Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2006

SECÇÃO: Crónica

O ALTO MINHO

foto
A minha segunda terra…

Queridos leitores depois de aproveitar de umas merecidas férias no Alto Minho, cá estou de novo a escrever esta singela crónica para não deixar que vocês se esqueçam de mim.
Espero que todos os leitores do Ecos de Basto, assinantes fixos ou eventuais, que estejam de férias dentro ou fora do país tenham tido umas férias muito tranquilas. As minhas, graças a Deus também foram boas.
E porque ainda estou com a cabeça meio a flutuar, devido aos dias de boa vida sem fazer nada, resolvi sentar-me em frente ao computador e escrever algo leve sem grandes exercícios de memória.
Por isso resolvi falar-vos um pouco dos locais onde passei, como de costume as férias, os quais considero ser a minha segunda terra. Isto sem desprimor da minha queridíssima terra que é Cabeceiras de Basto. Mas com toda a sinceridade vos digo que no Verão sou sempre atraída até aos concelhos de Vila Nova de Cerveira, Caminha, Moledo e Praia de Âncora.
Hoje quero falar um pouco do Alto do Minho, isto é de Melgaço a Viana do Castelo.
Deu-La-Deu Martins a guerreira de Monção
Deu-La-Deu Martins a guerreira de Monção
Talvez se recordem de eu escrever numa ou noutra crónica anterior que os meus pais foram para Valinha do Minho, concelho de Monção quando tinha mais ou menos um ano de idade, que vivemos lá cerca de sete anos e onde nasceram mais cinco irmãos, sendo o último nascido o meu irmão Joaquim Campos. Foi a partir daquela terra que o meu pai emigrou para França e deu outro rumo à sua vida. A vida naquele tempo era muito difícil e ele já tinha seis filhos todos pequenos. Graças a Deus a vida não o desamparou. O que mais lhe custou foi estar longe da sua família.
Quero com isto dizer que apesar de termos vindo embora para Cabeceiras, nunca perdi os laços com Monção. Vou lá quase todos os anos. É quase como uma promessa em direcção a um santuário. Fui mantendo os laços com as sobrinhas (Irene, Céu, Constança e Alice) dos donos da quinta, da qual o meu pai era feitor e que eu considero como família bem como outros vizinhos da casa onde vivíamos.
Ínsua - Ilha que fica em frente à praia de Moledo
Ínsua - Ilha que fica em frente à praia de Moledo
Os cinco irmãos que nasceram em Monção ficaram a pertencer ao Distrito de Viana do Castelo.
Como neste Verão me encontrava em Moledo com o Joaquim a passar uns dias na praia resolvemos ir os dois à terra onde ele nasceu. Como era o mais pequenino naquela altura, pois não tinha mais que ano e meio a dois anos, não tem recordações de lá mas queria voltar a ver a casa onde vivemos. Claro que depois de quarenta e tal anos já só existem as pedras e mesmo essas já estão dentro de outra construção moderna. Devo dizer que os nossos olhos ficaram húmidos de emoção. Paramos o carro naquele caminho que o meu pai e a minha saudosa mãe e nós tantas vezes atravessamos. Atrevemo-nos a empurrar o portão velhinho que dava directamente para a casa e disse ao meu irmão:
-” Ó Quim este portão foi tantas vezes empurrado por nós. Está velhinho mas ainda é duro. Já vistes? Os nossos pais passaram tantas vezes as mãos por ele!...Quem sabe se as nossas impressões digitais ainda se encontrem cá!”
Praça principal de Caminha
Praça principal de Caminha
Entramos , seguidos por uma atenciosa senhora, vizinha com quem trocamos algumas palavras e nos identificamos. Quando lhe dissemos que éramos filhos do senhor Manuel do “Ribeiro” (era assim chamado devido ao nome do proprietário da casa que se chamava Dr. Ribeiro) reconheceu-nos logo e perguntou pela minha irmã Otília, que é logo a seguir a mim.
Apesar de lá ter ido algumas vezes, naquele dia senti uma emoção por acompanhar o meu irmão Joaquim. Fomos entrando devagarinho e olhando com curiosidade e fui dizendo:
- “Neste quintal havia um tanque de pedra onde eu parti a cabeça!”
A Igreja matriz de Vila Nova de Cerveira
A Igreja matriz de Vila Nova de Cerveira
- “E ainda existe!” Disse prontamente a vizinha da casa.
E eu continuava:
-”Agora tem uma piscina entre as duas casas! Antigamente haviam medas de palha para pensar o gado e nas quais se escondiam as galinhas e os patos a chocar os ovos.”
E as “latas” (ramadas de uvas fechadas), que faziam uma espécie de túneis já não existiam, agora estavam abertas ao sol.
O Cervo - Simbolo de referência de Vila Nova de Cerveira
O Cervo - Simbolo de referência de Vila Nova de Cerveira
Mas a surpresa foi quando o actual dono da quinta apareceu. Ele é casado com a neta do falecido Dr. Ribeiro que ficou com a quinta e que é nada mais nada menos que um ex-colega de medicina do nosso Doutor Serafim China Pereira, Presidente da Assembleia Municipal de Cabeceiras de Basto. Depois de lhe explicarmos o motivo da nossa presença junto à antiga casa recentemente reconstruída, disse-nos que estudou medicina com ele e que foram colegas de quarto. E que também era amigo do irmão dele o Engº César China Pereira. Se não me falha a memória disse que se chamava António Rodrigues e claro mandou muitos cumprimentos ao amigo e colega.
Andamos também à procura da “Maria do Pinto” que devia andar pelos quintais a cortar as pontas dos ramos das videiras do vinho Alvarinho. Ela ainda continua a prestar serviço pela vizinhança. Apesar de eu a chamar em voz alta não nos ouviu e o tempo estava a passar e tínhamos que regressar para almoçar. Foi muito amiga da minha falecida mãe e foi também a parteira dela. Pena que o meu irmão a não tivesse visto. Fica para uma próxima vez. Quem sabe para o próximo ano!...
Vou mudar um pouco o tema da saudade.De que certeza que já vos apercebeste como eu sou. Quando vou ás lembranças perco-me e vós já não tendes “pachorra” para me aturar.
Por fim, posso dizer-vos que estas férias foram especiais, até porque o tempo esteve maravilhoso. Assisti às Festas de Santa Rita de Cássia, de quem eu tenho muita devoção. Assisti a um espectáculo com o conhecido Carlos Mendes que nos brindou com canções da minha geração e que encantou também os mais novos. Mas o que mais gostei foi de assistir a um concerto dado em Moledo pelo Maestro Vitorino de D'Almeida numas pseudo ruínas junto à Praia de Moledo.
Nádia de Sousa a cantar Edit Piaf acompanhada ao piano pelo maestro e compositor António Vitorino D'Almeida na Praia de Moledo
Nádia de Sousa a cantar Edit Piaf acompanhada ao piano pelo maestro e compositor António Vitorino D'Almeida na Praia de Moledo
Apesar do seu “ar” permanente de “desleixo”, próprio de pessoas com um grande nível intelectual e artístico, de não largar a sua bengala, que é um acessório que o completa, vou dizer-vos que sinceramente gostei de o ver e ouvir pela primeira vez a acompanhar ao piano uma jovem chamada Nádia de Sousa, que por sinal tinha entrado no programa “Chuva de Estrelas” onde o Dr. Vitorino fazia parte do júri. De maneira que achou que ela tinha potencial de voz e pelos vistos agora têm actuado juntos. Foi uma surpresa para mim porque até não sou muito chegada a pianos mas digo-vos, ouvir tocar e cantar Edit Piaf e Jack Brell foi de mais. Toda a gente que assistiu ficou fascinada. No fim do espectáculo não resisti a dar-lhe um abraço. A próxima vez que for a Caminha vou atrever-me a pedir-lhe uma entrevista para o nosso Ecos de Basto.
Claro que também aproveitei para tirar muitas fotos na praia em especial à Ínsua e ao mar.
Vista parcial da praia de Moledo
Vista parcial da praia de Moledo
Mas a conversa já vai longa. E de certeza que alguns de vós estareis a perguntar o porquê desta história, talvez um pouco maçadora mas desculpem lá. É o que vos digo. Eu gosto de partilhar as minhas alegrias e saudades com aqueles por quem eu tenho respeito e um enorme carinho. Sois vós com as vossas palavras de carinho e reconhecimento que me incentivam a continuar a escrever. Mesmo que a minha “escrita” tenha as suas limitações, gosto muito de ler e escrever mas não possuo nenhum curso universitário. Mas penso que a simplicidade das minhas palavras são entendidas por vós, ou pelo menos por aqueles que pensam e sentem como eu.
Mais uma vez muito obrigado pela vossa paciência. Até a uma próxima.

Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.