sul de Bombaim, e Damão e Diu, a cerca de duzentos quilómetros a norte de Bombaim. O Estado Português da Índia era, na verdade, um conjunto de territórios muito dispersos, ao longo da costa do mar arábico.
A Índia dos dias de hoje é uma enorme encruzilhada de contrastes. Em termos económicos, disputa com a China e o Brasil o nono lugar imediatamente a seguir ao denominado G 8 (EUA, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão e Rússia). Em termos de população, é o segundo país mais populoso do mundo, a seguir à China. Tem mais de mil milhões (um bilião) de habitantes. A cidade de Nova Delhi, a capital, tem catorze milhões. A segunda cidade de país, designada como a cidade do têxtil e do cinema, a Hollywood da Índia, Bombaim, tem quinze milhões.
Quando falo de contrastes, pretendo referir-me, muito especialmente, ao aspecto social. A Índia orgulha-se de ser a maior democracia do mundo. Tem muitos milhões de pessoas pobres e muito pobres. Tem também bastantes milhões de pessoas ricas e muito ricas. Porém, a miséria por vezes choca. Em Bombaim, dos quinze milhões de pessoas que habitam a cidade, cerca de cinco milhões vive em bairros de lata. Quem por ali passa, verifica que, muito dificilmente, será possível dar uma habitação e uma vida minimamente digna, a um tal “formigueiro humano”.
Eu gosto de falar apenas daquilo que sei e daquilo que vejo. Este ano, tive a oportunidade de percorrer grande parte do território da Índia dos dias de hoje, incluindo o actual Estado de Goa. Como ainda me lembrava do que aprendera na quarta classe da minha instrução primária, pude verificar que a Velha Goa de que falava o slogan de 1961, era a antiga capital do Estado, onde se situam os grandes monumentos edificados pelos portugueses, com especial relevo para a Igreja de S. Francisco Xavier, que acolhe o túmulo do Santo, o Apóstolo das Índias, cujo corpo se mantém incorruptível.
Tanto a nova capital, a cidade de Panagi (Pangim em português), como a Velha Goa, ambas ficam na margem esquerda do rio Mandovi. O rio Mandovi sofre a influência das marés em grande extensão, e assemelha-se de certo modo ao rio Tejo. A paisagem é que é muito diferente, trata-se de uma vegetação luxuriante, verdadeiramente tropical.
Panagi, é uma cidade como qualquer outra cidade da Índia, embora se note alguma influência portuguesa. Porém, a Velha Goa, onde apenas restam as igrejas e outros monumentos, e que fica mais para o interior relativamente a Panagi (Pangim), foi totalmente demolida aquando de um surto de peste bubónica. Os espaços que ficaram livres, após a demolição de tudo que não fosse monumento, foram transformados em áreas verdes, tudo ao estilo britânico.
De acordo com informação do guia turístico, que tinha raízes portuguesas e falava português, o traçado da nova urbanização da Velha Goa, foi da autoria do último governador português do território, o General Vassalo e Silva. Aquando da ocupação, as obras encontravam-se em curso, e foram devidamente concluídas pelas autoridades indianas.
Não quero terminar este texto sem referir que, do conjunto dos monumentos que venho referindo, faz parte um museu, todo ele com motivos portugueses, e onde se destaca um painel com os nomes dos 163 vice-reis e governadores, que governaram o território entre 1505 e 1961. Numa galeria, com cerca de duzentos metros de extensão, encontram-se grandes quadros com os retratos da maior parte dos 163 governadores, estando em último, a do General Vassalo e Silva. Esta galeria comporta ainda, em grande plano, quadros com as fotografias de Salazar e Américo Tomás. Pormenor, que ainda não consegui ver, em qualquer outra parte do mundo.

Por: José Costa Oliveira

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