Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2006

SECÇÃO: Opinião

TER SEMPRE DINHEIRO

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Nascida no lugar da Malga, onde viveu toda a sua longa vida, a Senhora Joaquina do Caetano veio ao mundo no último quarto do século XIX e faleceu em 1976.
Dotada de forte expediente, nada lhe metia embaraço. Procurava ter sempre dinheiro através de pequenos negócios como ovos, fruta, petróleo e o mais que aparecia. E como é costume dizer-se, “uma roda só não vai ao monte”, a senhora Joaquina ajudava ainda seu marido nas lides do campo. E assim criou quatro filhos.
O Manuel, nascido em 1905 e falecido em 1976, foi novo para o Porto. Lá casou, deixou duas filhas que hoje já não são novas e poucas vezes vieram a Cavez. São a única descendência da Senhora Joaquina.
O José, nascido em 1907 e falecido em 1992, o António, que nasceu em 1910 e morreu em 1937, com 27 anos apenas, derivado a uma ferida crónica numa perna, originada por um ferimento contraído na tropa. Finalmente, a Emília, 14 anos mais nova que o António, nasceu em 1924 e já falecida, casou com o António Borges, que foi Guarda republicano, e não deixou família.
Em 1941, a Senhora Joaquina aumentou o seu património com a compra da casa e horta da minha avó paterna, mesmo assim não passaram de uns pequenos agricultores. Além do quintal da Malga, que era muito bom, tinham também as terras do Ribeiro do Arco: os Meroucos e as Levadinhas, o que dava para viver limpamente.
Com a morte do seu marido, Júlio Leite, em 1947, a Senhora Joaquina passou a administrar a sua casa, tendo como criado o seu filho José, ou simplesmente Zé Caetano, que ficou solteiro, muito poupado, teve sempre uns patacos, porque além de trabalhar para casa, ganhava também por fora a sua jeira.
Quanto à sua mãe, muito conhecida em Cavez pelo seu farfalhudo bigode, era mulher frenética e por isso madrugadora. Logo manhã cedo chamava pelos filhos Emília e Zé. O Zé, muito trabalhador, mas pouco madrugador e, por esse facto, começavam logo de manhã a ralhar um com o outro:
- Levanta-te, Zé para “jongueres” as vacas, irmos ao Ribeiro do Arco buscar um carro de lenha.
O Zé fazia de conta que não era com ele, não deixava que o Sol o visitasse na cama, mas pouco menos!
Vacas ao carro, o Zé a chamar os animais e lá iam os três a fazer aquele quilómetro de estrada, distância entre a Malga e o Ribeiro do Arco, mais ou menos dia sim, dia não.
Na vindima, o Zé subia a escada para apanhar os cachos lá no alto e sua mãe vindimava do chão. A Emília guardava o gado. Por isso, o trabalho demorava muitos dias, pois não chamavam ninguém para não pagar jeiras.
Numa tarde, quase a sumir-se o Sol, estavam quatro cestos cheios de uvas e o Zé em cima de um bardo a apanhar os últimos cachos, quando a mãe lhe grita:
- Ó Zé, desce para baixo e carra os cestos para as dornas.
O Zé responde-lhe:
- Que os carre a rapariga!
Mas a Senhora Joaquina sabia que a Emília andava com a menorreia e não podia fazer aquele esforço e diz-lhe:
- A moça anda doente e vai tocar as vacas para cá.
O Zé enerva-se, começa a gesticular e, num gesto mais brusco, cai abaixo. A mãe, aflita, corre para o filho e chama-o:
- Ó Zé, Oh, Nossa Senhora!
O Zé, ainda no chão, berra-lhe:
- Não é Nossa Senhora, nem meia Nossa Senhora, você é que é o Diabo e foi a causadora de eu cair!
Por sorte, o Zé não apanhou grande porrada e pôde levar os cestos para a dorna.
Do Ribeiro do Arco à Malga, ralharam todo o caminho.
Entretanto, a Emília casou, como já se disse, indo viver para Guimarães, onde o seu marido exercia as funções de Guarda republicano.
Assim, o Zé e a mãe ficaram sós, embora esta gostasse que o filho arranjasse uma mulher. Mas o Zé tinha-lhe medo e viria a morrer, como já se disse, solteiro, na companhia da irmã que, entretanto, veio viver para a Malga, depois de o seu marido ser reformado.
Dos Caetanos da Malga, e eram duas famílias, já não é ninguém vivo. Restam filhos e netos.

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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