Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Elvira da Silva Brites
De costureira a formadora multifacetada

Natural de Huambo, Angola, com 43 anos, mestiça por descendência de mãe africana, radicou-se com a família de mais sete irmãos em Arco de Baúlhe, pouco antes do 25 de Abril de 1974.
Tinha 11 anos quando veio para Portugal e durante muito tempo ainda acordava sobressaltada pelo pavor das bombas e dos tiroteios do período final da guerra colonial.

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Frequentou a Telescola e logo a seguir dedicou-se, com a mãe, à profissão de costureira, actividade que manteve até há bem pouco tempo. As dificuldades que afectam esta profissão foram porém, pretexto para a lançar noutros voos, com destaque para a formação profissional onde exerce, actualmente intenso labor em toda a região.
Por forma a conhecer melhor esta mulher dos “sete instrumentos”, Ecos de Basto escolheu-a para figura da Nossa Gente desta quinzena.
Ecos de Basto – O regresso apressado de Angola, em 1974, deveu-se ao agudizar dos confrontos da guerra colonial e da perseguição entre grupos rivais e portugueses ali emigrados. Que recordações tem desse período?
Elvira Brites – A imagem que guardo ainda desse tempo é dum pavor indescritível. Huambo era uma cidade alvo e, não raras vezes, assistia a confrontos violentos entre civis e militares. O troar das bombas e das metralhadoras assustava-me imenso. O medo de ser atingida ou alguém da minha família perseguia-nos a todas as horas. Não descansava e não dormia. Um verdadeiro pesadelo que nos atormentava constantemente. Havia de tomar uma decisão e sair dali. Os meus pais não tiveram alternativa senão fugir para Portugal. Viemos assim, para perto da terra de meu pai que é de Canedo de Basto e aqui nos radicamos até hoje.

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Actividade múltipla

E.B. – Costureira, modista, formadora e criadora de arte floral são as suas actividades dos últimos tempos. Como vê cada uma dessas profissões?
E.S.B. – Olhe! Todas estas actividades se relacionam entre si e vejo-as numa perspectiva multidisciplinar. Fazer, criar e transmitir conhecimento é do que eu mais gosto. É um trabalho entusiasmante que me realiza e me satisfaz. Comecei por ser costureira e evolui, aprendendo cada vez mais. Procurei ir sempre mais longe com o objectivo de estar actualizada com a moda e as novas tendências. Participei em vários concursos e ganhei diversos prémios por trabalhos originais. Mas recentemente tenho-me dedicado mais à formação profissional e à Arte Floral na vertente técnica dos sabonetes. Não tenho parado um bocadinho, não só dando formação, como também adquirindo conhecimentos em novas áreas, como é o caso da arte floral em vários materiais que vão do sabonete ao milho e ao estanho. Para além disso, fiz à pouco uma formação em culinária que me permite dar também esta área nos cursos formativos. Neste seguimento da formação estou ainda a fazer uma especialização na cozinha macrobiótica.

Força de vontade e dedicação

E.B. – A que se deve essa actividade tão multifacetada?
E.S.B. – Tem sido com grande força de vontade e muita determinação que tenho conseguido aquilo que quero e que mais gozo me dá. Tenho avançado sempre na área dos conhecimentos, o que me tem permitido receber convites continuados para a área da formação profissional. Trabalhei durante quase trinta anos na confecção de roupas o que se tornou cansativo. Como gosto de inovar, ir sempre mais além e tentar novas experiências enveredei por formas artísticas diferenciadas. Ainda pelo Natal lancei uma nova iniciativa que levei a França a uma exposição promovida por uma associação. Tratou-se da concepção de seis presépios, com todas as figuras bíblicas e outros acessórios feitos a partir do sabonete. Isto aconteceu porque na exposição da Festa do Emigrante de Cabeceiras de Basto em que participei, elementos franceses presentes apreciaram o meu trabalho convidando-me a enviar para Arbes algumas peças desta arte que foram muito elogiadas, já que o tema Natal e os presépios constituíram uma surpresa original.
E.B. – Das profissões que tem desenvolvido qual é a que mais a motiva e a que mais gosta?
E.S.B. – São todas interessantes e motivadoras. E para quem gosta de trabalhar nada a atrapalha. A confecção e a postura são muito presas e exigem muita paciência e atenção. As áreas da formação e da arte floral são, por sua vez, mais livres, exigem maior comunicação e socialmente mais estimulantes. É por isso, que eu me sinto melhor agora na formação. Os termas são diversificados, os formandos vêm de vários sítios, conhecem-se novas realidades e conquistam-se experiências múltiplas com as quais aprendemos muito.

A culinária como novo aliciante

E.B. – Em que áreas de formação se sente mais à vontade e melhor domina os conteúdos?
E.S.B. – Não tenho dificuldades em geral, se bem que actualmente, a minha preferência vá para a culinária. A cozinha é, de facto, aliciante e usa técnicas e receitas infindáveis, que nós exploramos de mil e uma maneira. Por outro lado, formar neste particular dá aos formandos e a mim a sensação de que se está perante uma actividade de plena utilidade prática, com saídas profissionais de futuro.
E.B. – Nos cursos que tem ministrado sente que os formandos ou as formandas adquirem preparação suficiente para exercerem uma profissão?
E.S.B. – É claro que depende do interesse e da dedicação de quem quer aprender. Mas, se o formando ou a formanda forem empenhados e determinados poderão adquirir novos conhecimentos e competências que os qualificarão a novos desempenhos e a uma melhor integração na vida activa. Como se sabe, na área da formação profissional há aqueles que se servem dos cursos como parcerias de auto-subsidiação, ou mero expediente formal de resolver conjunturalmente a situação de dependência. Mas há também aqueles e aquelas que vão para a formação com o objectivo de aprender novas profissões e novas qualificações que os projectam para o mundo do trabalho e para a vida. Conheço muitos casos de sucesso nas nossas terras.

A Formação profissional e a sua importância

E.B. – Considera, ou não, que a formação profissional está a ser bem sucedida na nossa região?
E.S.B. – Acho que a formação dada na nossa região tem sido muito útil e importante para as pessoas que dela beneficiaram. Daquilo que eu conheço, muitas pessoas têm conseguido novos empregos e melhorado a sua condição social e económica. Particularmente os jovens, que são um potencial importante nesta área e que têm sabido aproveitar as oportunidades da formação e da qualificação. O investimento nas áreas da formação são cada vez mais necessários para os portugueses devido às questões da concorrência e da competitividade. Temos que aprender sempre mais para dominarmos as novas tecnologias e sermos mais empreendedores e inovadores.
E.B. – Sabemos que tem prestado colaboração empenhada ao Ensino Recorrente e Extra-Escolar de Cabeceiras de Basto. Como vê a acção desenvolvida por estes serviços locais nas áreas de apoio à formação artesanal?
E.S.B. – Tenho trabalhado com imenso gosto, desde há alguns anos, nas acções de formação e promoção social levadas a cabo pela estrutura concelhia do Ensino Recorrente. Com um público alvo diferenciado e sem os objectivos da formação profissional, esta acção do Ensino Recorrente é, também ela, de relevante importância para as comunidades e para as pessoas que vivem distantes da vila, muitas ainda analfabetas ou com graus de ileteracia acentuados. A minha colaboração com o Ensino Recorrente tem sido no âmbito da promoção de cursos práticos em múltiplas áreas das actividades domésticas e artesanais. Foi, aliás, por aqui que eu iniciei a função de formadora, o que constitui uma boa razão para continuar a fazer este trabalho. Nos últimos dias deste mês de Junho vamos mostrar mais uma exposição dos trabalhos executados nas acções realizadas ao longo deste ano.
Este é o retrato possível da actividade profissional desta figura conhecida no nosso meio ao qual ainda é preciso acrescentar o seu contributo nos concursos dos Vestidos de Chita promovidos no Arco de Baúlhe e em Celorico de Basto nos quais tem arrebatado vários primeiros prémios.
A ideia e a realização do Arcofashion também lhe pertencem em grande medida, assim como se assinala a sua constante acção e movimento em tudo o que seja aprender coisas diferentes, como é o caso de estar, presentemente, a frequentar um curso de pintura em vidro, tecido e tela.

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