Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2006

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (68)

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O PESCADOR ZEFERINO

O seu nome completo, como fez questão de se apresentar, é Zeferino Alho Fialho, dedica-se à actividade da pesca, tem cerca de sessenta anos e mora próximo das margens do Rio Peio, algures na freguesia de Pedraça. O apelido de Alho vem-lhe de sua mãe, que pertencia aos Alhos de Boadela, e o de Fialho vem-lhe do pai, que pertencia aos Fialhos da Carrapata, tudo gente de Pedraça.
Abordou-me há algumas semanas, quando eu estava, pelas sete horas da tarde, num dos cafés do largo da Boavista, fortemente concentrado e absorto, a resolver o puzzle dos números do Jornal de Noticias. Tocou-me no ombro, tão concentrado que eu estava que me assustei, e disse-me:
- Desculpe se o incomodo, mas já andava há um bom par de semanas a tentar encontrá-lo…
- Então porquê? Perguntei.
- Olhe, eu sou pescador e acompanhei todo o processo da jibóia. Lá que possa dizer que a vi, isso não, eu nunca a vi com estes dois, mas que presenciei, por mais que uma vez, um forte reboliço no meio dos amieiros e dos salgueiros da margem do rio, ali bem perto da ETAR, isso é a mais pura das verdades. Também lhe devo garantir que só voltei à pesca, naquela área do rio, quando soube que a cobra fora apanhada por uma águia e levada para a serra da Orada.
- Então o meu amigo parece que tem medo das cobras, mas não se envergonhe, olhe que eu estremeço, sempre que vejo alguma, mesmo que esteja morta, estendida no chão. Pela idade que aparenta deve ter andado na tropa, talvez no ultramar…
- Tenho sessenta e cinco anos, fui dos primeiros a avançar para Angola, em 1961. Lembra-se de ouvir falar na Pedra Verde?
- Sim, lembro. E também me lembro de Nambuangongo, de Maquela do Zombo, do Ambriz e outros nomes assim…
- Ah! O Senhor sabe da poda! Também esteve em Angola?
- Não. Eu não estive em Angola, estive mais longe, mas ouvia as crónicas de Angola de Ferreira da Costa.
- Pois eu estive em Angola vinte e sete meses, sempre em zonas de guerra, e quando lá cheguei, a primeira acção em que participei foi na libertação do morro da Pedra Verde, ficaram lá dez dos meus camaradas. Eu, graças a Deus, regressei sem uma única mazela, como pode ver.
- E histórias da pesca? Tenho ouvido que por vezes pescam para aí grandes trutas, penso que até houve um caso em que um seu colega teve que abater uma a tiro de pistola, junto à Ponte do Seixo, que pesava sete ou oito quilos…
- Esse caso passou-se comigo, vai para aí há uns vinte anos. Devo dizer-lhe que sou hábil a manejar uma pistola, como já lhe referi fui dos que subiram a Pedra Verde, em Angola, para desalojar de lá os chamados turras, mas tive alguma dificuldade em acertar na truta, já que foi necessário puxá-la à tona da água para depois lhe apontar a arma e, como imagina, ela rabejava fortemente, só ao terceiro tiro é que consegui imobilizá-la. Pesava cinco quilos e novecentos gramas, vendi-a para o hospital, naquele tempo rendeu-me, já não sei bem, mas talvez uns quinhentos escudos. Como acaba de ver, a minha actividade principal é a pesca, mas também me dedico à caça, caso contrário não teria tão bom dedo para o gatilho…
- De onde lhe vêm essas qualidades, de dedo para o gatilho, naturalmente de algum familiar? Perguntei.
- Resposta: Vem tudo do meu avô materno, o pai da minha mãe, chamava-se Óscar Alho…
- Como?
- Óscar Alho, o meu avô materno, o pai da minha mãe, chamava-se Óscar Alho…
Eram cerca de oito horas, nas mesas ao lado havia pessoas que escutavam e olhavam de soslaio para a nossa presença. Eu aproveitei para dizer que a minha mãe já devia estar com a sopa pronta à minha espera. “É que eu, ao jantar, como apenas sopa, como antigamente”, aproveitei para referir ao meu recente amigo Zeferino. Ele deitou um sorriso matreiro e despediu-se dizendo: “gostei muito de falar consigo, se me permitir voltarei ao seu encontro para continuarmos a conversar”.
Apareça sempre que queira e possa, disse-lhe eu, e até amanhã….

Por: José Costa Oliveira

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